Descrição de chapéu Obituário Damaris Oliveira Lucena (1927 - 2021)

Mortes: Torturada no regime militar, fez da dor a luta por justiça

Após presenciar a morte do marido e ser torturada, Damaris Oliveira Lucena recebeu asilo em Cuba

São Paulo

Damaris Oliveira Lucena protagonizou um dos períodos mais tristes da história brasileira —a ditadura militar. Do sofrimento extraiu a pauta para boa parte dos seus 93 anos: a luta por uma sociedade mais justa.

Natural de Codó, que fica a 290 km de São Luís (MA), casou-se com o militante político Antônio Raymundo de Lucena e teve os filhos Ariston (já falecido), Denise, Adilson e Ângela.

Em 20 de fevereiro de 1970, Antônio foi assassinado em Atibaia (64 km de SP), por agentes da força pública, e Damaris torturada e ameaçada de morte com os filhos Denise, Adilson e Ângela, que presenciaram o ocorrido.

Damaris Oliveira Lucena (1927-2020)
Damaris Oliveira Lucena (1927-2020) - Arquivo pessoal

O Lar Mariquinha Lopes recebeu as crianças, que depois seguiram ao Juizado de Menores, enquanto Damaris foi levada à delegacia de Atibaia e posteriormente à Oban (Operação Bandeirantes), onde permaneceu por 23 dias em sessões de tortura.

Passado o período, encontrou os filhos no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e seguiu com eles ao México e Cuba, onde receberam asilo. Nos seis primeiros meses, Damaris ficou hospitalizada para curar os ferimentos e traumas causados pelos espancamentos e sessões de choque.

Depois, entregou-se à vida. Alfabetizou-se no idioma espanhol e estudou até o segundo ano de jornalismo.

“Estar lá foi a diferença entre a vida e a morte, e iniciar o processo de ser tratada com respeito, dignidade e reconhecimento”, afirma a tradutora e professora de espanhol Ângela Telma Lucena, uma das filhas.

Damaris tornou-se mãe adotiva de Ñasaindy, filha da militante Soledad Barrett Viedma, assassinada em um dos mais trágicos episódios do regime militar, o Massacre da Chácara São Bento. Desde que voltou ao Brasil, em 25 de maio de 1980, buscou justiça pela morte do marido.

Profissionalmente, atuou como cozinheira, arrumadeira, babá e secretária, e abriu uma escola de alfabetização. Ao mesmo tempo, dedicou-se a trabalhos sociais e humanitários.

De conduta exemplar, não deixou faltar aos filhos um ambiente de amor, carinho e positividade.

Damaris morreu no dia 20 de dezembro, aos 93 anos. Deixa quatro filhos e nove netos.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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