Descrição de chapéu Coronavírus maternidade

Pandemia deflagra crise do cuidado e põe em risco conquistas femininas; leia depoimentos

Sem redes de apoio e divisão igualitária das tarefas da casa, mães perdem autonomia e trabalho

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São Paulo

No pior cenário que imaginei para esta reportagem, ela seria substituída por um aviso: “As repórteres, editoras e personagens do texto que ocuparia este espaço, todas mães, não tiveram condições objetivas, sanitárias e humanas para concluírem a proposta inicial. Foi mal. É o que temos pra hoje”.

Os desencontros, interrupções, gritos e choros que acompanharam entrevistas aqui reportadas sugeriam um grau de desarranjo e imprevisibilidade capazes de surpreender os melhores planejamentos.

Também mãe de crianças pequenas e às voltas com as tentativas de acomodar em 24 horas as demandas constantes de três frentes de trabalho (remunerado, doméstico e parental), fiz o que foi possível, não sem me sentir devedora e inadequada mesmo dentro do meu evidente privilégio.

Um ano após o início da pandemia e do distanciamento social no Brasil, mulheres que têm filhos parecem estar no limite. Sobrecarregadas, exaustas e frustradas, elas perderam a autonomia, o emprego, o sono ou a cabeça —tudo junto ou em combinações variadas.

Ao fechar creches e escolas e isolar pessoas, a crise sanitária global fez ruir as redes de apoio (solidárias, públicas ou contratadas) que permitiam a essas mulheres ter vida produtiva relativamente independente, ameaçando retroceder conquistas femininas em décadas.

Não surpreende, portanto, que as mulheres tenham sido mais afetadas pela crise global, a ponto de inspirar a expressão em inglês “shecession”, flexão de “she” (ela) e “recession” (recessão) —algo como “a recessão delas”.

Mulheres foram mais impactadas pela pandemia em sua integridade física (com o aumento da violência doméstica) e saúde mental, além da estabilidade financeira. Elas perderam mais emprego e vêm sendo preteridas nas recontratações, além de não conseguirem participar como antes da produção científica ou mesmo da vida pública.

O percentual de mulheres brasileiras que trabalhavam ou buscavam trabalho no segundo trimestre de 2020 (45,8%) caiu ao mesmo nível de 30 anos atrás (45,8%), depois de se manter bem acima de 50% ao longo de todos esses anos, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e Pnad Contínua.

Para as que conseguiram fazer home office, a sobrecarga do trabalho doméstico aumentou com as crianças (e suas aulas virtuais) em casa, colocando parâmetros pré-pandêmicos de produtividade em xeque.

Já as mães que precisaram sair para trabalhar se viram diante do medo da contaminação e do impasse de não terem com quem deixar os filhos, o que levou ao abandono do trabalho ou a demissões.

Além disso, os setores de alimentos e serviços domésticos, que contratam mais mulheres e mais mulheres negras, foram os mais afetados pela Covid-19, e isso penalizou esses grupos de maneira desproporcional.

Foi assim com Vailma Santos, 26, mãe solo de Heloísa, 5, que trabalhava num restaurante estrelado de São Paulo até maio de 2020, quando foi demitida. “Senti uma turbulência por dentro e um medo enorme de falhar como mãe”, diz, emocionada. “Nunca falo sobre isso. Não tenho tempo”, chora ela.

Contratada no final do ano como auxiliar de limpeza, Vailma hoje remunera a própria mãe para que cuide de Heloísa enquanto ela trabalha. Na volta para casa, se dedica a outros desafios da pandemia materna. “Heloísa confunde S com Z. E professora tem paciência, né? Eu não tenho tanta. Estou sempre cansada”, admite. “Queria oferecer opções melhores pra minha filha, mas sozinha é complicado.”

Transformadas em arremedos de professoras a contragosto, mães tiveram de sobrepor à jornada tripla a responsabilidade pela escolarização remota das crianças.

É uma conta que não fecha. Sem mágica, ela só se resolve à medida que a mulher abre mão de horas de sono, rotinas de autocuidado e tempo de lazer.

Tendo ao fundo uma casa de tijolos aparentes, com fios sobre uma rua estreita, mãe e filha se abraçam, e a menina, Heloísa, beija a mãe, Vailma
Vailma Santos, 26, chega do trabalho e encontra Heloísa, 5, em casa, no Capão Redondo, em SP - Marlene Bargamo

Esse pacote compromete o bem-estar físico e emocional dessas mulheres, com repercussões nas próprias funções cognitivas e, portanto, no desempenho produtivo e na funcionalidade.

“O estresse crônico que atinge as mães com a sobreposição desses trabalhos todos trouxe uma sobrecarga de atenção, que agora fica ativada de maneira mais frequente e intensa”, explica o psiquiatra Gilberto Sousa Alves, professor de saúde mental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ele, que também leciona na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a pandemia provocou uma primeira onda de aumento na incidência de transtornos mentais da ordem de 30%, com medo da morte, consumo excessivo de álcool, estresse pós-traumático pela morte de parentes e até ideias suicidas. Mulheres eram maioria.

O medo da morte bateu com força na atriz e professora de movimento Gabriela Cordaro, 42, mãe de Martim, 7, e Lina, 4. Ela teve suspeita de Covid-19 e, depois, uma sequência de febres inexplicáveis.

“Comecei a ter problemas para dormir. Deitada, ficava pensando em todas as desgraças do mundo e sentia muita insegurança em relação ao que poderia acontecer”, lembra. No auge dessa sensação, ela começou a mandar suas senhas e informações sobre os filhos para a irmã. Vai que...

O psiquiatra Alves avalia que uma “segunda onda de transtornos tem ocorrido agora e é consequência da primeira onda”. “Ela envolve esgotamentos, problemas de sono e de concentração, irritabilidade, esquecimentos, distrações e perdas de compromissos, que ainda geram culpa porque as mães se pressionam e sofrem pressão”, diz.

“Planejar e monitorar tarefas requer muita energia do ponto de vista neurobiológico. E fazer isso o dia todo, por tanto tempo, é muito exaustivo. O cérebro humano não está preparado para esse tipo de uso tão prolongado.”

Andressa Reis, 36, criadora de conteúdo para mães, diz estar nessa loucura. “Tenho filtrado muita coisa para poder focar naquilo que é mais necessário. Se quiser armazenar tudo no meu HD, vou simplesmente pifar”, avalia. “Hoje, eu anoto tudo no planner, só que depois esqueço de olhar.”

A pesquisa Women in the Workplace 2020, que a consultoria internacional McKinsey realiza anualmente com mulheres que trabalham nos EUA, apontou que as profissionais com filhos se sentem 2,6 vezes menos confortáveis que seus pares masculinos para compartilhar sua condição parental, além de se preocuparem 2,1 vezes mais com o julgamento dos colegas sobre sua necessária dedicação a tarefas de cuidado em casa.

“A tarefa do cuidado é uma dimensão importante da vida, mas é percebida socialmente como perda de tempo. Isso leva mulheres que estão em posição de destaque a escondê-las para não parecerem nem frágeis nem menos produtivas”, avalia Noemia Porto, 49, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), mãe de cinco, sendo dois ainda adolescentes, que passou a cuidar também da mãe de 78 anos durante a pandemia.

“Tudo isso coincide com um pano de fundo estrutural, algo que a gente não quis, mas que recebe desde que nasceu. Só que, mesmo assim, resolvemos que vamos viver igualitariamente no espaço público.”

Essa arquitetura patriarcal mantém sobre as mulheres a responsabilidade pela economia do cuidado, tão essencial quanto invisível e desvalorizada, agora também embalada pelos constantes chamados de “mamãe!”. Só não ouve quem não quer.

A multiplicidade de pressões virou de cabeça para baixo a vida dessas mulheres, alterando de maneira determinante as condições objetivas da sua participação no mercado de trabalho e autonomia.

Segundo a série histórica do relatório da McKinsey, mulheres e homens deixavam postos de trabalho com a mesma taxa até 2020, quando o número de mulheres superou o de homens pela primeira vez.

As entrevistadas declaram se sentir ansiosas, estressadas e inadequadas diante de expectativas criadas sob o paradigma pré-pandêmico que hoje lhes parece impossível cumprir.

“É humanamente insuportável cumprir essas tarefas todas, das quais eu tentei cuidar como se fosse o planner do escritório”, explica a advogada e psicóloga maranhense Larissa de Oliveira, 37, mãe de Lucas, 5. “Tive uma redução clara de produtividade, e transitar para uma vida estritamente doméstica foi bem difícil."

"Batalhei para ter meu espaço e de repente me vi numa posição que eu lutei muito para não assumir, até por preconceito mesmo. Nossa tendência é enxergar o cuidado como algo menor, mas é uma necessidade básica. Se isso não estiver organizado, nada lá fora funciona”, conclui.

Em 2019, apenas 1 a cada 50 das mulheres entrevistadas considerava desacelerar sua carreira ou deixar de trabalhar para cuidar da casa e dos filhos. Em 2020, a pandemia alterou essa proporção de maneira drástica, e 1 a cada 3 entrevistadas considerava esses caminhos antes inimagináveis.

A sobrecarga por acúmulo de funções é inescapável para as mais de 11 milhões de mães solo do país —majoritariamente pobres e negras.

“Desde março de 2020, estou em home office. De lá pra cá, devido ao acúmulo de funções de uma mãe solo que está com o filho fora da escola, pedi demissão do meu emprego formal de assessoria de imprensa”, relatou a artista visual Bruna Alcântara, mãe de Tom, 5, por meio do canal que a Folha abriu para ouvir o desabafo de mães sobre o contexto imposto pela pandemia.

Bruna conta ter encontrado “tempo para a arte” enquanto “cozinho, lavo, passo e cuido de criança”. Ela é autora das obras que ilustram esta reportagem e integram a série “Mãe Pandêmica”.

“Estou cansada, exausta. Ainda assim, não existe nenhuma maneira de parar de produzir, criar e maternar”, descreve ela. Para Bruna, pesa ainda o fato de o governo brasileiro que, “além de não reconhecer a existência da doença e do seu perigo, também não reconhece as desigualdades de gênero como um problema e como uma questão agravada na pandemia”.

O governo não está sozinho em mais esse negacionismo, sugerem dados sobre a divisão sexual dos trabalhos de cuidado doméstico e com pessoas.

Antes da pandemia, mulheres gastavam, em média, o dobro de horas semanais que homens nessas atividades de cuidado, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019.

Com o confinamento, esse abismo parece ter se aprofundado. Segundo pesquisa do Datafolha, encomendada pelo C6 Bank, 57% das mulheres que passaram a trabalhar em regime de home office na pandemia disseram ter acumulado a maior parte dos cuidados com a casa. Entre os homens, esse percentual é de 21%.

Ao entrevistar casais heterossexuais com filhos, o relatório da McKinsey revelou o descompasso na percepção de mães e de pais sobre o próprio envolvimento e responsabilização por esse trabalho.
Enquanto 72% dos pais afirmavam dividir com a parceira em pé de igualdade os cuidados com filhos e casa, apenas 44% das mães diziam o mesmo sobre seus companheiros.

“A gente já entrou na pandemia com um cenário de desigualdade profunda e, em maio, as mulheres já estavam levantando a mão pra avisar que estavam sobrecarregadas”, diz Giulliana Bianconi, 36, mãe de Martina, 5, e diretora da Gênero e Número, organização que analisa dados para amparar os debates de direitos das mulheres. “Cerca de 25% dos brasileiros são crianças e adolescentes. Quem cuida deles?”, questiona.

Para Giulliana, mulheres não cuidam melhor do que homens, mas essa divisão acontece porque cada um se responsabiliza por aquilo que julga ser seu papel. Flexibilidade no trabalho, portanto, tem de ser pensada também para os homens, de modo a permitir que eles também se responsabilizarem por esses cuidados.

“Meu marido tem alguma flexibilidade no seu trabalho, e é isso o que me permite trabalhar também. Se não, acho que eu já teria me separado”, afirma, em tom de brincadeira. “Porque nesse caso a guarda compartilhada liberaria ao menos dois dias úteis por semana para eu me concentrar em outra coisa.”

A psicóloga Evelyse Claussi, 43, mãe de duas meninas, aponta que o Brasil ainda está em processo de desconstruir a mulher como aquela que cuida e o homem como aquele que provê.

“Tem uma naturalização desse lugar materno, que não é biológico, mas uma construção social à qual as mulheres respondem com dificuldade de dizer que têm outros interesses.”

Confortável para os parceiros, essa dinâmica é absorvida pelas crianças, que passam a direcionar suas demandas para quem, de fato, as atende. E isso explica cenas tão corriqueiras quanto surreais, em que crianças gritam pedidos para as mães, mesmo quando estão sentadas no colo dos pais.

Diante da enxurrada diária desses chamados durante a pandemia, Evelyse passou a reagir com uma barganha bem humorada: “Pago dez centavos para quem disser pai no lugar de mãe!”. Nem sempre dá certo.

“Eu não faço nada o dia inteiro”

Andressa Reis, 35

A louça acumulada na pia e os brinquedos espalhados por todo canto da casa de fundos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, não incomodam Andressa Reis, 35, que circula entre roupas, bolas e bonecas com Maria, 3, e Caetano, 1, no colo.

Já sua sogra, que encontrou a casa dos netos com a mesma bagunça da visita da véspera, tratou de observar: “Mas você não fez nada o dia inteiro?”.

“Fiquei bem chateada de ela ter falado isso. É como se todo o trabalho de cuidar e de amamentar fosse resumido a nada”, contesta. “Eu amamento duas crianças, eu cuido delas full-time, eu ofereço tempo de qualidade, eu leio histórias. E elejo algumas prioridades”, explica.

Andressa Reis, 35, mantem um perfil no Instagram sobre maternidade real e criação com apego, e que surgiu como desabafo já durante a pandemia, quando ela e o marido se viram trancados em casa dos duas crianças pequenas e cheias de energia - Zô Guimarães/Folhapress

“Entre elas não está lavar a louça, que vai morar e fazer aniversário ali naquela pia porque o momento que eu tiver, eu vou sentar no sofá e descansar um pouco”, anuncia. “Não tem como ter duas crianças e manter a casa impecável. Se eu quiser isso, eu vou pirar! Por que essa cobrança de deixar a casa um brinco se minha pretensão é outra?”

Foi durante a pandemia, a partir de um desabafo feito em seu perfil numa rede social, que Andressa se tornou produtora de conteúdo para mães. Desde então, esse caos privativo é o cenário dos vídeos de seu perfil no Instagram, que a descreve como “mãe preta e possível” e trata de temas como maternidade real, educação com apego e amamentação com humor e inteligência. “Só rindo para não chorar”, afirma.

Há um ano, quando Andressa e a família iniciaram seu distanciamento social, Maria tinha 2 anos e Caetano, só 3 meses. Aquele puerpério parece nunca mais ter acabado. “A pandemia virou um puerpério gigante”, brinca.

A fase puerperal, quando o bebê nasce e a mãe passa por alterações hormonais, mudanças no corpo, privação de sono e demandas constantes de amamentação e de cuidados com o recém-nascido, é a alegoria que Andressa encontrou para descrever sua vivência desde março passado.

“É dentro de casa com os filhos o tempo todo, tendo outras demandas pra conciliar e administrar. Não consigo saber o lance da aula. Não tem válvula de escape. Não pode ir na pracinha, então você não consegue sossegar a criança por nada”, respira. “Estou vivendo em looping.”

Sem rede de apoio num momento crucial, em que o neném é totalmente dependente de cuidados, Andressa se viu “desesperada”. O marido parou de trabalhar, e o casal ficou sem renda. Requisitaram o auxílio emergencial, que levou dois meses para chegar, período em que recorreram à ajuda de pais e amigos, que compravam mantimentos. Eles ainda tiveram o carro, que era financiado, retomado por falta de pagamento.

Com o sucesso de seus depoimentos e reflexões sobre maternar, Andressa passou a ser procurada por marcas interessadas em “famílias que não são capa de revista”, e o perfil virou a principal fonte de renda da família.

“Já me senti muito inadequada consumindo perfis de mulheres que faziam um recorte da sua vida e pareciam dar conta de tudo e maternar plenamente, enquanto comigo nada era romântico ou maravilhoso”, lembra. “A gente fica muito vulnerável nessa fase. E precisa filtrar aquilo que a gente consome.”

Sobre a lida em tempo integral com crianças que exploram tudo, inclusive os limites da paciência materna, ela tem sua receita. “Não tem autocontrole que resista ao mundo atual. E não ter me mantido firme o tempo todo no tipo de educação em que eu acredito não faz de mim a pior mãe do mundo. Eu vou me perdoar e me dar essa colher de chá. E depois fazer diferente.”

“Narrar a gritaria me salva da polícia”

Aline, 36

Enquanto Aline (ela preferiu usar nome fictício para evitar julgamentos na internet), 36, faxina um dos cômodos da casa, seus filhos João, 9 e Clara, 7, ambos autistas, viram o resto do avesso.

“Quando eles iam para a escola, eu conseguia organizar os espaços da casa. Mas desde que estamos confinados por conta da pandemia, eu vivo de escolhas: a sala limpa e o resto da casa virada”, conforma-se ela, que vive no interior de São Paulo, a centenas de quilômetros do pai das crianças, cuja pensão, somada a um benefício, sustentam a casa.

“Ser mãe de filhos com deficiência já é algo que tem um custo emocional e físico muito alto. Mas desde março passado eu me vi sendo mãe, terapeuta e professora. Tem sido muito difícil”, desabafa.

João tem autismo leve e crises de agitação, em que não consegue se conter. Clara tem autismo grave, ainda não desenvolveu a fala e sofre crises frequentes de autoagressão.

É quando a mãe que fica nervosa que menina esboça uma única palavra: “Caaaaalma!”.

“Eu sei que ficar sem a escola e as terapias implica perdas importantes para eles, que precisam de profissionais especializados. Mas, neste momento, estamos no modo contenção de danos”, diz. “Eu estaria babando e batendo a cabeça na parede se perseguisse ter tudo certinho neste momento.”

Quando as crianças aprontam algo ou entram em crise, a gritaria na casa é alta e generalizada. “É uma fórmula explosiva, mas prefiro gritar também do que guardar isso e adoecer. Criei uma tática pra vizinhança não se assustar: eu narro tudo o que está acontecendo para que percebam que não se trata de um caso de agressão”, revela. “É isso o que me salva de a polícia”, ri.

Às vezes Aline se sente sufocada, às vezes tem vontade de sumir. Para ela, essas são sensações típicas da maternidade, e não do contexto de pandemia, que parece ter quebrado algo mais dentro dela.

“Internamente, eu estou um caco. É devastador viver a pandemia no atual cenário político e social do Brasil. Não ter perspectiva de melhora e me sentir impotente é algo que bate muito forte. E, quando você é mãe, tudo é quadruplicado.”

Diabética, vive ansiosa e estressada com o vírus. Um espirro, e ela já entra em pânico. Aline tem medo de morrer de Covid-19. “A questão do autismo agrava muito isso. Se eu não estiver aqui, quem cuida dos meus filhos? Me pego pensando nisso e entro em parafuso. Simplesmente não posso morrer.”

“Eu me sentia como uma onça”

Tainá Marajoara, 38

A pequena Inaiê Matsimi, de apenas 2 meses de vida, foi batizada com um nome que remete à gavioa, conhecedora das matas por onde sua mãe não pode circular quando ela ainda estava na barriga.

“Eu me descobri grávida em plena pandemia, com uma série de restrições de atendimento médico e muito perigo em todas as idas aos consultórios e laboratórios de Belém do Pará, onde as gestantes dividiram espaço com pacientes com suspeita de Covid-19”, lembra Tainá Marajoara, 38, cozinheira e pensadora indígena, criadora de um ponto de cultura alimentar, o Iacitatá, que está com as portas fechadas desde março e agora faz entregas uma vez por semana.

A cozinheira e pensadora indígena paraense Tainá Marajoara, 38, se descobriu grávida na pandemia, enfrentou dificuldades para realizar o pré-natal e vive isolada com a família e a filha Inaiê Matsimi, de dois meses - Gabriel Cabral/Folhapress

O pavor de ser contaminada, por ser grupo de risco, fez Tainá se sentir “como uma onça”. “Eu só queria me silenciar, aquietar e esperar a gestação.”

Criada no seio de uma cultura indígena matriarcal com a ancestralidade de mulheres pajés, Tainá queria parir na comunidade dos Aruâ Marajoara, do outro lado do rio Arari, mas o mais próximo disso que conseguiu foi ter um parto “respeitoso, natural e de cócoras” que durou quase 30 horas e não pode ser acompanhado pela família, que ainda não tem previsão de conhecer a pequena Inaiê por causa do agravamento da pandemia.

“Nossa identidade cultural precisa ser preservada e isso é algo muito delicado”, diz. “Eu acordo e durmo com Inaiê no peito, cantando o dia inteiro, tomando Sol de janela e fazendo barulhos da mata para ela. No meio de tudo, ainda trabalho pelo computador e pelo celular.”

“Compramos a falácia da parentalidade compartilhada”

Daniela da Silva, 36

Durante a quarta das oito reuniões virtuais do dia, a financiadora de projetos Daniela da Silva, 36, abre o microfone e acompanha o efeito imediato na expressão dos colegas, que se desmancha.

É que o som que invade a sala virtual não é do comentário de Daniela, mas do choro de sua filha, Olívia, 4. Enfiada debaixo da mesa de trabalho da mãe, esse é o jeito como ela protesta por sua companhia.

Presa dentro de casa com os pais, Olívia, como quase todas as crianças menores, tem dificuldade de entender por que a mãe está presente, mas não está disponível para ela.

Daniela da Silva, mãe de Olívia, 4, trabalha como financiadora de projetos da organização Open Society Foundationenquanto o companheiro, Andrei Scapin, cuida da filha. Ainda assim, ela se sente sobrecarregada porque a divisão das tarefas segue sendo quase 50/50 entre o casal - Jardiel Carvalho/Folhapress

“É uma situação desesperadora, que pode ser definida pela sensação de não estar fazendo nada direito. Não consigo acompanhar minha filha, não consigo trabalhar com qualidade”, admite Daniela, que diz ter contado com “total compreensão” da organização de direitos humanos em que trabalha.

“Fui entrando num pico de estresse porque trabalho com demandas da sociedade civil, e não são coisas que podem esperar. Sofri minha própria pressão. Mas se tivesse tido pressão hierárquica, teria espanado.”

É ela quem arca com as contas da família enquanto o pai de Olívia faz uma segunda graduação. “Ainda que, objetivamente, ele esteja disponível para cuidar dela, tem uma demanda afetiva da criança que conta muito, e acabo me envolvendo no cuidado para não deixar meu parceiro na mão.”

Numa reunião, todos os participantes foram estimulados a compartilhar as estratégias que estavam usando para ficar bem. À medida que cada um falava, aumentava o mal-estar de Daniela. “Meditação, exercícios, cursos… Na minha vez, me senti tão mal que inventei que estava fazendo um curso de ioga. Mas a real é que estava apenas sobrevivendo.”

Daniela faz parte da geração de mulheres autônomas, urbanas e modernas que comprou a falácia da parentalidade compartilhada. “A gente achou que teria um arranjo que, na verdade, não tem. E isso se torna uma conversa infinita entre o casal”, relata.

Mudanças nessa diâmica têm ocorrido nos últimos anos, mas elas parecem graduais demais para a crise do cuidado agora instaurada. Estudos apontam que as mulheres gastam o dobro do tempo dos homens em tarefas domésticas e parentais, e que o percentual de homens que dizem dividir esses afazeres igualmente com a companheira é sempre bem maior que o de mulheres, o que evidencia essa desigualdade.

“Está tudo tão estruturado para que o cuidado seja de responsabilidade da mulher que qualquer compartilhamento do parceiro é percebido como suficiente”, avalia ela, que volta e meia se lembra de algo que está faltando na casa no meio do trabalho.

É a chamada carga mental, uma queixa frequente mesmo entre mulheres que têm parceiros mão na massa. Trata-se da gestão de tudo aquilo necessário para a funcionalidade da casa e da rotina dos filhos. Algo que requer atenção, planejamento e monitoramento.

Um exemplo: o parceiro pode se dispor a cozinhar, mas isso alivia pouca coisa se for a mulher quem tiver de planejar as refeições, checar a disponibilidade dos ingredientes e realizar as compras do que falta.

“A gente está colocando um band-aid numa grande ferida brasileira que é a divisão da carga de trabalho doméstico.”

Nela, entram as múltiplas desigualdades brasileiras: de gênero, mas também social e racial, já que são mulheres pobres e majoritariamente negras que entram em cena para permitir que a mulher branca de classe média e alta possa trabalhar e que o seu parceiro continue a achar que está fazendo a sua parte, mesmo quando não está.

“Tentava me equilibrar numa corda bamba”

Larissa Oliveira, 37

O relógio batia 23h e a advogada Larissa Oliveira, mãe de Lucas, 5, passava roupa em sua casa num condomínio fechado em São Luís, no Maranhão. Cansada e ansiosa, ela tentava cuidar de tudo de maneira inédita.

Até o início da pandemia e do isolamento social, ninguém almoçava em casa, e cozinha, limpeza e lavanderia ficavam a cargo de trabalhadoras contratadas. Nas primeiras semanas, ficou perdida. “Não sei o que vamos comer. Vai pedir? Vai fazer? Como? Era algo inexistente na minha rotina”, lembra.

As demandas do filho único, que antes passava 8 horas na escola, foram outra descoberta. “Ele queria atenção, queria brincar. ‘Mãe, eu quero isso.’ ‘Mãe, eu quero aquilo.’ Depois, houve momentos de tristeza e de saudades dos amigos e da escola”, lamenta.

“Eu me cobrava tirar um tempo livre de qualidade para ele, em meio à sensação de vulnerabilidade e à ideia de não tar conta ao ver o tamanho de tudo o que precisava ser feito.”

Naquela noite, com o ferro na mão, Larissa recebeu um telefonema da mãe e desabou num choro de cansaço e frustração. “Veio a voz da maturidade questionar por que eu estava fazendo passando roupa.

Era um quadro ansioso que tem um quê de perfeccionismo”, avalia. “Eu tentava me equilibrar numa corda bamba, levando o escritório, o marido, o filho e a casa, além de manter, à distância, a logística da casa dos mais.”

Sob pressão, Larissa intensificava as corridas pelo condomínio. “Quando tenho poucos problemas, corro 5 quilômetros. Quanto tenho muitos, corro 10”, conta.

Mas seu corpo mandou avisar que não dava mais. “Meu coração acelerou, os membros esfriaram, a garganta deu um nó. Eu simplesmente pensei que estava infartando”, lembra. “Era uma crise de pânico.”

O gatilho foi a notícia de que seu pai estava com Covid-19, 25% do pulmão comprometido e falta de ar. “Surtei, mas fiquei com medo de ir ao hospital. As sensações foram passando, e não quis me expor ao vírus.”

Mas o quadro voltou uma, duas, três vezes. “Eu já não dormia mais.” Imersa em pensamentos trágicos noite adentro, Larissa percebeu que precisaria de ajuda médica. “Tive de superar preconceitos para buscar um psiquiatra, mas foi essencial”, diz. “Caiu a ficha de que está todo mundo meio louco neste país neste momento e, por mais que isso seja triste, dá certo alívio perceber que você não está sozinha neste lugar. A situação em si é humanamente insuportável.”

Larissa passou a encarar os medicamentos, que via com desconfiança, como uma ferramenta tecnológica e científica para atravessar um momento de crise.

Entre as crises e o início do tratamento, Larissa se tornou apática, letárgica, e seu marido teve de se apropriar das rotinas da casa. “Ele entrou num processo de perceber essa sobrecarga e se apropriar das tarefas. Acho que foi um despertar, e ele cresceu muito no processo.”

“Isolamento não é pensado pra mulher preta e favelada”

Fernanda Viana, 41

Todos os dias, quando chega do trabalho em casa, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Fernanda Viana, 41, encontra os três filhos —de 11, 13 e 23 anos— saudosos da convivência com a mãe e cheios de histórias pra contar.

Mãe solo, a assistente social passou boa parte do último ano cadastrando as famílias do complexo que mais precisavam da ajuda coletada e distribuída pela ONG Redes da Maré, onde trabalha.

“Eu já sabia que muita gente ganha de dia para comer de noite. Mas, durante a pandemia, eu descobri a extrema pobreza. Vi casas sem banheiro e famílias sem telefone para pedir o auxílio emergencial. Vi gente desesperada e sem comida na geladeira. Mesmo sendo uma mãe preta e favelada, isso me deu outra visão da pandemia.”

A assistente social Fernanda Viana, 41,mãe solo de três, com dois dos filhos em sua casa no Complexo da Maré, no Rio. Durante a pandemia, ela atuou na linha de frente da entrega de mantimentos emergenciais na comunidade e estreitou laços de afeto com os filhos compartilhando leituras, músicas e vídeos ao voltar pra casa. O retrato feito pelo seu filho mais velho.
A assistente social Fernanda Viana, 41,mãe solo de três, com dois dos filhos em sua casa no Complexo da Maré, no Rio. Durante a pandemia, ela atuou na linha de frente da entrega de mantimentos emergenciais na comunidade e estreitou laços de afeto com os filhos compartilhando leituras, músicas e vídeos ao voltar pra casa. O retrato feito pelo seu filho mais velho. - Arthur Viana/Divulgação

Essa vivência fez do retorno para casa um momento de alívio e reencontro, mas também de revolta.

“Depois de viver um turbilhão de emoções, chegar em casa me traz paz. Ao mesmo tempo, a vida não parou, e taí um prejuízo que não vai ser reparado: não consegui acompanhar meus filhos, que praticamente perderam o ano letivo”, conta.

“Na hora da prova para entrar no colégio militar, não houve nenhum tipo de reparação pra quem estudar em escola pública e ficou sem aulas virtuais o ano inteiro. Meu filho não entrou. A roda sempre gira pra gente ficar de fora, e pra que as posições estabelecidas entre nós e os outros sejam mantidas.”

Os filhos de Fernanda não têm computador, celular ou acesso a internet, como ocorre com 1 a cada 4 crianças da Maré. “Criaram um mecanismo supostamente universal, mas que exclui a maioria da população”, critica. “Meus filhos usam o meu celular, quando chego em casa, para acessar os conteúdos disponibilizados pela escola. Não posso nem quero deixar dois adolescentes em casa o dia todo com um celular, acessando conteúdos que podem não ser apropriados para eles”, avalia.

A partir desse uso conjunto do celular, surgiu de maneira orgânica uma rotina de compartilhamento de músicas, vídeos e textos. “Eles têm essa necessidade de trocar porque eu virei a única convivência deles. Estreitamos nossos laços, aumentamos as leituras e as conversas, e conseguimos tirar uma coisa boa disso tudo.”

O principal revés é que Fernanda em nenhum momento consegue ficar sozinha. “Nem sempre eu tô a fim, mas levo em consideração tudo o que estamos passando, respiro fundo e fico com eles.”

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