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Fechamento de escolas faz explodir evasão e derruba aprendizado em SP

Análise de mais de 8 milhões de dados da rede pública aponta que alunos aprenderam só 27,5% do esperado

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Bruxelas

O fechamento de escolas públicas durante a pandemia de coronavírus em 2020 derrubou em 72,5% o aprendizado esperado e mais que triplicou o risco de evasão escolar, mostram mais de 8 milhões de dados de estudantes da rede estadual paulista.

As perdas de aprendizagem são semelhantes às documentadas em países desenvolvidos, "mas o aumento dramático do risco de abandono escolar é exclusivo de países em desenvolvimento”, afirmam os pesquisadores Guilherme Lichand, Carlos Alberto Dória e Onicio Leal Neto, da Universidade de Zurique, e João Cossi, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“São impactos massivos, que podem ter efeitos duradouros sobre o emprego, a produtividade e os níveis de pobreza do país”, dizem os autores do trabalho, uma parceria entre o BID e a Seduc (Secretaria da Educação de SP).

A análise recém-concluída é a mais ampla e mais precisa já feita no Brasil. Diferentemente de outros estudos que já mostraram perda de aprendizado durante a pandemia, o novo estudo usa técnicas estatísticas para isolar apenas o efeito de manter escolas fechadas —separando-o do de outros fenômenos, como a piora na saúde e na economia, que também afetam os alunos.

O risco de abandono, por exemplo, cresceu 365% durante o período em que as escolas ficaram fechadas. "Limpando" o efeito de outros fatores, como a própria pandemia, a falta de aulas presenciais fez esse risco médio crescer no mínimo 247% (ou seja, mais que triplicar), mesmo em cidades em que a pandemia foi mais leve.​

Olhando série por série, o risco quadruplicou em todos os anos escolares menos no último ano do Ensino Médio.

"Os resultados mostram que reabrir escolas é imperativo. Além disso, é preciso superar a discussão binária —fecha ou abre— e começar a discutir como retomar as aulas presenciais. A reabertura com protocolos de segurança é urgente para evitar que os custos cresçam ainda mais”, afirma o economista Guilherme Lichand, professor da universidade suíça e coordenador do estudo.

Decisão tomada em dezenas de países do mundo no primeiro semestre do ano passado, o fechamento das escolas foi uma reação ao que se sabia —ou se supunha— naquele momento: que aulas presenciais promoveriam o contágio do coronavírus, agravando o caos hospitalar provocado pela pandemia.

Suspender os contatos entre estudantes, professores e funcionários, portanto, reduziria o custo para a saúde, afirmavam governantes e cientistas.

Mas, para se justificar como medida de política pública, a decisão precisava também medir o impacto sobre o aprendizado dos alunos, para poder comparar os dois custos —e verificar se o suposto benefício sanitário compensa o dano educacional, com base em evidências.

O problema é que esse custo é muito mais difícil de medir na educação que em outros setores. “Desde o primeiro dia houve um debate sobre como reabrir montadoras, lojas, bares ou restaurantes, porque dá para materializar os prejuízos”, compara Lichand.

No caso das empresas, fala-se em número de empregos, massa salarial, perda de faturamento, enquanto na educação “se aprofundava um drama silencioso, invisível”.

Passado um ano, a equipe de Lichand mostra que havia enganos nos dois lados da equação: de um lado, escolas fechadas ajudam menos a controlar a pandemia do que se pensava; de outro, prejudicam gravemente a educação pública ao elevar o abandono escolar, além de reduzir o aprendizado.

Isso acontece porque em países em desenvolvimento, como o Brasil, coexistem dois fenômenos. O primeiro é que medidas de restrição contra contágio, quando aplicadas, não conseguiram conter significativamente a mobilidade. Nesse cenário, a ida dos estudantes à escola não faz diferença, mostrou comparação (com controles estatísticos) entre cidades paulistas que reabriram com as que ficaram fechadas.

O segundo fenômeno encontrado em nações como o Brasil é a falta de boas condições para que os alunos mantenham o aprendizado com o ensino remoto. Mesmo onde as secretarias de educação reagiram rapidamente para produzir material, treinar professores e motivar o engajamento dos estudantes, muitas crianças e jovens não tinham equipamentos ou locais de estudo adequados, entre outras restrições.

“Os custos sociais do fechamento das escolas, que já seriam altos por causa do impacto emocional, do aumento do trabalho infantil e da exposição à violência, é enorme do ponto de vista do aprendizado e supera os custos de saúde”, concluem os pesquisadores.

Os dados dos estudantes mostraram que a falta de aulas presenciais reduziu no mínimo 60% do aprendizado esperado (no 3º ano do Ensino Médio), e foi particularmente danosa para os alunos do 2º ano do Ensino Médio: o desempenho desse grupo ao final de 2020 foi mais baixo que no primeiro bimestre escolar, ou seja, eles regrediram em aprendizagem.

Segundo eles, o estudo se aplica a regiões semelhantes porque a reação do estado de São Paulo à pandemia foi típica: fechou escolas a partir de 16 de março de 2020 e não as reabriu pelo menos até setembro, quando algumas retomaram atividades especiais (como reforço escolar, por exemplo).

Estratégias de aprendizagem remota foram lançadas a partir de abril, fortemente baseadas na transmissão de conteúdo na televisão aberta. A resposta educacional paulista teve qualidade avaliada como mediana em relação ao país.

Como em alguns municípios o Ensino Médio retomou as aulas presenciais em novembro de 2020, o trabalho também comparou o resultado nos testes de estudantes dessas cidades com o dos que só seguiram o ensino remoto: as notas dos que voltaram às classes escolares foi 20% superior às dos outros.

Usando todos os controles e cuidados estatísticos, isso significa que esse um mês de aula presencial reduziu em 7% o impacto educacional das escolas fechadas, um resultado considerado expressivo por especialistas a quem versão preliminar do estudo foi apresentado nesta terça (27).

Por outro lado, diz Lichand, o recuo do aprendizado foi tão forte que mesmo esses estudantes continuam com muita defasagem: deixaram de aprender ⅔ do que seria esperado entre o primeiro e o último trimestre de 2020, enquanto os que não voltaram à escola perderam ¾ do aprendizado esperado.

O pesquisador diz que é difícil estimar quanto tempo levará para recuperar o atraso, porque uma boa gestão do ensino público pode permitir o chamado “leapfrogging” —quando inovações permitem dar um grande salto à frente, “queimando” etapas intermediárias.

Parte do prejuízo causado até agora será irrecuperável, porém, segundo Lichand: “Grande parte dos alunos com alto risco de abandono escolar não retomará os estudos”. Nas contas do Banco Mundial, em todo o mundo ao menos 7 milhões de alunos não estarão mais na escola quando as aulas presenciais retornarem —mais de 1,6 bilhão de crianças ficou fora da escola por muitas semanas em 2020.

No caso brasileiro —e de outros países menos ricos—, além do impacto sobre a aprendizagem o fechamento de escolas prejudica o desenvolvimento infantil por outros caminhos, como a desnutrição e a fome (muitos alunos dependem das merendas) e a maior exposição à violência e a impactos na saúde mental, afirmam os pesquisadores.

Lichand nota também que as perdas educacionais foram distribuídas de forma desigual. O risco de abandono foi maior para meninas que para meninos, para não brancos que para brancos e para estudantes de regiões de menor renda.

A defasagem no aprendizado foi semelhante entre os dois sexos, mas atingiu mais os não brancos e as regiões mais pobres, “potencialmente aumentando desigualdades já existentes”.

Os dados mostram também que estudantes que já tinham aulas online antes da pandemia foram menos prejudicados pelo fechamento das escolas, tanto no risco de abandono quanto na perda de aprendizagem.

Neste ano, para ajudar a calibrar melhor as decisões enquanto a pandemia ainda subsiste, o grupo de Lichand deve fazer estudos mais detalhados medindo o impacto sanitário de diferentes níveis de aulas presenciais. Os trabalhos serão capazes também de rastrear com precisão se estudantes de volta às escolas trazem riscos de contágio a suas famílias e à comunidade escolar.

Como foi feito o estudo

  • Entraram no estudo 4.719.696 observações para estudantes do 6º ao 9º ano do Fundamental e 3.791.024 para alunos do 1º ao 3º ano do Ensino Médio da rede estadual paulista
  • Foram analisados dados dos quatro bimestres escolares de assiduidade dos alunos, notas de boletim em matemática e português e pontuações de testes padronizados, em 2019 e 2020
  • Para medir o risco de abandono, foram comparados os números de alunos sem notas de boletim em matemática e em português ao final de cada um dos anos. Essa opção foi usada porque muitas secretarias de educação no Brasil reinscreveram os alunos automaticamente no início de 2021
  • Para calcular a perda de aprendizado foram comparadas as evoluções entre os testes feitos ao final do 1º e do 4º bimestre escolar de cada ano
  • A rede paulista tinha boas condições para o estudo porque manteve parâmetros homogêneos nos dois anos: em 2019, os testes padronizados no final dos 1º e 4º bimestre esclar foram presenciais e as aulas nesses nove meses foram normais; no ano passado, todos os testes foram remotos e as escolas se mantiveram fechadas nos nove meses entre o final do 1º bimestre escolar e do último brimestre (o 4º).
  • O estudo comparou os resultados nas mesmas séries, para manter as características dos exames e também evitar interferência da mudança de professor
  • A pesquisa tomou o cuidado de evitar um viés chamado de “selective attrition”: o fato de que o perfil dos estudantes que tendem a fazer os testes é diferente. Com bases em dados individuais (mas não identificados) dos alunos, eles previram a probabilidade de realizar os exames e compararam os que tinham perfis semelhantes
  • Técnicas estatísticas foram usadas também para descontar impactos que pudessem ter atingido toda uma escola, por exemplo, afetando seus estudantes
  • Como a pandemia também piorou ao longo de 2020, os autores fizeram cálculos para apurar se havia ligação entre a situação sanitária dos municípios e os resultados educacionais. A hipótese foi descartada
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