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Coronavírus

Reabrir escola é importante, mas melhorar ensino remoto é urgente

Debate centrado na volta das aulas presenciais ignora que maioria dos alunos continua em casa

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São Paulo

O desastroso —não há outra palavra para definir— resultado da avaliação de aprendizagem dos alunos da rede estadual de São Paulo na pandemia do coronavírus leva a duas conclusões.

A primeira tem sido dita repetidas vezes pelo secretário Rossieli Soares: a escola presencial é insubstituível para assegurar o direito à educação dos alunos —se há condições ou não para isso agora, é outro debate. A segunda conclusão, talvez por apontar um problema para o qual não se sabe bem o que fazer, não tem recebido a atenção devida: é urgente melhorar o ensino remoto.

A testagem amostral dos estudantes das escolas estaduais paulistas mostra que eles não só deixaram de aprender enquanto estavam longe das escolas mas que regrediram. Um aluno do 5o ano do ensino fundamental sabe em matemática o esperado para o 3o ano. No ritmo das últimas avaliações, levará 11 anos para que São Paulo recupere o nível de aprendizagem na disciplina.

Isso no estado mais rico do país, que tem a melhor rede pública nos anos iniciais de ensino fundamental e a melhor estadual dos anos finais. Um estado que se preocupou em mensurar o estrago da pandemia sobre a aprendizagem, o que já o coloca à frente de outros que nem termômetro têm para diagnosticar o problema.

A favor da bandeira da reabertura das escolas, repetida novamente nesta terça-feira pelo secretário, estão os números eloquentes a mostrar que o ensino online não conseguiu assegurar o direito à aprendizagem, muito pelo contrário.

Outra informação levantada pela Secretaria da Educação mostra que a educação presencial pode inclusive favorecer a remota: o número de estudantes que acessam o aplicativo de ensino online do governo aumentou de 1,9 milhão para 2,85 milhões depois da retomada das aulas presenciais em esquema de rodízio. A retirada de chips para acesso à internet também cresceu 50%.

Mas abrir as escolas, tema que parece ser o único do debate educacional no país, está longe de ser suficiente para reparar os danos da pandemia sobre a atual geração de crianças e adolescentes. Não só por causa dos muitos problemas estruturais da educação no Brasil mas por um motivo muito simples: por muito tempo ainda, boa parte dos alunos continuará sem ir à escola todos os dias. Hoje, a maioria.

E isso não por medo dos pais ou resistência dos sindicatos, mas pela própria dinâmica do vírus. Atualmente, pelas regras do Plano São Paulo, apenas 35% dos alunos do estado podem frequentar a escola, em sistema de rodízio. Será um erro se aos outros 65% for oferecido o mesmo ensino remoto de 2020. Os resultados dele já são conhecidos.

Mais de um ano após o início da pandemia, cerca de 400 mil estudantes da rede estadual seguem sem acessar o aplicativo online. Na melhor das hipóteses, assistem ao conteúdo reduzido na televisão. Na pior, estão totalmente fora do sistema. O fato de não sabermos já indica a gravidade da situação.

Quem está dentro, por sua vez, tem enfrentado dificuldades. Desde a semana passada, os sistemas da Secretaria de Educação usados para fazer e corrigir atividades, tirar dúvidas e registrar frequência dos alunos têm apresentado lentidão ou mesmo saído do ar constantemente.

Nesta terça-feira (27), o secretário reconheceu os problemas e prometeu corrigi-los com urgência. Apresentou ainda outras medidas, como carga horária online estendida e acompanhamento mais de perto de pequenos grupos de alunos pelos educadores, com foco nos mais vulneráveis.

Será preciso dedicar a tais ações a mesma energia com a qual se defende a escola aberta.

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