Descrição de chapéu Coronavírus

Para mulheres que perderam filhos para a Covid, Dia das Mães é de luto e memória

Folha ouviu a história das mães de vítimas do novo coronavírus no Brasil

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Brasília

“O coração da gente grita, a alma dói. É uma dor tão grande que o corpo da gente estremece”, conta Claudiene Souza, 43, enxugando os olhos. Ela é a mãe de Maryan Souza, que morreu de Covid-19 em dezembro de 2020, aos quatro meses de idade. “Só quem passou por isso sabe a dor que é.”

A Folha ouviu as histórias de sete mães que, neste domingo (9), não poderão estar com seus filhos porque eles fazem parte das mais de 417 mil vítimas da Covid-19 no Brasil.

Além da bebê Maryan, nascida em Alagoas com síndrome de Down, que amava tomar banho e mamar, perdemos o pequeno cearense Lucas Ricarte, 1, que adorava assistir a Patrulha Canina e carregava seus carrinhos para todo canto. Seu xará, Lucas Pires Augusto, 32, que ia começar uma especialização médica na Flórida. E a pernambucana Adrielly, 26, que estava prestes a realizar o sonho de ser mãe, dando à luz Aylla Vitória.

No Mato Grosso, morreu Klediston Kelps, 22, que ganhou um concurso de poesia com uma performance sobre homofobia. Luiz Fernando, 40, sabia desde cedo que sua vocação era o jornalismo. E, no Rio de Janeiro, Alan Patrick, 38, gostava de tocar violão e dizia que “amar é mais fácil que odiar”.

Neste domingo (9), Jessika, 32, Maria de Fatima, 59, Clacy, 67, Elisângela, 41, Edilene, 53, Regina, 54, e Claudiene, 43, as mulheres que os sete chamavam de “mãe”, passarão pelo Dia das Mães sem ao menos um de seus filhos.

Não é possível contabilizar com precisão quantas mães enlutadas há hoje no país, mas os dados de morte por idade, coletados no Sivep-Gripe até 3 de maio, dão a dimensão de que elas são milhares.

Só na faixa etária de Maryan e Lucas, de 0 a 4 anos, são 775 bebês e crianças mortos. Entre 5 e 19 anos, são mais 830 vítimas. Como Klediston e Adrielly, 3.887 jovens entre 20 e 29 anos morreram por causa da doença.

Na casa dos 30, como Lucas Pires Augusto e Alan Patrick, o número dá um salto: são 13.150 pessoas. Entre 40 e 50 anos, como Luiz Fernando, foram perdidas 28.398 vidas. Acima dessa idade, outras 336.936 vítimas.

“O último Dia das Mães que passamos juntos foi em 2018, em Ribeirão Preto. O Lucas estava todo alegre, nos levou para comer num restaurante”, conta Maria de Fátima. Na época, o médico criado em Cataguases (MG) morava no interior de São Paulo, onde fazia residência em neurocirurgia. Depois, mudou-se para o Paraná, onde morava com a mulher, Camila, e os dois filhos.

Nas datas comemorativas, por causa da distância, costumava telefonar para a mãe. E foi assim que contou para ela que havia contraído o novo coronavírus, em julho de 2020. “Eu lembro do dia que ele ligou pra nós e falou que já estava indo para o hospital. Ele estava angustiado e só me pedia 'mãe, ore que a Cacá e meus bebês não tenham sido contaminados’”, diz ela. “Nós chorávamos dia e noite, com medo do pior.”

Após 12 dias na UTI, o médico morreu no dia 8 de agosto, na véspera do Dia dos Pais e na data em que o Brasil chegava a 100 mil vítimas da Covid-19. “Nunca mais vai ser igual, sempre vai ter essa lacuna na nossa família.”

Exatamente um mês antes, em 8 de julho de 2020, seu xará, Lucas Ricarte, ganhava as asinhas de anjo que ilustram a foto de perfil de sua mãe, Jéssika, nas redes sociais.

A professora cearense Jéssika conta que engravidou do único filho quando já tinha perdido as esperanças de ter um filho biológico. “Eu fui fazer o exame e não acreditei. Saí do laboratório gritando na rua que meu marido, que estava me esperando no carro, ia ser pai”.

Um dia, começou a ter sintomas de dor de garganta. Jéssika levou o filho ao médico e conta que, apesar de ter pedido teste para saber se o menino estava com Covid-19, não foi atendida. Dia após dia, o cansaço de Lucas ia aumentando, até que o menino passou mal novamente. Só então foi diagnosticado com a doença e levado para a UTI.

Edilene, que perdeu a filha, agora se dedica a manter viva na neta a memória de Adrielly, que contraiu Covid-19 nas semanas finais de gravidez. “Eu tenho uma foto de Adrielly bebezinha e lembra muito a Aylla. E eu sempre estou falando da mãe dela, eu boto áudios para ela ouvir, eu mostro as fotos: ‘ó a mamãe, Aylla’. Eu quero que ela cresça sabendo que a mãe dela amou muito ela”, diz.

Ao falarem dos filhos, as mães por vezes usam verbos no presente, para em seguida repetir a frase, mudando-o para o tempo passado. Deixa de dizer “tem”, para dizer “tinha”. O “é” vira “foi”.

A psicóloga Erika Pallottino, fundadora do Instituto Entrelaços, especializado em luto, afirma que uma parte importante do “refazimento” após uma perda (“porque ninguém supera a morte de um filho, então não dizemos isso”) é a de compreender que a morte não corta vínculos. “A perda não tira um lugar afetivo construído, a morte não tem o poder de romper o vínculo”, diz.

“A gente não deixa de ser mãe, pelo contrário”, concorda Jéssika. “A diferença é que agora a gente é mãe na terra e no plano espiritual.”

Isso não significa que as datas comemorativas não sejam extremamente difíceis para quem passa por um luto como o da perda de um filho.

“No Natal, eu escutava o barulho do portão abrindo e eu levantava e ia no portão. Eu sabia que meu filho estava morto, mas eu ia no portão e verificava se ele tava chegando. A última esperança de que não era verdade e eu estava vivendo um grande pesadelo”, conta Elisângela.

Seu filho, Klediston, se infectou com o coronavírus enquanto trabalhava como técnico de enfermagem. Apesar de jovem e saudável, morreu em 25 de julho de 2020.

“O filho enterrar a mãe é um clichê, mas a mãe enterrar o filho dá uma sensação de incompetência”, lamenta Regina Evaristo. Mãe de Alan Patrick, que morreu aos 38, ela diz que não tem forças para comemorar a data. “Sempre vai faltar um lugar na mesa.”

“O luto tende a ficar mais agudo nesses momentos, e isso é normal”, diz Pallottino. A psicóloga aconselha que as mães tentem se preparar para esse tipo de data, avisando os parentes se querem ficar sozinhas ou se precisam de apoio e companhia.

As idades de algumas mães e filhos mostram a realidade da pandemia no Brasil, onde o vírus faz vítimas de todas as idades. Jéssika tem a mesma idade que Lucas, o xará de seu filho, tinha quando morreu. Aos 41, Elisângela é apenas um ano mais velha do que Luiz Fernando.

Vitor Mori, doutor em engenharia biomédica e integrante do Observatório Covid-19 Brasil, diz que uma resposta governamental organizada contra a doença poderia ter evitado um grande número de mortes. “A gente infelizmente acabaria perdendo algumas vidas, mas não no número que temos”, afirma.

O jornalista Luiz Fernando Cardoso se preocupava com a mãe, Clacy Cardoso. Aos 67, ela já tinha tomado a primeira dose da vacina contra a Covid-19. O filho pedia, porém, que não relaxasse os cuidados, conta ela. “‘Mãe, se cuide, e assim que você fizer a segunda dose da vacina você vem pra cá ficar uns dias com a gente’. Infelizmente isso não foi possível.”

“Eu quero dizer para as mães que incentivem seus filhos a se cuidarem, a não se aglomerarem”, aconselha Clacy. “O meu filho, com todo o cuidado que tinha, contraiu esse vírus e de forma muito triste nos deixou.”

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