Pregadores mirins, irmãos querem arrebatar mercado gospel

Com 6, 12 e 15 anos, trio soma 780 mil seguidores nas redes sociais

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São Paulo

"Já arrebatei na igreja", conta Esther Ota, 6, balançando o vestido de estampa florida azulada, de pé no sofá do sobrado onde ela mora com sua família, no Itaim Paulista (zona leste de São Paulo).

Arrebatar, para evangélicos pentecostais como eles, "é quando seu corpo recebe uma força sobrenatural", explica João Vitor Ota, 12, o irmão do meio. "E você acaba não aguentando, né? A carne é fraca, você perde o controle de si mesmo, roda, pula, fala em línguas."

Davi Ota, 15, o primogênito, completa o trio de pregadores mirins que está decidido a espalhar a palavra de Deus mundo afora e, de quebra, abocanhar um naco do mercado gospel.

João Vitor Ota, 12, Esther Ota, 6, e Davi Ota, 15, irmãos que pregam e cantam gospel - Karime Xavier/Folhapress

Davi gostaria de ser convidado para os programas de Raul Gil e Danilo Gentili. João adoraria ir no de Silvio Santos, "pra ganhar dinheiro" do apresentador que faz aviãozinho com notas de real.

Já Esther quer ter "mais de mil de mil de mil e de mil" seguidores no Instagram "para ganhar mais recebidos", que é como se chamam as cortesias que marcas enviam a influenciadores digitais em troca de divulgação. Por ora, 10,1 mil perfis a acompanham na rede social.

A caçula do clã evangélico conta que, só naquela semana, chegou para ela "um vestido, outro vestido e um moletom da Chanel" que queria usar para esta entrevista, "mas solta muito pelo" (o tecido é felpudo).

Somados, os irmãos têm 780 mil fãs no Instagram. É João quem puxa o rebanho virtual: 747 mil perfis veem suas publicações, como uma de 7 de maio em que ele, com uma Bíblia na mão, os pais e os irmãos são reproduzidos como os personagens amarelos dos Simpsons, à vontade no sofá da família americana do desenho animado.

Há dois meses, Silas Bitencourt, 43, foi chamado para empresariar os pastores Adriele, 33, e Leo, 36, e os três filhos. "Estamos montando uma estrutura internacional", ele diz, prometendo brilho para a família comparável ao de seus sapatos, um par cravejado de brilhantes e comprado em Boston, nos EUA.

A matriarca Adriele, por exemplo, está confirmada em um reality show com líderes de igrejas, divulgado numa churrascaria em São Caetano do Sul (SP) no começo do mês.

O "Culto da Resistência", com Mara Maravilha e Dedé Santana no elenco, a princípio será transmitido na página do Facebook de outra pastora que Bitencourt também assessora, Patrícia Bonissoni, da 7ª Igreja Quadrangular de Francisco Beltrão (PR). Uma legião de 4,8 milhões a segue na rede social.

Adriele e Leo se conheceram num evento político no qual ambos trabalhavam, da então petista Marta Suplicy. Ele foi lhe pedir água e acabou, segundo a pastora, "encontrando a maior pérola da vida dele". Tiveram um namoro rápido, de dois meses, e logo se casaram, "para a glória de Deus", ela diz.

"O mundo inteiro vai conhecer esta família", profetiza Leo. João Vitor é a grande aposta para que isso aconteça.

Ele conta ter tido uma visão que relevou o filho pregando no Maracanã, "onde todos vão ser arrebatados".

"Paraguai, Argentina, Suíça, Inglaterra, Suriname, França e Espanha", João enfileira os países onde já pregou enquanto abre um pacote de biscoito de chocolate. A pandemia freou os planos internacionais por ora. Seu sonho, e também o do irmão Davi, é morar nos Estados Unidos.

"Deus me deu sabedoria pra explicar pro povo, me levou a várias nações. Há nove anos que eu prego", diz o veterano de 12 anos. A irmãzinha acrescenta que também começou cedo, com quatro anos, e que gosta muito das passagens bíblicas sobre Adão e Eva.

Seu empresário diz que João fatura R$ 1.500 para participar de cultos em São Paulo e R$ 2.500 em outros estados. A remuneração para seus irmãos costuma variar entre R$ 500 e R$ 1.000, calcula Bitencourt.

Na noite de terça (8), a família toda louvou na própria vizinhança, num galpão no Itaim Paulista onde cabem algumas poucas dezenas de fiéis. Ali funciona o templo deles, a Igreja Pregadores da Última Hora. O bispo Samuel Ferreira e o pastor Silas Malafaia são inspirações para os Ota.

Antes do culto começar, os filhos de Adriele e Leo ensaiaram uma música conhecida na voz da cantora gospel Rejane Fogo Puro, "Cadê os Pentecostais": "Onde estará aquele povo barulhento/ Será que já chegou ou ainda vai chegar/ São considerados como crente anormais/ Mas eu sou e sei que são os pentecostais".

"Sou uma criança normal, vamos dizer assim. E quando chega a noite Deus me usa", resume João, um pré-adolescente magrelo de cabelo armado num topete, calça jeans, blazer jeans combinando com um tênis colorido. Ele conta que gosta muito de jogar videogame.

"Muita gente diz que ser crente é sentar na cadeira que nem robô", diz Davi, para já retificar esse estereótipo que acha errado. Ser evangélico é "só alegria" e uma bem-vinda rota alternativa para não ser como "jovens de 15, 16 anos que estão se prostituindo, estão bebendo", diz.

A presença infantojuvenil nas religiões não se restringe aos círculos pentecostais, afirma o pastor Clemir Fernandes, codiretor-executivo do Iser (Instituto de Estudos da Religião). "Há os budistas, com os lamas, por exemplo. Nas religiões africanas também tem isso."

Mas evangélicos têm uma particularidade, segundo Fernandes. "As formas, as gramáticas e o caráter 'missionário' ou 'proselitista' de grupos evangélicos podem ser um diferencial nesse campo. Observando de forma mais ampla, as pessoas geralmente se encantam com crianças e há um 'mercado' para isso."

Fora das igrejas, o fascínio se reflete em programas de TV como "The Voice Kids" ou "Master Chef Júnior", diz.

Para Magali Cunha, pesquisadora da religião, mimetizar discurso e gestual dos adultos é típico dos mais novos, e "isso acaba sendo lido nas igrejas como uma bênção especial do Espírito Santo".

Nos espaços pentecostais, afirma, é comum aparecerem crianças que se destacam como intercessoras (pessoas que fazem oração em público), profetizas (que falam em nome de Deus a partir de revelações místicas) ou pregadoras de sermões.

Os irmãos batizados com nomes bíblicos são a leva mais recente desse fenômeno.

No Instagram de João, recheado de vídeos dele pregando em igrejas lotadas, o lembrete: a agenda do menino que bate no peito dos pastores adultos está aberta. Também está lá uma propaganda para uma loja de açaí no bairro da periferia paulistana onde vive. "Vários ingredientes. Nutella, Sucrilhos, top."

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