Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Estreitar campos de aprendizado piora a educação, diz especialista

Diretor de órgão que faz inspeção das escolas na Inglaterra defende ampla formação

Sean Harford, diretor geral do Ofsteas, órgão responsável pela fiscalização da educação na Inglaterra.
Sean Harford, diretor geral do Ofsteas, órgão responsável pela fiscalização da educação na Inglaterra. - Danilo Verpa/Folhapress
Ana Estela de Sousa Pinto Érica Fraga
São Paulo

"O debate que ocorre no Brasil sobre tornar a educação mais prática, pautada em menos disciplinas e nas demandas futuras do mercado de trabalho é perigoso. Medidas nessa direção podem piorar a aprendizagem.

A opinião é de Sean Harford, diretor nacional do escritório de padrões da educação (Ofsted), órgão que faz a inspeção das escolas da Inglaterra.

"Se um país estreita os campos de aprendizado, os resultados nos exames podem até ser melhores, mas a educação, no sentido amplo, será prejudicada", diz Harford.

Ele discorda ainda do diagnóstico, cada vez mais comum, da importância de formar alunos pensando no futuro do mercado de trabalho.

"Há um motivo pelo qual o ensino não mudou tanto nos últimos séculos, e é porque ele basicamente funciona para a maioria das pessoas."

O foco do Ofsted é monitorar a qualidade da educação tanto com base em testes de aprendizagem quanto em critérios como o desempenho dos professores, a administração das escolas e o bem estar dos alunos.

O ensino básico na Inglaterra segue currículo nacional comum, que inclui de matemática, línguas e história a música, design, computação, cidadania, sexo e relacionamentos.

O Brasil também está em processo de implementação de diretrizes comuns. Mas, no caso do ensino médio, as mudanças em curso têm foco no enxugamento do número de disciplinas obrigatórias e na oferta de rotas de formação.

Também ocorre no país um debate sobre o financiamento de faculdades como Filosofia e Sociologia, na esteira de posições do governo Jair Bolsonaro sobre o baixo retorno econômico dessas áreas.

O Reino Unido foi o 23º colocado, entre 70 países, no último Pisa (exame que mede a aprendizagem em matemática, leitura e ciências). O Brasil ficou no 63º lugar.

Os resultados do Reino Unido no Pisa têm se mantido estáveis. Isso preocupa?

Ainda que o desempenho do Reino Unido seja estável, sei que a educação britânica melhorou. O que ocorre é que outros países também melhoraram.

O Pisa tem a vantagem de inspirar os países a focar em melhorar os resultados. O que não é produtivo é focar apenas resultados no próprio exame, que avalia um escopo limitado de assuntos.

Há uma discussão no Brasil sobre o valor de investir em disciplinas como sociologia e filosofia, vistas como áreas sem aplicação prática. O que sr. acha disso?

Acho perigoso. Principalmente em língua, você melhora a leitura e a escrita se tiver uma educação ampla em todas as áreas. Lendo muito sobre qualquer assunto você avança seu conhecimento e se torna um leitor melhor, com um texto melhor. Se um país estreita os campos de aprendizado, os resultados nos exames podem até ser melhores, mas a educação, no sentido amplo, será prejudicada. Garantir que as crianças gostem de ler romances, poesia, ciência, história melhora o domínio de todos esses assuntos. Dizemos que 'o conhecimento gruda', quanto mais se aprende, maior o potencial para aprender.

Como sabem que a educação melhorou na Inglaterra e o que fizeram para isso?

Temos uma série de resultados que vêm sendo obtidos ao longo do tempo, em inglês e matemática ao final do ensino fundamental e em um amplo leque de disciplinas ao final da escola secundária.

Tornamos os exames mais rigorosos e alteramos os currículos para alcançar bons resultados com dificuldades cada vez maiores.

Em relação às inspeções das escolas, também tornamos os critérios mais exigentes, mas a porcentagem de escolas que são avaliadas como boas ou ótimas também cresceu. Se comparamos com 30 anos atrás e olharmos para a educação que as crianças têm hoje, ela é atualmente muito mais ampla de forma sustentável. Antigamente dependia de quem era seu professor ou em que escola você estava. O currículo único nacional ajudou a criar essa nova padronização da qualidade.

O sistema inglês de avalia a qualidade dos professores e da gestão, o comportamento e a atitude de alunos. É possível avaliar apenas com resultado de provas?

Não. Por isso criamos o sistema de inspeção, além dos testes anuais. As escolas são inspecionadas a cada 3 ou 4 anos por inspetores que já foram professores e visitam pessoalmente cada instituição, para ver como os professores interagem com os alunos, como os alunos interagem entre si. Isso permite uma perspectiva diferente da dos resultados dos testes, os pais podem entender melhor como está a escola.

Qual o procedimento quando a escola é avaliada como "carente de melhorias" ou "inadequada" [os dois níveis mais baixos]?

As escolas que precisam de melhoria recebem um pouco mais de dinheiro e passam a receber a ajuda de gestores de escolas de excelência. Há 5 ou 6 metas que a escola deve perseguir a partir disso, e fazemos uma nova inspeção dali a dois anos.

No caso das inadequadas, se elas não são ainda academias [escolas independentes financiadas com recursos públicos], elas são fechadas, reabertas como nova escola, em geral com um novo diretor e uma nova equipe. Se ela já for uma academia, tem que cumprir outros requisitos e geralmente o diretor é trocado.

Diretores recebem bônus para trabalhar nas escolas mais desafiadoras?

Depende do tipo da escola. Se é uma academia administrada por um fundo, eles podem pagar mais para as equipes. Já nas outras, as faixas de salário são fixas e não há como oferecer um pagamento diferente.

No Brasil, os governos se queixam de que professores e sindicatos se opõem a avaliações e sistema de incentivos. Já os sindicatos e os professores reclamam de baixos salários. Como lidar com esse conflito?"Na Inglaterra os sindicatos também se opunham às avaliações. Ninguém gosta que alguém diga que seu trabalho não está bom. Há 30 anos, ninguém poderia ser removido de uma escola por não estar fazendo um bom trabalho. Havia escolas péssimas ano após ano. Nos anos 1980, houve uma grande mudança de legislação que reduziu o poder dos sindicatos.

Não foi preciso convencer os professores de que a avaliação era positiva, porque os sindicatos se enfraqueceram?

Nós nos encontramos com líderes dos professores e sindicatos com frequência. Discutimos questões, recebemos críticas, explicamos critérios. Eles podem até dizer que gostariam de influir mais, mas nossa inspeção é para os alunos e seus pais, nossa responsabilidade é olhar para a escolha do ponto de vista dos alunos.

No Brasil as taxas de repetência são muito altas. Como isso afeta a educação?

Na Inglaterra as crianças não repetem de ano. Paramos de segurar as crianças há muitas décadas. Dado que todos seguirão adiante, tentamos identificar as necessidades dos que estão tendo problemas e ajudá-los. Não temos nem sistema de testar ao final do ano, que permitiria verificar se a criança pode seguir adiante. Isso seria punir a criança.

O quão importante é o dinheiro para melhorar a educação?

Dinheiro é importante, e hoje na Inglaterra muitos diretores dizem que faltam recursos. Se não há dinheiro suficiente para ensinar as crianças, isso é grave. Mas, no caso das escolas mal avaliadas, não quer dizer que elas estejam fracassando por falta de verba. Quase sempre as raízes do problema estão na gestão. Às vezes são questões de segurança, treinamento, adoção de novos procedimentos para que professores melhorem a forma como ensinam.

O gasto por aluno em países como a Inglaterra é bem maior que o do Brasil. Isso é um problema?

É um problema para o Brasil. Não acho que exista um país no mundo que considere que gasta o suficiente em educação. A importância da decisão sobre quanto investir é que ela afeta o desempenho do país. Se as crianças forem educadas apropriadamente, haverá mais prosperidade, a arrecadação vai subir, haverá mais dinheiro para investir em educação. É um ciclo virtuoso. Mas claro que há um limite. Não quer dizer que é preciso sempre investir mais, mais e mais.

A discussão sobre mudanças futuras, como o impacto da tecnologia, influenciam o que vocês têm feito?

Nossas inspeções são mais baseadas no resultado dos alunos, mas não apenas notas nos exames. Olhamos bem-estar, se fazem trabalhos voluntários, atitudes, envolvimento com o estudo, desenvolvimento pessoal.

Mas acredita que o futuro exigirá habilidades diferentes e que as escolas deveriam fazer algo a respeito?

Não acredito nisso. Há um motivo pelo qual o ensino não mudou tanto nos últimos séculos, e é porque ele basicamente funciona para a maioria das pessoas. Isso não quer dizer que não seja possível fazer melhor. Mas, se não é possível prever as 'habilidades do século 21', como vamos ensiná-las? Por que vamos tentar adivinhar? Há um motivo pelo qual sabemos sobre a Grécia Antiga ou os maias. Considero muito mais importante para a raça humana se debruçar sobre o que veio antes que tentar adivinhar o que virá no futuro. Os palpites sobre o futuro são principalmente preocupados com aspectos econômicos. Queremos que as escolas transmitam uma herança cultural para as crianças, que a transmitirão para a geração seguinte. Não queremos apenas treiná-las para um emprego que nem sei qual será.

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