Brasil gasta dinheiro das crianças em consumo corrente, diz criador do Pisa

Países com alto desempenho em educação convenceram cidadãos a valorizar futuro, diz Andreas Schleicher

Érica Fraga
São Paulo

A primeira descoberta de Andreas Schleicher —criador do Pisa, teste internacional de aprendizagem – sobre educação de qualidade foi que, por trás de países com alto desempenho, havia governos que convenceram seus cidadãos a valorizar o futuro.

Esse não é o caso do Brasil, segundo o especialista, que visita o país nesta semana pela 16ª vez desde 1999.

Andreas Schleicher, especialista em educação e criador do Pisa, em Paris
Andreas Schleicher, especialista em educação e criador do Pisa, em Paris - Bruno Coutier - nov.16/AFP

“O Brasil está gastando o dinheiro de suas crianças em consumo corrente”, disse ele, que é diretor do departamento educacional da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) à Folha.

Schleicher participa nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, do lançamento do Pisa para Escolas, que será aplicado em 2019 e 2020 por meio de uma parceria entre a OCDE e a Fundação Cesgranrio. O objetivo desse exame é ir além do Pisa tradicional, oferecendo uma radiografia da aprendizagem por escola.

No ano passado, o sr. disse à Folha que os gastos do Brasil com educação são baixos e pouco eficientes. Quais são as lições dos países que conseguiram melhorar em termos de eficiência? Em nenhum lugar a qualidade do sistema educacional excede a qualidade dos seus professores. Então, sempre que um sistema educacional de alto desempenho tem de fazer uma escolha entre uma classe com menos alunos ou professores melhores, eles escolhem a segunda opção. Os melhores sistemas também selecionam e treinam suas equipes docentes com cuidado. E oferecem um ambiente no qual os professores trabalham juntos para traçar boas práticas. Eles também incentivam os professores a crescerem na carreira.  

No Brasil, há casos de municípios com excelentes resultados. Por que eles não se espalham pelo país? De forma geral, nós gastamos muito tempo empurrando novas ideias para dentro das salas de aula, e muito pouco tempo encontrando ideias dentro das salas de aula e as fazendo ganhar escala. Isso não significa copiar e colar soluções de outros lugares; significa olhar as boas práticas de dentro do nosso próprio sistema de forma séria e desapaixonada se informando sobre o que funciona e em quais contextos, e aplicar essas práticas de forma consciente.

Países como China e Vietnã são bastante bons nisso. Eles fazem seus professores, escolas e sistemas escolares olharem consistentemente para seu redor. 

Há muita variação entre o que se gasta por ano com os alunos brasileiros de um município para outro. Essa discrepância é um problema? Sim, é um grande problema no Brasil. Enquanto as escolas das regiões com mais recursos têm prédios equipados com laboratórios avançados de ciências, equipamentos sofisticados, teatros elaborados, piscinas olímpicas e laboratórios com computadores – sem mencionar professores formados nas disciplinas que lecionam nas melhores universidades –, as escolas que atendem os pobres estão normalmente abrigadas em prédios velhos, frequentemente desmoronando.

Entre esses extremos há muitas gradações de qualidade, refletindo os diferentes segmentos socioeconômicos da população. Em contraste com isso, os melhores sistemas educacionais do mundo garantem educação de qualidade a todo o sistema, de forma que cada aluno se beneficie de um ensino excelente. Para atingir isso, esses países atraem os melhores diretores para as escolas mais problemáticas e os professores mais talentosos para as salas de aula mais desafiadoras. Eles investem seus recursos onde eles mais podem fazer diferença e garantem que os melhores e mais brilhantes – e não os mais ricos – consigam os melhores lugares nas escolas.

O sr. disse à Folha no ano passado que os países que fizeram maior progresso educacional têm governos comprometidos com a melhora do sistema. O sr. percebe esse grau de comprometimento no Brasil? Realmente, a primeira coisa que aprendi é que os líderes dos melhores sistemas educacionais têm convencido seus cidadãos a valorizar o futuro. Os pais e avós chineses gastarão seus últimos recursos em seu futuro, na educação de suas crianças. O Brasil está gastando o dinheiro de suas crianças em consumo corrente. Além disso, muito dos escassos recursos vão para o ensino superior, e muito pouco na construção de bases para as crianças.

A distância entre o que o Brasil gasta com os alunos do ensino superior e do básico caiu bastante. Deveria cair mais? Essa é realmente uma pergunta que toda sociedade deve responder por si própria, mas a relação entre o gasto com universidades e com escola primária no Brasil é ainda muito maior do que na maioria dos países da OCDE. Na minha visão, o argumento do uso de dinheiro público para dar a todas as crianças um começo forte de vida é mais forte.

É possível fazer mudanças para melhorar a educação em meio a uma crise econômica e fiscal severa como a que o Brasil atravessa? É interessante que muitos países começaram as mudanças educacionais mais transformadoras durante grandes crises econômicas. Na verdade, a abundância de recursos pode ser um inibidor de mudanças. Os dados do Pisa mostram uma relação negativa forte entre o dinheiro que os países recebem de seus recursos naturais e o conhecimento e as habilidades de suas populações escolares. Muitos dos países com melhores desempenhos são pobres em recursos naturais. Uma interpretação é que nesses países – bons exemplos incluem Finlândia, Japão e Cingapura – os cidadãos entendem que seus países devem viver da sua inteligência e que isso depende da qualidade da educação oferecida.

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