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É enganosa publicação que associa foto de lixo e entulho a baderna de estudantes na UFSC

Entulhos foram acumulados após um mutirão de limpeza feito por estudantes em greve na universidade

São Paulo

É enganosa publicação nas redes sociais que associa fotografias de pichações e entulhos de lixo em frente a um prédio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a “baderna” na universidade pública. O lixo foi acumulado em frente ao prédio após um mutirão de limpeza feito por estudantes em greve na universidade. Alguns dias depois, o lixo foi retirado do local.

As pichações das fotos também são verdadeiras, porém o projeto Comprova não conseguiu identificar quando foram feitas. O registro mais antigo das pichações no prédio é de novembro de 2012, segundo um texto no site oficial da universidade. Também um texto de agosto de 2014 do site ND Total traz uma imagem do centro de convivência pichado.

Imagem traz postagem de Luciano Hang alegando que lixo e entulho seria de baderna na universidade.
Entulhos foram acumulados após um mutirão de limpeza feito por estudantes em greve na universidade. - Reprodução/Projeto Comprova

Conforme mostra reportagem do telejornal produzido por alunos de jornalismo da UFSC, a limpeza foi realizada no dia 11 de setembro por estudantes que ocuparam o prédio e decidiram concentrar ali atividades da greve estudantil, iniciada no dia 10. A mobilização é contra os cortes orçamentários do governo federal nas universidades públicas. 

A informação de que os entulhos foram resultado do mutirão de limpeza feito após o início da greve foi repassada por três estudantes entrevistados pelo Comprova. O lixo foi retirado da entrada do prédio no dia 20, segundo estudantes ouvidos pelo Comprova. 

A administração da universidade também afirmou, em postagem em seu perfil no Twitter publicada após a viralização das fotos, que o lixo visto na imagem era resultado do mutirão de limpeza feito pelos estudantes. Os alunos que estão em greve ocuparam o prédio “para concentrar as atividades da greve estudantil”.

A pedido do Comprova, o estudante de jornalismo da UFSC Gabriel Vieira foi ao prédio onde estavam os entulhos e fez um vídeo, às 7h53 do dia 20, do lado de fora do edifício, que mostra o lixo sendo removido por uma empresa de limpeza não identificada. Ele também fez uma fotografia do lugar no mesmo dia, mas no final da tarde, apontando que o prédio estava limpo de novo. A informação da data, associada ao local, está nos metadados dos arquivos checados pelo Comprova.

A fotografia dos entulhos viralizou ao lado de outras imagens que mostram pichações nas paredes do centro de convivência, prédio da UFSC que abriga o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e uma agência dos Correios, mas antes acomodava também uma livraria e outras áreas de lazer. Ao menos desde 2010, o centro está abandonado, segundo a UFSC, por falta de recursos para infraestrutura.

Tuíte da conta oficial da UFSC informa que o acesso ao prédio foi bloqueado devido à necessidade de obras estruturais. “Como estamos enfrentando uma escassez de recursos, especialmente para obras, não foi possível reformá-lo. Uma parte do prédio, no térreo, é liberada para uso”, afirmou.

A ex-reitora Roselane Neckel negou, em 2014, que o prédio estivesse abandonado, mas reconheceu que faltavam projetos complementares para a reforma do prédio. Há cinco anos, ela previa lançar uma licitação para a obra, o que nunca foi feito.

O Comprova não encontrou o autor das imagens das pichações, mas fotos no Google Maps e no Instagram e outras imagens feitas no local para o Comprova confirmam que o prédio está depredado pelo menos há quatro anos.

Pelo Google Maps, é possível ver o prédio por fora. Na foto tirada em janeiro de 2019, o prédio realmente está pichado e com papéis colados nas paredes, parecendo abandonado. No registro mais antigo do local, datado em julho de 2017, as pichações já haviam sido feitas e os vidros já estavam quebrados. 

O Comprova verificou o conteúdo de um tuíte publicado pelo perfil do empresário Luciano Hang no Twitter e de uma postagem da página República de Curitiba no Facebook.

Procurada, a assessoria de imprensa do empresário afirmou por email que as fotos foram recebidas de "um aluno que não quer se identificar para não sofrer represália”.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo que confunde ou que seja divulgado para confundir, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Desempenho e orçamento da UFSC

Na sua publicação no Twitter, Luciano Hang afirma que "enquanto a maioria dos brasileiros paga seus estudos com dificuldade, quem tem a oportunidade de estudar em uma federal faz esta baderna". Diferentemente do que o tuíte sugere, a UFSC é bem avaliada em diferentes rankings.

No ranking mundial da revista britânica Times Higher Education, divulgado em setembro de 2019, a universidade é a quinta brasileira mais bem colocada e tem nota máxima (5) no Índice Geral de Cursos (IGC), medido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC). Além disso, a instituição é a sexta colocada no Ranking Universitário da Folha, com nota final 92,3 (de 100). 

A página República de Curitiba diz que R$ 1,7 bilhão é pago por ano "para sustentar esta corja". O valor se aproxima ao orçamento de 2019 da UFSC, que foi de R$ 1,5 bilhão e teve bloqueios no valor de R$ 60 milhões. 

O orçamento previsto para este ano era de R$ 1,3 bilhão para pessoal e encargos sociais, R$ 227 milhões em despesas correntes, como pagamento de água, energia e serviços de limpeza e segurança, além de R$ 25 milhões para investimentos.

A UFSC está entre as universidades mais afetadas pelo contingenciamento de recursos das instituições federais de ensino superior anunciado em abril pelo MEC. Até setembro, o corte representou 35% dos recursos antes previstos para despesas não obrigatórias da instituição. Para o secretário de Planejamento e Orçamento da instituição, Vladimir Arthur Fey, se os valores não forem desbloqueados a UFSC não funcionará até o fim do ano.

Além de reivindicar o fim dos bloqueios, a greve estudantil na UFSC protesta contra o Future-se, projeto apresentado em julho pelo governo federal para incentivar as universidades a captar recursos privados, diante da crise no orçamento das instituições. 


Participaram da apuração deste texto Nexo, Jornal do Commercio, Poder360 e TV Band.

Projeto Comprova

O Comprova é uma coalizão de veículos jornalísticos que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre políticas públicas. É possível sugerir checagens pelo WhatsApp da iniciativa, no número (11) 97795-0022.

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