Descrição de chapéu Educação a distância

Graduações a distância viram alternativa para alunos e instituições

Popularização da modalidade nos últimos meses gera debate sobre como equilibrar expansão e qualidade

Lisandra Matias
São Paulo

A imersão no ensino remoto durante a pandemia deve levar ao crescimento das graduações e pós-graduações a distância, modalidade que já vinha em franca expansão no país.

Muitos estudantes que estão prestes a ingressar no ensino superior ou já fazem faculdade presencialmente perceberam que conseguem aprender online, em alguns casos rompendo preconceitos em relação à modalidade.

Geovanna de Souza Mendes, 19, que cursa o 1º ano de letras na Uninove, em São Paulo, foi uma das universitárias que, depois de experimentar a EaD (educação a distância), resolveu migrar do presencial para o online. Ela deve começar o segundo semestre do seu curso já de forma virtual.

"Descobri que poderia manter a qualidade da minha graduação, mas com a possibilidade de estudar no horário que mais me interessasse e ter mais autonomia."

Muitas universidades que eram refratárias à ideia da EaD também perceberam que a modalidade pode ser vantajosa em relação ao ensino presencial, diz Carlos Fernando Araújo Júnior, diretor da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância).

A experiência deve fazer com que aumente tanto a oferta de cursos quanto a demanda por parte dos alunos.

"Já temos notado mais pessoas nos procurando nas redes sociais e em sites de busca", afirma Rodolfo Azevedo, presidente da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), instituição pública voltada para EaD.

A universidade já estava em expansão antes da pandemia —entre 2019 e 2020, passou de 31 mil para 48 mil alunos e 30 novos polos foram abertos.

Outra instituição que está ampliando suas atividades é a Descomplica, plataforma de educação online que nasceu em 2011, voltada para vestibulandos. No ano passado, o site passou a oferecer cursos de pós-graduação e, em agosto, começa a ofertar graduações.

"Antes da pandemia, tínhamos cerca de 100 programas de pós-graduação. Com o crescimento da demanda, aceleramos investimentos em produção de conteúdo e chegamos a 180", diz Marco Fisbhen, diretor-executivo do Descomplica.

De acordo com ele, os alunos das turmas inaugurais de graduação são nativos digitais e têm uma média de idade bem mais jovem —mais da metade deles têm entre 18 a 25 anos— do que a tradicionalmente encontrada nos alunos de graduação a distância.

Além de atrair mais alunos ao ensino remoto, outra consequência da pandemia é uma maior adoção de atividades a distância em cursos presenciais. Hoje, a legislação permite que instituições ofereçam até 40% dos conteúdos e atividades de um programa presencial no formato EaD.

Na opinião de Araújo Júnior, da Abed, o lado bom da popularização da modalidade é o maior acesso ao ensino superior. Já um dos desafios, para os especialistas, é equacionar expansão e qualidade.

Para Joana Angélica Guimarães da Luz, reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia, é preciso ver o crescimento com cautela.

"Para que a EaD se torne um modelo de qualidade é necessário que sejam discutidas metodologias, que os professores sejam capacitados e que o acompanhamento das aulas tenha a presença constante dos docentes, de forma que o aluno não seja um mero receptor de conteúdos", diz a reitora, que também é presidente da comissão de educação a distância da Andifes (associação de dirigentes de instituições federais de ensino).

Segundo ela, outro risco é a precarização da carreira docente. "Muitos cursos utilizam conteúdos e materiais preparados por uma equipe de professores que não acompanha o desenvolvimento das aulas."

Apesar da popularização, a modalidade ainda enfrenta resistência em alguns conselhos profissionais, principalmente na área da saúde. É o caso do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), que é contrário a graduações a distância.

"Valorizamos o uso de inovações digitais, mas nunca como a base da formação. A EaD é um instrumento adicional e não pode substituir a educação presencial", afirma Dorisdaia Humerez, coordenadora da Comissão de Saúde Mental do Cofen.

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