Descrição de chapéu Coronavírus

Maioria dos países reabriu escolas, mas ainda buscam estratégias para não voltar a fechá-las

Um dos que passou maior tempo sem aula presencial, Brasil inicia movimento de retomada educacional

São Paulo

A maioria dos países do mundo reabriu total ou parcialmente as escolas, mas ainda buscam estratégias para que elas não tenham de ser fechadas novamente pela pandemia do coronavírus.

Dados da Unesco mostram que 80% dos países estão com atividades escolares presenciais em fevereiro. O Brasil, que foi um dos locais do mundo com mais tempo sem aula, inicia movimento de reabertura das escolas, mas ainda de forma localizada.

Com o recuo visto em locais que tiveram piora nas taxas de contaminação, como Alemanha, Inglaterra e Portugal, autoridades de diversos países ainda optam pelo retorno gradual dos estudantes e buscam novas estratégias para evitar novo fechamento.

Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden estabeleceu ter a maioria das escolas abertas como prioridade para os primeiros 100 dias de seu mandato. Uma de suas primeiras medidas para alcançar esse objetivo foi o de colocar agências e órgãos federais para articular um guia de retorno às aulas presenciais.

Na última semana, o CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, na sigla em inglês) declarou ser seguro a volta dos alunos às escolas, mas fez um importante adendo sobre as condições: “autoridades locais devem estar dispostas a impor limites a outros setores."

Para a agência de saúde, além das medidas de segurança dentro das escolas, serão necessárias ações em outras áreas para reduzir os índices de transmissão nas comunidades. Entre as recomendações está a restrição a locais com maior probabilidade de contaminação, como bares e restaurantes fechados e academias com pouca ventilação.

Manter outros setores fechados para que as escolas possam reabrir também é a estratégia analisada na Inglaterra. O país, que havia retornado com aulas presenciais no ano passado, voltou ao ensino remoto no início de janeiro após ter sido decretado um novo lockdown.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson anunciou que pretende autorizar o funcionamento das escolas no início de março.

“Esperamos que seja seguro começar a reabertura das escolas a partir de 8 de março, com outras restrições econômicas e sociais sendo removidas depois disso, conforme os dados permitirem", disse Johnson na última semana.

Com piora expressiva na pandemia, o governo de Portugal tentou manter as escolas abertas mesmo quando decretou novo lockdown em janeiro. A continuidade do aumento generalizado de casos e mortes fez com que o país tivesse que voltar a fechá-las —ainda sem previsão de retorno presencial.

Em outros locais, como Espanha, França e Itália, mesmo com o agravamento da situação epidemiológica as escolas continuam funcionando presencialmente de forma parcial. Nestes países, a opção foi por restringir outros setores, inclusive com toque de recolher durante a noite.

Para especialistas em educação os casos de países que tiveram de recuar na decisão de abertura das escolas não indica que houve erro em retomar as aulas presenciais, mas servem como exemplo para o Brasil que só agora, depois de mais de 10 meses, se mobiliza de forma mais generalizada para isso.

“O comparativo mundial é muito importante porque mostra os esforços das autoridades em diferentes momentos da pandemia para enfrentar essa interrupção histórica nos sistemas educacionais que terá impactos por tempo ainda indeterminado”, avalia Marlova Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil.

Uma lição importante que deve ser aprendida com os locais que já têm mais tempo de experiência com a retomada presencial é a de interdependência entre os setores.

“A volta às aulas não depende só da segurança no ambiente escolar, mas de outras ações coordenadas. A pandemia é uma situação de interdependência, por isso, a retomada das escolas depende da condução da saúde, do controle em outros setores.”

Uma das vantagens apontada nos outros países é terem tido uma coordenação nacional e intersetorial para o retorno das aulas, o que não aconteceu no Brasil.

De costas e sentados, estudantes escutam professora, que pode ser vista de frente, usando máscara
Professora dá aula ao ar livre na França - Sebastien Salom-Gomis/AFP

Apesar de o governo Jair Bolsonaro (sem partido) defender a reabertura das escolas, não houve nenhuma ação federal para apoiar, orientar ou coordenar essa ação.

Desde o início da pandemia, o Ministério da Educação tem sido criticado por não apresentar nenhuma política para mitigar os reflexos da situação sanitária na educação pública. O Ministério da Saúde também não fez nenhum estudo que orientasse a reabertura das instituições de ensino.

“O MEC abdicou de seu papel de coordenar nacionalmente a educação no país. Não orientou, não apoiou financeiramente e deixou estados e municípios mais vulneráveis com mais dificuldade de enfrentar essa situação”, diz Gabriel Corrêa, gerente de políticas educacionais do Todos pela Educação.

“Essa inoperância do ministério vai ampliar as desigualdades regionais do país.”

Apenas dez estados brasileiros preveem o retorno das aulas presenciais neste mês. Outros sete têm previsão de retomada em março ou abril. Há ainda outros seis que não sabem quando haverá a reabertura das escolas.

“Não é razoável que depois de tanto tempo com escolas fechadas ainda não haja planejamento nacional para a retomada em todo o Brasil, afirma Corrêa.

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