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Liliane Rocha

Nada é mais poderoso do que uma ideia que chega no momento certo

Liliane Rocha

Muitos brasileiros têm colocado a demanda por crescimento econômico na agenda do momento. Processo legítimo, uma vez que muito se debateu nos últimos meses sobre as instabilidades do cenário político e econômico.

O que chama a atenção, no entanto, é como por vezes tem se contraposto, como antagonistas, o crescimento econômico e a luta por igualdade. Ou, de forma mais sutil, como se tem colocado as questões de igualdade como menos prioritárias frente aos desafios econômicos.

As pessoas se esquecem que, no Brasil, falar de igualdade e justiça é justamente uma das questões chave, pois, com os altos índices de desigualdade que temos no país, que geram um abismo entre grupos sociais, é impossível falar sobre crescimento deixando de lado cerca de 16 milhões de brasileiros que vivem na extrema pobreza e à margem do dinamismo econômico. Enfatizando, 65% dessa parcela da população composta por negros.

Segundo o estudo País Estagnado: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras 2018, da Oxfam, o Brasil ocupa o nono lugar em desigualdade de renda dentre 189 países.

Já outro relatório, O Abismo que nos Une, aponta que, no país, apenas seis pessoas possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. E os 5% mais ricos detém a mesma fatia de riqueza que os demais 95% da população.

No livro “Capitalismo Improdutivo”, Ladislau Dawbor menciona o Gini –coeficiente que mostra a desigualdade de renda. Segundo o autor, o índice é 0,50 no Brasil, o que expressa uma desigualdade muito grande se comparado a outros países do mundo que são referências econômicas.

Na Suécia, por exemplo, o índice de desigualdade é 0,25, nos EUA, 0,45, e na África do Sul, 0,60. Lembrando que o índice varia de 0 a 1, onde zero corresponde a completa igualdade e 1 a completa desigualdade.

Quando olhamos para além da renda e consideramos também o patrimônio dos brasileiros, a desigualdade aumenta ainda mais, elevando nosso índice para 0,80. Portanto, muito próximo de um na pontuação, o que nos coloca como um país fortemente desigual.

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, compromisso assinado por 173 países junto a ONU e que lista 17 objetivos e 169 metas para a redução de diversas desigualdades, em seu 10 objetivo diz: “A desigualdade é um problema global que requer soluções integradas. A visão estratégica deste objetivo não constrói apenas sobre o objetivo da erradicação da pobreza em todas suas dimensões, mas também na redução das desigualdades socioeconômicas e combate às discriminações de todos os tipos.”.

E a meta 10.2 diz que, até 2030, devemos empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente de idade, sexo, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra.

Esses parecem ser justamente alguns dos preceitos que têm sido mais negligenciados em algumas das falas recentes. E, sem receio de ser redundante, afirmo que não se faz um país crescer deixando parte da população fragilizada mediante o processo econômico.

Como diria Victor Hugo, “nada é mais poderoso do que uma ideia que chega no momento certo.” E este momento, mais do que qualquer outro, é fundamental para o debate da igualdade. Da equidade. Da justiça social. Todos querem que o país prospere, mas queremos que isso aconteça do jeito certo e de forma igualitária para toda a população. 

Liliane Rocha

Fundadora e presidente da Gestão Kairós, consultoria especializada em sustentabilidade e diversidade, é autora do livro "Como Ser um Líder Inclusivo" e mestre em políticas públicas pela FGV

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