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Marcus Nakagawa

Consumo consciente com impacto da pandemia

Temos aprendido muito ao longo desta quarentena, confinados e lidando diariamente com situações internas e externas.

O momento exige reflexão e talvez seja uma oportunidade para as pessoas avaliarem seus comportamentos e suas vontades. Ambas as colocações podem estar ligadas ao consumo, ponto fundamental para mudarmos, se desejarmos, realmente, um mundo mais sustentável.

Precisamos rever nossas atitudes, dentre elas, saber de quem compramos e para onde vão os resíduos que consumimos. Na nossa antiga “rotina” diária, estávamos na rua, no escritório, na escola, na universidade, no carro, em vários lugares que nem pensávamos muito no que íamos comer ou comprar. Simplesmente passávamos o cartão ou o vale-refeição naquele lugar mais próximo para depois irmos para a reunião, aula ou compromisso. Vida “agitada”, não é mesmo?

Agora, neste período de reclusão temos a chance de revermos alguns hábitos e um deles é o consumo responsável. O fato é que isso pode ajudar não só o planeta, mas também outras pessoas durante esse período de crise. Quantos de nós não recebemos no grupo do condomínio, de amigos ou de parentes mensagens, nas redes sociais, com a propaganda de algum empreendedor, de alguém que está precisando de ajuda ou de uma campanha de doação? É o bolo da fulana, o doce da ciclano, a máscara do tio ou ainda a carne assada já pronta do mercadinho perto da sua casa.

De acordo com a matéria feita por um dos repórteres da Folha de São Paulo, Eduardo Cucolo, a crise do Coronavírus pode tirar até R$ 500 bilhões do consumo e isso vai impactar diretamente a renda das famílias em determinadas áreas e, consequentemente, a economia do país.

Abaixo, o gráfico usado na reportagem mencionada mostra exatamente a mudança do comportamento de consumo nesta época e um gráfico com dados da empresa de pagamentos Stone, que comparam os períodos de 5 de janeiro a 21 de março e de 22 de março a 17 de abril:

Por outro lado, ao longo desta reportagem o repórter explica que a quantidade de compras de alimentos aumentou nos supermercados, varejo e mercadinhos, além do famoso papel higiênico que foi o “frissom” de aquisições deste momento.

Mas o que chama atenção neste gráfico é o aumento das doações no comportamento do consumidor. Segundo o Monitor das Doações Covid-19, da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), no começo de maio a quantidade total de doações no país já estava em R$ 4,2 bilhões.

Podemos dizer que as doações e este comportamento de consumo mais consciente está gerando um impacto positivo, não? E mais do que isso, as compras que você está fazendo de mercadinhos, ou revendedores locais; ou ainda de pessoas que estão fazendo bolo, torta, pastel, tentando sobreviver, talvez seja um impacto direto local. Quem sabe não seja a solução para um todo, como mostra o título da reportagem, que a doença tirará não só vidas, como também o poder de consumo.

Não quero aqui, enaltecer este ponto, comparativamente às mortes ou ao empobrecimento da população, mas estamos consumindo mais conscientes, pois estamos prestando atenção nas nossas decisões de compra, ou seja, com mais responsabilidade.

Estamos com a percepção mais aguçada para escolher os produtos e serviços não somente por impulso, mas também com a consciência de que estamos ajudando alguém próximo ou duas vezes próximo de nós. Estamos doando mais. Talvez alguns já faziam isso, mas o fato é que este aumento de lucidez possa contribuir para o nosso desenvolvimento pessoal e coletivo.

É necessário reforçar, mais uma vez, o conceito do consumo consciente do Instituto Akatu e que talvez agora esteja fazendo muito mais sentido: “o consumo de produtos e serviços, muitas vezes, acontece de modo automático e impulsivo. É importante que o consumidor perceba o poder que tem ao fazer suas escolhas cotidianas, que influenciam na vida de muita gente”.

E agora precisamos, de verdade, influenciar na vida de muito mais gente, pois uma crise econômica ainda maior está se aproximando, com os índices de desemprego. Temos a obrigação de “escolher” (quem tem, claro) para aonde vai o dinheiro na hora de consumir cada um dos produtos e serviços que aparecem nas suas redes sociais, TV e sites. Esta escolha pode ter um impacto ainda mais positivo com o seu consumo consciente. Já fez as suas escolhas hoje?

Marcus Nakagawa

Professor da ESPM e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (Ceds), é idealizador e diretor da Abraps e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida

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