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Dose certa de ansiedade pode melhorar desempenho e evitar situações de risco

Transtorno pode ajudar a permanecer prudente e organizado; em excesso, porém, é indicado procurar ajuda profissional

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Christina Caron
The New York Times

Durante toda minha vida adulta, tentei evitar dirigir.

Eu poderia alegar todo tipo de motivações nobres: preocupação com o meio ambiente, desejo de economizar, os benefícios à saúde ganhos por caminhar ou andar de bicicleta.

Mas minha motivação principal é que sou ansiosa.

E se eu fizesse alguma coisa estúpida e acidentalmente pisasse no acelerador, em vez do freio? E se uma criancinha de repente saísse correndo no meio da rua? E se outro motorista estivesse distraído ou enraivecido?

Respiração consciente contra o estresse e a ansiedade
Especialista recomenda fazer exercícios de respiração para amenizar os sintomas da ansiedade - Ingrid Santana/Pexels

Em 2020 eu já conseguira passar oito anos sem pegar na direção, apesar de ter ganho minha carteira de habilitação quando ainda estava no colégio.

Então chegou a pandemia.

Depois de um ano enclausurados em nosso bairro em Manhattan, minha pequena família de três pessoas ansiava por ver novas paisagens.

Reservei um lugar para ficarmos na serra dos Adirondacks, a três horas de carro de Nova York. E, pela primeira vez na vida, me matriculei numa autoescola para ter aulas formais.

Naquele primeiro dia, cheguei me sentindo enjoada e com medo, tensa e com o cérebro em alerta máximo. Mas o instrutor me garantiu que não iríamos morrer –não íamos dirigir em velocidade suficiente para isso, ele explicou— e depois me falou algo que ninguém jamais me havia dito: "O medo nunca te abandona".

Você aprende a controlar o medo, ele explicou. Aprende a ter medo suficiente para ficar alerta e prestar atenção ao que está à sua volta, mas não o suficiente para ficar hesitante demais.

A noção de que eu não precisava eliminar minha ansiedade completamente me deixou mais à vontade. Especialistas dizem que ter alguma ansiedade, especialmente quando você enfrenta uma situação estressante, não é necessariamente ruim. Pode até beneficiar você.

Veja o porquê.

A dose certa pode melhorar sua performance

A ansiedade é uma emoção incômoda e que frequentemente é alimentada pela incerteza. Pode gerar preocupação e medo intenso, excessivo e persistente, não apenas em relação a eventos estressantes, mas também a situações cotidianas. Geralmente também há sintomas físicos, como frequência cardíaca elevada, tensão muscular, respiração acelerada, transpiração e fadiga.

A ansiedade excessiva pode ser debilitante. Mas a ansiedade em grau normal se destina a nos conservar em segurança, dizem especialistas.

"A emoção da ansiedade e a resposta subjacente de estresse fisiológico evoluíram para nos proteger", disse a neurocientista Wendy Suzuki, autora de "Good Anxiety" (Boa ansiedade, em inglês).

Em seu livro, Suzuki explica que controlar o estresse pode ser mais útil que eliminá-lo. Segundo a lei de Yerkes-Dodson, teoria que se originou no início do século 20 a partir de experimentos com camundongos, níveis crescentes de excitação cognitiva, ou estresse, podem melhorar o desempenho –mas apenas até certo ponto. Representada por uma curva no formato de montanha, a teoria mostra que depois de a curva chegar ao ápice, níveis mais altos de estresse podem fazer o desempenho cair.

Quando a ansiedade é excessiva, disse Suzuki, ela tende a ser menos útil. O primeiro passo para controlar a ansiedade que prejudica você é reconhecer quando você está se sentindo ansioso demais e tentar se acalmar.

"A dica nº1 que dou às pessoas é ativar o sistema nervoso parassimpático --os neurônios que podem baixar a frequência cardíaca e ajudar a pessoa a se sentir mais calma--, com a ajuda da respiração profunda", ela disse. "Essa é uma ferramenta muito útil com a qual contar."

A respiração profunda pode ser praticada a qualquer hora e em qualquer lugar, ela disse, quer você esteja parado numa fila, sentado numa sala de aula ou, como é o meu caso, dirigindo um carro.

Atividade física –mesmo algo tão simples quanto caminhar ao ar livre— pode elevar o nível de serotonina e dopamina do cérebro, disse Suzuki, e isso também ajuda a fazer a ansiedade cair para um nível mais controlável.

Um certo grau de ansiedade pode ajudar as pessoas a prever obstáculos, permanecer prudentes e ser organizadas, disse Ellen Hendriksen, psicóloga clínica em Boston e autora do livro "How to Be Yourself: Quiet Your Inner Critic and Rise Above Social Anxiety" (Como ser você mesmo: silêncie seu crítico interno e fique acima da ansiedade social, em português).

Mas, ela disse, se a ansiedade está deixando você incomodado com muita frequência, atrapalhando seu dia a dia e impedindo você de viver a vida que deseja, isso indica a necessidade de ajuda adicional, idealmente de um profissional de saúde mental.

Pode te ajudar a reconhecer o que não está funcionando

O psicólogo de Filadélfia Seth Gillihan, autor de "The CBT Deck for Anxiety, Rumination and Worry", disse que frequentemente se sentia ansioso antes de começar seu dia de trabalho. Na época, ele se preocupava em controlar sua ansiedade, não em investigar o que a estava causando. Finalmente se deu conta que o problema não estava na ansiedade propriamente dita.

"Eu vinha trabalhando havia muito tempo de uma maneira que não era sustentável", disse Gillihan, cujos problemas de saúde às vezes se tornam impeditivos para cumprir um dia de trabalho completo.

Ele então reduziu seus horários de atendimento e começou a passar mais tempo escrevendo e gravando podcasts, duas das coisas que mais gostava de fazer.

Agora ele se sente grato por ter ouvido o que seu corpo estava tentando lhe comunicar, em lugar de tentar reprimir aquelas sensações.

"Muito do sofrimento que a ansiedade nos causa vem da resistência que opomos à ansiedade", ele explicou. "Costumamos dobrar nosso sofrimento quando ficamos ansiosos e também pensamos ‘preciso parar de ficar ansioso’. Passamos a combater em duas frentes."

"Eu encaro a ansiedade como um alarme –como um detector de fumaça, por exemplo. Um bom alarme não passa o tempo todo silenciado."

Aceitar pode te ajudar a encarar seus medos

Se você se descobre superestimando o risco de alguma coisa terrível acontecer, comece por reconhecer sua ansiedade e encará-la objetivamente. É a recomendação de Joel Minden, psicólogo clínico no Centro Chico de Terapia Comportamental Cognitiva, em Chico, Califórnia, e autor de "Show Your Anxiety Who’s Boss" (Mostre a sua ansiedade quem é o chefe, em português).

Procure lembrar que essa é a reação emocional que ocorre quando você prevê que vão acontecer coisas ruins, ele disse. É uma irritação, um inconveniente –"quase como se meu cérebro nesse momento fosse uma criança tendo um ataque de raiva".

Seja paciente e gentil consigo mesmo, ele recomendou, como seria com um amigo. Dê passos pequenos e controláveis para enfrentar seus medos.

"Esta é uma oportunidade para aprender a aceitar e tolerar a ansiedade", ele acrescentou.

Todd B. Kashdan, professor de psicologia e diretor do Laboratório de Bem-Estar da Universidade George Mason, em Fairfax, Virginia, estava criando coragem para finalmente tentar praticar escalada ao ar livre no Arizona. Ele começou de maneira modesta, treinando na parede de escalada em sua academia.

Na primeira tentativa que ele fez ao ar livre, suas mãos transpiravam tanto que o giz ficava saindo. Um dos guias lhe apresentou uma escolha: você pode ficar no chão –sozinho, no meio do deserto— ou pode escalar, levando sua ansiedade junto.

"Meu coração estava explodindo", contou Kashdan, co-autor de "The Upside of Your Dark Side" (O lado bom de seu lado ruim, em português), livro que trata da utilidade da raiva, ansiedade e medo.

"Mas eu tinha uma tarefa muito clara a desempenhar e sabia que poderia dar conta dela com a ansiedade, porque aquele guia especializado me contou que ele mesmo já havia feito isso, que as pessoas fazem e que eu ia fazer."

A ansiedade pode promover a responsabilidade

As pessoas ansiosas tendem a ser cuidadosas e prudentes e, segundo Alice Boyes, autora de "The Anxiety Toolkit" (A caixa de ferramentas da ansiedade, em português), podem canalizar essas tendências para uma atitude mais consciente.

"Eu mesma sempre fui ansiosa", ela disse. "Era o tipo de criança que se recusava a ir a um acampamento de férias ou a passar a noite na casa de outras pessoas. Vivia sentindo dor de barriga ou algo do tipo antes de eventos esportivos na escola."

Já adulta, ela continuou a preocupar-se com a possibilidade de as coisas darem errado, mas também começou a traçar planos para o caso de emergências. Isso ajudou a acalmar seus receios e reduzir a probabilidade de eventualidades muito graves. Quando vai partir para algum lugar, por exemplo, Boyes olha no mapa antes para ver como chegar a seu destino e estuda as ruas em volta para evitar a possibilidade de se perder.

O objetivo é traçar um plano que ajude você a reduzir seus receios e então seguir o plano.

No meu caso, preparar-me com antecedência foi o que acabou me dando a confiança necessária para dirigir até o interior do estado. Para isso foram necessárias oito aulas de direção, uma mensagem de texto de último minuto para meu instrutor e um carro alugado com recursos de segurança avançados.

Finalmente fizemos as malas e partimos.

"Mamãe é a motorista!", disse minha filha de 4 anos, sentada no banco de trás.

"Isso mesmo", respondi, começando a sentir um pouco de orgulho de mim mesma. "Sou a motorista."

Tradução de Clara Allain

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