Antes associado à 'cura da histeria', vibrador faz 150 anos mais sem-vergonha

Objeto foi criado em 1869 com função médica e hoje está mais livre, luxuoso e diverso

Marcella Franco
São Paulo

​Há 150 anos, a humanidade criou o chiclete, o aspirador de pó e um item só um pouco mais polêmico, até nos dias de hoje: o vibrador.

Embora tenha sido contestada recentemente por historiadores no americano Journal of Positive Sexuality, a biografia dos vibradores que mais se conhece diz que, no século 19, mulheres que buscavam consultórios médicos com sintomas como ansiedade, dores de cabeça e irritabilidade recebiam, além do ultrapassado diagnóstico de histeria, a recomendação para que praticassem o “paroxismo histérico”. Em outras palavras, a elas era recomendado gozar. 

O tratamento era aplicado pelos médicos, que ficavam encarregados das massagens íntimas. Exaustos e com câimbras, receberam com alívio a invenção do colega George Taylor, um vibrador a vapor chamado “the manipulator”.

 

A versão consta do livro “The Technology of Orgasm: ‘Hysteria’, the Vibrator, and Women’s Sexual Satisfaction” (“A Tecnologia do Orgasmo: ‘Histeria’, o Vibrador, e a Satisfação Sexual Feminina”), da historiadora americana Rachel Maines, premiada pela Associação de História Americana em 1999, e de estudos acadêmicos.

“Existe o conceito de que o vibrador teria surgido com fins de tratamento, mas que depois teve seu uso ampliado. Essa história ainda está em aberto. O que se sabe certamente é que o termo histeria, que acabou sendo divulgado popularmente, não tem base científica alguma e não é mais utilizado”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

O consenso sobre a história do vibrador se estabelece a partir da criação do item tal qual o conhecemos, nos anos 1950. 

“O uso do vibrador se difundiu não só como instrumento de prazer entre mulheres que não têm parcerias mas também como brinquedo na relação, para diversificar ou complementar a relação sexual. A conotação dos vibradores foi mudando. Hoje há um mundo de possibilidades”, avalia.

A consultora em amamentação Simone Gomes, 31, levou a sugestão do vibrador para sua cama com a ideia de unir ainda mais o casal numa nova experiência. “Queria saber qual era a sensação de fazer sexo anal e ter uma penetração vaginal ao mesmo tempo, mas não queria ter um segundo parceiro. Testamos o vibrador interno, achei incômodo, e foi então que conheci o massageador clitoriano. Virei fã”.

Na butique erótica Innuendo, em São Paulo, os estimuladores de clitóris são os mais vendidos, segundo Thiago Andrada, fundador da marca. “O destaque do ano passado foi o Fun Factory Volta, um vibrador recarregável desenvolvido para massagear o clitóris, os lábios e a vulva”. Na loja, o modelo custa R$ 827.

“Os vibradores deixaram de ser feitos em forma de pênis e bullets. Os novos formatos, materiais e tipos de vibrações trouxeram a possibilidade de as mulheres experimentarem novas sensações de prazer”, diz Ana Magalhães, sócia da Miss Scarlet, loja online de produtos eróticos. “O conceito de que quem usa vibrador é uma pessoa solitária, sem opções, não é mais válido”.

Na loja dela, um dos itens mais luxuosos é o Vesper Gold Rose, um vibrador discreto em formato de pingente, vendido por R$ 746. Cifras como essa ajudam a entender o tamanho do mercado erótico, que em 2017 movimentou mais de R$ 1 bilhão. “Nossa marca comercializa por ano cerca de 50 mil vibradores”, diz Stephanie Seitz, diretora de marketing da INTT Cosméticos.

Dirk Bauer, CEO da fabricante Fun Factory, lembra que, quando fundou a marca, há 20 anos, a indústria de brinquedos sexuais era um tabu.

Hoje, os vibradores passeiam pelas timelines das redes sociais, que viraram vitrine especialmente para marcas menores e artesanais como a Ápice, que faz objetos eróticos de madeira e foi criada pelos artistas plásticos Guga Szabzon e Taygoara Schiavinoto. 

O dildo de madeira não vibra, é verdade. “O objetivo é causar outras sensações. A madeira, diferentemente do plástico e do silicone, muda de temperatura e tem um toque diferente”, diz Szabzon, que contou com a ajuda da namorada para fazer os testes.

Outra marca mais nova no mercado é a Pantynova, criada por duas meninas quando eram um casal —Lola e Izabela, ou Heloisa Etelvina e Izabela Starling—, e lançada em 29 de abril de 2018.

O objetivo delas era criar um híbrido de calcinha com strap-on (também conhecida como cinta peniana), num produto bonito, confortável e funcional.  

Além de criar as calcinhas, elas criaram seus próprios dildos. "Todas as sex shops que visitamos são ambientes criados para o deleite do homem e não para o prazer da mulher. Cansamos de procurar e resolvemos criar os nossos próprios dildos.  O processo é praticamente o mesmo de uma escultura, modelamos com as mãos o primeiro protótipo, depois finalizamos aparando as arestas e lixando, e eu mando para as amigas testarem", diz Lola.

"Hoje oferecemos também conteúdos sobre a sexualidade feminina nos quais discutimos assuntos variados, desde a anatomia da vulva/vagina até como se masturbar sozinha. Também oferecemos conteúdo erótico, como contos", diz. 

A produção dos dildos de madeira da Ápice também é artesanal e cada lote tem de sete a dez dildos. Não há frequência fixa de fabricação. As vendas são feitas pela página da marca Ápice no Instagram. E, quando lançados, os dildos de cada leva não demoram nem um dia para serem vendidos. O preço varia de R$ 300 a R$ 450. 

Segundo Szabzon, o objetivo é levar o assunto da masturbação feminina para a sala de estar. Literalmente: ela diz que algumas de suas clientes deixam o objeto à vista e não na gaveta do criado-mudo.

“Enquanto não é fácil para algumas mulheres frequentar um sex shop, há outras que mandam entregar o vibrador na portaria do prédio”, diz Carmita Abdo. 

A doula Gabriela Gavioli, 25, com seu vibrador
A doula Gabriela Gavioli, 25, com seu vibrador - Karime Xavier/Folhapress

O tabu é tanto que, no Brasil, um decreto de 2009 prevê multa de até R$ 1.000 para quem tentar entrar no país com produtos desta natureza. O enquadramento fica a cargo de um critério do agente aduaneiro. Nos EUA, alguns estados proíbem a publicidade e a venda de vibradores.

“Nos anos 1960, os absorventes eram embrulhados em jornal para não ficarem visíveis na saída da loja, e hoje estão expostos nas prateleiras. Ainda não é o caso do vibrador. Quem tem que fazer a mudança somos nós, o vibrador está lá para a gente acessar se quiser.”

A psiquiatra lembra que já passaram por seu consultório casais para os quais o vibrador se tornara motivo de desavença, com parceiros que se julgavam substituídos por falta de competência. 

“A mulher vai usar o vibrador. Ele já está lá na gaveta dela, provavelmente embaixo de 50 calcinhas. Mas, se for para usarem juntos, coisa que pode ser extremamente útil, ambos precisam estar confortáveis.”

“Quando propus ao meu marido o uso do vibrador no sexo, ele me olhou com os olhos brilhando e topou”, conta a doula Gabriela Gavioli, 25. “É engraçado, porque antes eu ficava bem apreensiva de falar sobre isso com quem eu saía porque não queria que a pessoa sentisse que ela não bastava. Mas o vibrador entra para somar. Uma coisa não exclui a outra, mas é bem legal quando usado junto.” 

Com UOL

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto informou incorretamente o nome da doula Gabriela Gavioli.

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