Descrição de chapéu Minha História

'Todas as compulsões vinham do mesmo lugar, da falta de autoestima'

Depois de sofrer com transtornos alimentares, influenciadora desconstrói padrões de beleza

Mirian Bottan
São Paulo

Mirian Bottan, 32, descobriu os padrões estéticos cedo. Ao mesmo tempo em que aprendia a ler e escrever, também foi ensinada que a beleza era o principal capital de que uma mulher pode dispor. O preço da doutrinação foi alto: ela desenvolveu bulimia, e viveu sua adolescência e juventude inteiras lutando contra o próprio corpo.

Foi um longo caminho até superar o transtorno e se transformar na referência que é hoje, com mais de 600 mil seguidores no Instagram. Lá, na terra da idolatria à forma perfeita, Bottan desconstrói os mesmos padrões que um dia a levaram ao inferno.

Entrei para os concursos de beleza aos cinco anos. Enquanto ainda desenvolvia minha identidade, estive em um ambiente com objetivos definidos sobre quem a gente deveria ser. Um deles era ser magra. Até os 12 anos parecia uma experiência inofensiva, só que ninguém sabia que eu já tinha um transtorno de ansiedade.

Roer as unhas era o mínimo. Eu sentia medo de morrer o tempo todo. Aos sete anos, depois de ver uma reportagem, fiquei com pavor de ter Aids. Eu tinha medo de meteoro. Não era normal, mas meus pais não percebiam, nem eu. Os concursos geravam ansiedade. Era um julgamento de algo sobre o que eu não tinha controle. Desenvolvi um tique. Lembro daquela sensação de tensão —eu fechava o olho bem forte para parar de sentir aquilo.

Mirian em meio a plantas
Mirian Bottan, 32 - Zanone Fraissat/Folhapress

Nunca venci. As crianças que ganhavam se pareciam com adultos, todas com um corpo desenvolvido. Eu era magrinha. No concurso de Rainha Mirim da Festa do Peão, passei na primeira fase. Na segunda, não fui classificada, e ganhei uma rosa de consolação. Cheguei em casa chorando, e joguei a rosa no lixo.

Sentia raiva, vergonha, não sabia lidar com o fato de ser reprovada pela minha aparência. Escrevi no diário que estava acima do peso. Tinha 42 kg, e decidi emagrecer. Aos 12 anos, minha autoestima ficou minada para sempre.

Comecei uma dieta sem falar para ninguém. Mentia, dizia que já tinha comido, pegava a comida e jogava fora. Só que, tentando comer menos, comecei a comer mais. Ficava horas sem comer, restringia, aí perdia o controle e comia desesperadamente. Comecei a beber escondido e a usar droga. Aos 12 anos, bebia o que tinha em casa. Com 13, comecei a fumar maconha; com 14, a cheirar cocaína.

Procurava formas de me sentir segura. Matava aula e chegava em casa bêbada. Um dia em casa li uma revista que falava da “doença vinda do inferno”, sobre um menino com bulimia. Do alto da minha sabedoria, achei aquela uma ótima ideia.

Passei a comer e vomitar. Minha mãe descobriu alguns meses depois, porque o banheiro ficava com cheiro de vômito. Cheguei a pesar 38 kg. De calcinha e sutiã, subia na esteira de casa e corria. Gostava de ver os ossos no espelho. Também comecei a usar laxante e diurético.

Eu não queria tratamento porque não queria engordar. Vomitava oito vezes por dia, fiquei deprimida, anêmica, metade do meu cabelo caiu, e, dos 14 aos 16, não menstruei. Perdi um ano na escola porque não conseguia sair da cama. Meus pais não sabiam lidar comigo, queriam que me levantasse, e isso ia deixando o quadro de ansiedade pior. Acabei topando buscar ajuda.

Tomei antidepressivo, e foi um divisor de águas. Consegui me alimentar, fiquei mais calma, a compulsão diminuiu. Só que interrompi o tratamento. 

Mudei para São Paulo aos 21, para trabalhar. Estava melhor, mas eu era muito sozinha. Saía do trabalho, comprava um monte de comida, comia, vomitava até as 2h, e ia trabalhar com compressas de gelo no rosto no dia seguinte. As glândulas salivares ficam inflamadas na bulimia.

Trabalhei no programa A Liga, na Bandeirantes. Ainda tinha crises de bulimia, mas estava feliz. Quando acabou o contrato, veio a descida da montanha-russa. Tinha acabado de me ir morar com meu namorado. Eu não tinha mais como dividir as contas. Estava me sentindo muito mal e, nesse momento, voltei a beber.

Tomava shots de vodka sozinha. Apagava. Voltei a sair com meus amigos que usavam cocaína. Os episódios de compulsão alimentar voltaram. Não saía de casa a menos que bebesse antes. Procurava trabalho, não aparecia. Tomei meia garrafa de Fernet sozinha. Lembro que acordei com o coração disparado e pensei que ia morrer se aquilo não parasse. 

Liguei para um psicólogo. O tratamento teve muito sobe e desce —não é fácil. Encontrei uma nutricionista esportiva que até me ajudou, mas não tinha preparo para lidar com transtorno alimentar. Ela sugeriu um processo de ganho de massa, disse que eu tinha que comer bastante e malhar. Foi positivo, ganhei 6 kg de músculo em um ano e meio.

Mas essa conduta acabou despertando o transtorno alimentar de novo. A questão dos números medidos por ela me deixava obcecada. Tirei óleo, açúcar, sal. Foi ficando mais restritivo. Comecei a perceber minha relação de ódio comigo mesma, como eu media meu valor pela aparência.

O estalo veio numa viagem com meu marido. A gente brigou muito. Tínhamos que economizar comendo besteira, e eu não admitia. Senti ciúmes porque estava insegura. Seguia perfis de mulheres fitness no Instagram e me comparava a elas. Eu queria ter o braço de uma, a coxa da outra. Eu me compartimentava.

Descobri a terapia comportamental em 2016 e comecei a agir. Parei de me pesar, e me permiti comer o que gostava, aos pouquinhos.

Hoje quase não bebo. Não faz falta. Fazia isso para me sentir segura. Fui entendendo meu passado, a necessidade de aprovação, de agradar as pessoas. Comecei a desencanar disso quando fiz meu projeto no Instagram [#projetovidão].

Comecei a entender o que era autoestima. Pela primeira vez, olhei para o que fiz e vi valor.

Fui colocando a vida em ordem, inclusive financeiramente. Eu gastava muito com roupas e coisas que não usava. Entendi que todas as compulsões vinham do mesmo lugar, a falta de autoestima.

Não tem fórmula mágica. O fundamental é não desistir do tratamento. Às vezes, tem que mexer em coisas dolorosas. Uma das mensagens que gosto de passar é a importância de buscar ajuda. Tem gente que tem vergonha porque a família fala que é frescura, coisa de gente louca. Ainda tem preconceito e desinformação.

Hoje, minha relação com meu marido é diferente. Não que eu não tenha ciúmes, mas consigo entender. Achava que, quando chegasse naquele corpo que eu queria, ia ficar bem, mas eu já estava muito perto e não ficava. Era um desespero muito grande pensar que, se eu não tivesse o corpo certo, meu marido iria embora. E foi isso a vida inteira —se não tivesse o corpo certo, não teria o emprego que queria.

Descobri que tinha uma pessoa dentro de mim capaz de se cuidar e que não dependia da aprovação alheia. Para mim, se tratar é criar uma relação com a gente mesma. 

Depoimento a Marcella Franco

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