'Só queria me sentir em casa de novo', diz brasileira que saiu de epicentro do novo coronavírus

Adrielly Eger estava em grupo com 34 brasileiros e parentes chineses que chegou ao Brasil neste domingo; eles devem passar por 18 dias de quarentena

Anápolis (GO)

Era a penúltima semana de janeiro. Faltavam poucas horas para que a modelo Adrielly Eger, 18, pudesse deixar Wuhan, epicentro da epidemia do novo coronavírus na China, quando o aeroporto onde ela estava junto com uma amiga brasileira foi fechado. "Depois disso, tentamos sair até de carro. Mas fecharam tudo, de uma hora para outra", relata. 

A partir daí, começaram as dificuldades. No caminho de volta do aeroporto, as duas passaram em um mercado pequeno no bairro onde moravam. "Mas acabamos indo tarde, e só conseguimos comprar alguns pacotes de arroz."

Os dias seguintes foram de cautela. Ao longo de duas últimas semanas, ela diz ter deixado a casa onde morava apenas duas vezes para reforçar o estoque de comida, e, ainda assim, somente com o uso de máscara, luvas e álcool gel a tiracolo. O motivo era o temor do novo coronavírus, quadro que levou a China a colocar toda a cidade de Wuhan em uma espécie de quarentena na tentativa de conter a transmissão.

Adrielly Eger, 18, está entre os 34 brasileiros que foram evacuados de Wuhan, epicentro da epidemia do novo coronavírus. Ela desembargou em Anápolis (GO) no domingo (9) e passará cerca de 18 dias em quarentena no hotel da base aérea militar da região
Adrielly Eger (à esquerda) está entre os 34 brasileiros que foram evacuados de Wuhan, epicentro da epidemia do novo coronavírus. Ela desembargou em Anápolis (GO) no domingo (9) e passará cerca de 18 dias em quarentena no hotel da base aérea militar da região - Arquivo pessoal

Neste domingo (9), Adrielly chegou a Anápolis (GO) para uma nova etapa de quarentena, mas agora no seu país de origem. 

Paranaense, ela é uma entre os 34 brasileiros que chegaram neste domingo na base aérea da cidade goiana em meio à operação Regresso, cujo objetivo era repatriar brasileiros que estavam em Wuhan. A missão foi organizada após o grupo gravar um vídeo em que pede apoio ao governo para saída.

Uma das primeiras a aparecer nas imagens, Adrielly agora descreve a sensação da chegada como "alívio". "Por sorte, todos estão sendo muito queridos conosco", afirmou ela à Folha por telefone. "Como a situação lá estava difícil, a gente só queria se sentir em casa de novo."

Para ela, foi isso que ocorreu. Assim que entrou no local de quarentena, a modelo encontrou seu nome na porta de um quarto com cama box, banheiro, TV, guarda-roupa, mesa para refeições e cartas de boas-vindas, além de uma cesta com frutas e outra com doces.

"Também chegamos e já havia um café esperando por nós", relata. Em seguida, conta, uma equipe médica vestida com roupas impermeáveis, luvas e máscaras passou em cada um dos quartos para coleta de amostras respiratórias. O objetivo é verificar se houve possível infecção pelo coronavírus. 

Segundo informações do Ministério da Defesa, até o momento, ninguém apresenta sintomas. Somados tripulantes e equipe médica, o número de pessoas na quarentena chega a 58.

A viagem de retorno durou cerca de 37 horas.

A preparação para a vinda, porém, não foi tão simples. Antes do embarque, Adrielly diz que deixou para trás a bagagem que havia levado para trabalhar por até dois anos em contratos como modelo --o de Wuhan estava previsto para durar três meses. "Acredito que eu e minha amiga fomos as que mais sofremos nessa hora. Mas nada do que deixamos supera o fato de estarmos aqui agora, longe do vírus", afirma.

Para Adrielly, a saída de Wuhan ocorreu no "momento exato" para evitar que a situação ficasse ainda mais difícil. O contrato do apartamento onde morava, por exemplo, encerrou na mesma semana do voo. Enquanto isso, a cidade continuava com fronteiras fechadas e com balanços que apontavam para aumento de casos. "Tínhamos medo de ficar lá presas por tempo indeterminado."

Enquanto começa a contagem da quarentena, ela faz planos sobre o que pretende fazer assim que deixar o local.

"Não sei se meu contrato como modelo ainda vai estar de pé, mas antes [de voltar a trabalhar] ainda pretendo ficar um pouco com minha família. Falei com eles mais cedo e eles brincavam que, de tanto alívio, até a comida já estava com gosto diferente."

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