Descrição de chapéu Coronavírus

Efeito do coronavírus em crianças é pouco entendido

Europeus relatam síndrome inflamatória em alguns pacientes de grupo que parece ser menos afetado

São Carlos

Os dados disponíveis até agora sugerem que as crianças têm sido pouco afetadas pela Covid-19. Na Europa, por exemplo, só 2,1% dos casos confirmados de presença do vírus vêm de pacientes com idades entre 0 e 14 anos, e as mortes são ainda mais raras.

Ainda é cedo para dizer, no entanto, que esses dados podem permitir uma reabertura de creches e escolas. Não está claro, por exemplo, se as crianças, além de terem muito menos sintomas, também transmitem menos o coronavírus Sars-CoV-2 que os adultos. E alguns casos entre elas têm se revelado muito graves, a ponto de provavelmente desencadear uma síndrome nova.

Professora mede a temperatura de aluno na entrada de uma escola na Bélgica; parte dos alunos voltou às aulas no país nesta semana, com regras de distanciamento social; a professora tem cabelos curtos grisalhos e usa casaco e vestido em tons vivos de laranja, e uma máscara branca; ela aponta um termômetro desses que medem a temperatura a distância para a testa de um menino de casaco cáqui e máscara azul
Professora mede a temperatura de aluno na entrada de uma escola na Bélgica; parte dos alunos voltou às aulas no país nesta semana, com regras de distanciamento social - Johanna Geron /Reuters

Uma das hipóteses usadas para explicar o cenário pediátrico da Covid-19 propõe que, por estarem mais expostas a outros coronavírus (que já circulam há muito tempo na população humana, em geral causando resfriados comuns), as crianças teriam mais imunidade a esse tipo de invasor viral do que os adultos.

“O problema é que a gente não conhece casos de imunidade cruzada [ou seja, na qual se recuperar do ataque de um patógeno traz proteção contra outro patógeno aparentado a ele] entre os outros coronavírus e o Sars-CoV-2. Além do mais, se fosse esse o caso, a situação dos idosos deveria ser similar à das crianças, por causa da susceptibilidade deles a tais resfriados, o que não tem ocorrido”, explica o médico Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e professor da Universidade Feevale (RS). “Portanto, essa me parece uma ideia bastante frágil.”

Problemas semelhantes tendem a colocar em xeque outra hipótese, a de que, de alguma maneira, o sistema de defesa do organismo das crianças estaria lidando com o Sars-CoV-2 de maneira mais equilibrada do que o de adultos por ser menos robusto, paradoxalmente.

Segundo essa visão, seria menor a possibilidade, entre crianças, da reação exacerbada do corpo à presença do vírus, conhecida como tempestade de citocinas, que é capaz de danificar severamente o pulmão de pacientes graves por causa do processo inflamatório excessivo provocado pelas tais citocinas (um grupo de moléculas sinalizadoras do sistema imunológico).

De novo, porém, é preciso levar em conta as semelhanças entre o sistema imunológico das crianças, em especial as pequenas, e o dos idosos, ambos relativamente mais frágeis do que os dos adultos mais jovens. E os idosos estão entre as principais vítimas do vírus em todo o mundo, o que lança dúvidas sobre a ideia.

Crianças e a Covid-19

Ainda não se sabe por que elas adoecem e morrem menos

  • 0,6%

    dos mortos por Covid-19 no Brasil tem de 0 a 19 anos

  • 51

    crianças e adolescentes morreram por Covid-19 até 8 de maio, segundo dados do Ministério da Saúde

  • 2,1%

    dos casos confirmados de coronavírus na Europa foram de crianças de até 14 anos

Para Spilki, a ideia que parece mais provável até agora é a que associa a relativa proteção das crianças contra os piores efeitos da Covid-19 à variabilidade de “fechaduras” para a invasão do vírus na superfície das células.

Essas portas são os receptores ECA2, localizados na membrana celular de diversos órgãos, mas especialmente abundantes nas vias respiratórias (boca, nariz, faringe, laringe pulmão) de adultos. É nesse tipo de fechadura celular que o Sars-CoV-2 precisa encaixar sua “chave”, a proteína S (de “spike”, ou espícula), para atravessar a membrana das células e sequestrar suas fábricas internas, que passam a produzir mais cópias virais.

Ocorre que existe variação na quantidade desses receptores ao longo da vida dependendo do lugar no organismo, e uma possibilidade é que eles sejam menos abundantes nas vias respiratórias de crianças.
Isso explicaria tanto os efeitos mais suaves da doença em crianças quanto o fato de que a quantidade de vírus detectada em exames de pacientes pediátricos parece ser menor.

Um detalhe que talvez corrobore essa ideia é o fato de que, com alguma frequência, seja mais fácil de detectar o vírus nas fezes do que nas amostras obtidas do nariz e da garganta das crianças, diferentemente do que se vê em adultos. É possível que isso aconteça porque, nelas, existe prevalência de receptores ECA2 nas células intestinais.

É importante ressaltar, porém, que os estudos publicados até o momento trazem evidências aparentemente conflitantes sobre o tema. Enquanto alguns indicam baixa capacidade de crianças transmitirem o vírus para outras pessoas, outros mostraram que a carga viral (ou seja, a quantidade de vírus produzida no organismo) de crianças é similar à de adultos.

“Nada disso significa que elas seriam incapazes de transmitir o Sars-CoV-2 para idosos da família ou outras pessoas”, diz o virologista brasileiro.

Além dessas dúvidas básicas sobre os efeitos gerais do vírus em crianças, algumas centenas de pacientes dessa faixa etária na Europa e nos EUA têm chegado aos hospitais com uma nova síndrome inflamatória, comparada a um problema já conhecido pelo nome de síndrome de Kawasaki.

O problema, que inclui sintomas como febre, dores abdominais, erupções na pele e problemas cardíacos, tem afetado crianças que se recuperaram da Covid-19 semanas depois do fim da doença, e talvez seja um resultado da reação do organismo ao vírus.

O Centro Europeu para o Controle e a Prevenção de Doenças está designando o problema com a expressão “síndrome pediátrica inflamatória multissistema”. Já foram registradas algumas mortes, mas o órgão da União Europeia considera que o risco de uma criança desenvolver a síndrome é baixo.

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