Descrição de chapéu Coronavírus

Em estudo, pacientes que já tomavam hidroxicloroquina não se protegeram da Covid-19

Pesquisa, porém, foi feita somente com 17 pessoas, o que impossibilita maiores conclusões

São Paulo

Um pequeno estudo recente publicado na área de Letters do Annals of the Rheumatic Diseases, periódico do BMJ e da European League Against Rheumatism (Eular), não observou função protetora da hidroxicloroquina contra a Covid-19 em pacientes com lúpus, que já tomavam o remédio.

Pesquisadores franceses analisaram dados de somente 17 pessoas contaminadas com o novo coronavírus e que tinham lúpus eritematoso. As informações são relativas ao período de 29 de março a 6 de abril.

Os pacientes escolhidos se tratavam com hidroxicloroquina há sete anos, em média.

Segundo os autores, 14 pessoas precisaram de ajuda hospitalar, dos quais sete foram para UTI. Entre os pacientes, 11 necessitaram de ajuda de aparelhos para respirar.

Até 7 de abril, cinco pacientes tinham recebido alta, sete permaneciam hospitalizados e dois morreram.

O estudo aponta que 13 pacientes (76%) foram diagnosticadas com pneumonia viral, com 11 casos de complicações por falência respiratória e cinco de síndrome do desconforto respiratório agudo. Três pessoas tiveram falha renal aguda, das quais duas precisaram de hemodiálise.

Mesmo com doses terapêuticas presentes no sangue dos pacientes, a hidroxicloroquina aparentemente não impediu a infecção e complicações por coronavírus, dizem os autores.

No entanto, o pequeno número de participantes é um limitador da pesquisa e impossibilita maiores conclusões.

Segundo Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp, também chama a atenção que cerca de 59% dos pacientes eram obesos, uma condição ligada a quadros mais graves da Covid-19. Além disso, 47% tinham doenças renais crônicas.

“A cloroquina, que já estava em uso em pacientes reumatológicos e não impediu a evolução para formas graves da doença. Não apresentou benefício aparente”, afirma Stucchi.

Trata-se de mais um estudo que não encontrou ação da droga contra a Covid-19. Recentemente, pelos menos outras quatro pesquisas, publicadas em revistas científicas importantes, chegaram a conclusões próximas.

Um deles, publicado no The New England Journal of Medicine, um dos mais importantes periódicos científicos, não encontrou eficácia da hidroxicloroquina na redução de mortes ou para impedir intubação de pacientes com a Covid-19. A pesquisa observou dados de 1.376 pacientes do Hospital Presbiteriano de Nova York (que é associado à Universidade Columbia e à Weill Cornell Medicine).

Outra pesquisa recente com 1.438 pacientes, publicada na revista Jama (Journal of the American Medical Association), também não encontrou redução de mortalidade por Covid-19 entre pessoas medicadas com hidroxicloroquina (com e sem associação com azitromicina).

Por fim, duas outras pesquisas publicadas na BMJ também não observaram ação da droga, inclusive para casos leves a moderados. Uma delas, de modo randomizado (pacientes sorteados aleatoriamente, o que aumenta o nível da evidência científica obtida) e com grupo controle, não observou ação da hidroxicloroquina na eliminação do vírus nos pacientes.

Há, porém, diversos outros estudos em andamento para verificar a eficácia ou não da hidroxicloroquina e da cloroquina contra a Covid-19. Essas são as drogas mais estudadas em pacientes acometidos pela doença causada pelo novo coronavírus no mundo.

Um em cada três testes em humanos usam a cloroquina, e o Brasil está entre os países com a maior quantidade dessas pesquisas.

Apesar das evidências contrárias, o medicamento tem forte apelo político dentro do governo Jair Bolsonaro (sem partido), ao ponto de ser um dos fatores envolvidos na demissão dos últimos dois ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

A demissão de Teich ocorreu após pressão de Bolsonaro para que o Ministério da Saúde implementasse um protocolo para uso de cloroquina no início do tratamento da Covid-19 mesmo sem evidências científicas para tanto.

Em teleconferência com empresários na quinta-feira (14), o presidente afirmou que o protocolo atual, que avaliza o uso do medicamento para casos críticos e graves, "pode e vai mudar".

Em reunião com Bolsonaro, Teich​ disse, de acordo com relatos feitos à Folha, que a mudança não era correta e não tinha amparo científico. Antes mesmo de Bolsonaro argumentar e para evitar uma fritura semelhante ao que ocorreu com o ex-ministro Mandetta, Teich afirmou que pretendia deixar o cargo.

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