É falso que a África tenha controlado pandemia com ivermectina

Médicos distorcem dados em vídeos no YouTube; segundo centro de controle de doenças, os dados sobre a Covid-19 no continente são insuficientes

São Paulo

É falso que a pandemia da Covid-19 esteja sob controle na África por causa do uso preventivo da ivermectina, um medicamento contra vermes. Em vídeos publicados em seus canais do YouTube, os médicos Álvaro Galvão, de Rondônia, e Rafael Freitas, do Paraná, afirmam que o consumo profilático da droga pode evitar sintomas e o agravamento da doença.

Até aqui, segundo o Comprova verificou, não há nenhuma evidência científica de que a ivermectina seja um medicamento eficiente para tratar pacientes com a Covid-19. É o que afirmam o Ministério da Saúde, a FDA (Food and Drug Administration), autoridade sanitária dos Estados Unidos, e pesquisadores que estudam o uso da droga contra o vírus SARS-CoV-2 em laboratório.

A pandemia também não está sob controle na África. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a doença tem avançado em uma velocidade acelerada no continente. A Etiópia, citada em um dos vídeos como um país que teria adotado pouquíssimas ações por causa do uso profilático da ivermectina, tomou diversas medidas para tentar controlar o contágio. As autoridades locais fecharam escolas e restaurantes, proibiram aglomerações, decretaram quarentena obrigatória para todos que chegassem ao país e decretaram estado de emergência por causa da pandemia.

A Marinha do Brasil também não aprovou um protocolo para o uso de ivermectina para tratar pacientes com Covid-19, outra informação difundida em um dos vídeos.

Quatro pessoas com uniformes de proteção brancos empurram carrinho com caixão na Cidade do Cabo, na África do Sul, em junho
Caixão é levado em funeral de vítima da Covid-19 na Cidade do Cabo, na África do Sul, em junho - AFP

Até o dia 10 de julho, o continente africano contabilizava 543.136 casos e 12.474 óbitos causados pelo novo coronavírus, segundo dados do CDC (Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças). Em uma entrevista coletiva realizada em 9 de julho, John Nkengasong, diretor do órgão, endossou o alerta da OMS pedindo atenção ao crescimento do número de casos e óbitos no continente.

De acordo com Nkengasong, os dados sobre a doença em muitos países africanos são insuficientes ou não são confiáveis –o que, segundo ele, dificulta o controle da pandemia. Ele destacou, também, a necessidade de aumentar a capacidade de testagem da população no continente. De acordo com os dados da plataforma Our World in Data, a maior parte dos países africanos não possui capacidade para testar todos que apresentam sintomas da doença.

O Comprova tentou falar com os médicos Álvaro Galvão e Rafael Freitas, mas nenhum deles respondeu às tentativas de contato.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

A investigação desse conteúdo foi feita por Jornal do Commercio e Nexo e publicada na sexta-feira (10) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, UOL, SBT, Estadão e Piauí.

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