Descrição de chapéu Coronavírus

Busca por congelamento de óvulos dispara durante a pandemia

Clínicas registraram até 50% de aumento no procedimento desde o ano passado

São Paulo

A pandemia diminuiu drasticamente o ritmo de trabalho da médica anestesista Bianca Jéssica Balbi Lombardi, 35. Com cirurgias eletivas canceladas e sem poder viajar ou sair, em razão da quarentena imposta pela Covid-19, ela resolveu usar o período para traçar planos e tirar do papel um desejo antigo: congelar os óvulos.

Assim como ela, muitas mulheres aproveitaram a pandemia e buscaram clínicas de reprodução assistida para preservar os óvulos e, assim, poder planejar uma gestação no futuro. A procura surpreendeu inclusive os profissionais da área, que relatam alta de até 50% no número de procedimentos.

“Fiz 35 anos em 2020 e sei que dos 30 aos 35 é o período mais adequado para fazer o congelamento. Como ainda não sei se quero ter filhos, resolvi congelar. Se no futuro eu tiver vontade, já sei que vou poder. É um alívio não ter mais que me preocupar com isso”, diz Bianca.

A médica carioca fez o congelamento em julho do ano passado. Antes disso, teve tempo de fazer acompanhamento com nutricionista e intensificar os exercícios físicos, para reduzir a possibilidade de ganho de peso —efeito colateral do tratamento apresentado por algumas mulheres— ao iniciar a estimulação dos óvulos.

Como queria fazer o procedimento com uma profissional que já conhecia, viajou a São Paulo, onde passou cerca de 15 dias na cidade para concluir congelamento, que requer idas recorrentes ao consultório.

“Muitas mulheres mudaram o regime de trabalho para home office, tendo assim mais tempo para pesquisar sobre o assunto e se submeter ao procedimento, que demanda idas recorrentes ao consultório. Outras afirmam que conseguiram poupar mais dinheiro, pois se mantiveram empregadas e com menos gastos, sentindo-se financeiramente mais preparadas para custear o tratamento”, explica o especialista em reprodução Humana Maurício Chehin.

Só na clínica Huntington Medicina Reprodutiva, onde Chehin trabalha, a busca pelo procedimento cresceu 39% no ano passado.

Para fazer o congelamento, após realizar diversos exames, a mulher precisa tomar injeções de hormônios —que ela mesmo aplica— por cerca de doze dias seguidos, a fim de “amadurecer” muitos óvulos em um único ciclo menstrual. Normalmente, a mulher tem um óvulo maduro por ciclo.

Durante esse período, a paciente precisa ir vários dias à clínica e fazer ultrassom para verificar a maturação desses óvulos. Quando estão prontos, a coleta é feita em um procedimento simples, que requer anestesia local. Todos esses processos exigem que a paciente tenha uma certa disponibilidade de tempo.

A gerente de pricing Mariela Manuela Lopez, 38, aproveitou que estava trabalhando em casa para encarar a preparação e o congelamento. “Em casa, não precisei comentar com ninguém do trabalho sobre qual procedimento iria me submeter. Só disse que iria a uma consulta médica”, diz.

Ela conta que optou pelo congelamento para ter um plano B, caso descubra que não vai ser possível engravidar da maneira convencional. “A idade joga contra a mulher. Você está construindo sua carreira, viajando, aí tem que decidir se quer ter filhos porque depois dos 35 já fica mais difícil”, diz.

A mulher já nasce com um número fixo de óvulos, que são “gastos” ao longo da vida, a cada ciclo menstrual. Até os 35 anos, geralmente, há uma boa quantidade de óvulos, sendo a maioria de boa qualidade. Após essa idade, é comum a redução da disponibilidade e da qualidade dos óvulos.

Isso não é regra e pode variar a cada mulher, mas, mesmo assim, a faixa dos 35 anos acabou se tornando uma idade considerada limite para o congelamento e a fertilidade feminina.

Pressionada pela idade, a estilista Priscila Kaori, 35, procurou uma clínica de reprodução durante a pandemia para congelar os óvulos. “Eu fiquei desempregada e comecei a empreender nesse período. Como não tenho planos de ser mãe, mas também tenho medo de me arrepender lá na frente caso mude de ideia, peguei uma grana que tinha investido e paguei o congelamento”, diz.

O procedimento de congelamento de óvulos custa entre R$ 15 e R$ 20 mil.

“Procurei o tratamento porque nessa fase todas as suas amigas só falam em ter filhos. Aí tem aquela amiga mais velha que não consegue engravidar nem fazer fertilização porque tem poucos óvulos. Aí rola uma cobrança interna mesmo”, conclui.

O empurrãozinho que faltava aconteceu quando Priscila procurou um nutrólogo para perder peso e comentou que gostaria de congelar os óvulos. O profissional recomendou que ela primeiro fizesse o procedimento, que poderia lhe trazer ganho de peso, para depois emagrecer de uma vez só.

“Fiz meio no impulso, mas pelo menos dei um check nisso e acabei com essa cobrança interna”, desabafa.

Para o diretor da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Edson Borges Júnior, a sensação de “fim do mundo” trazida pela pandemia é o principal motivo da busca pelo congelamento de óvulos.

“Ver um vírus matar tanta gente obrigou as pessoas a pensarem o que querem fazer da vida. Para as mulheres, isso também passou pela decisão de querer engravidar ou não. As pessoas não querem mais deixar para trás alguns assuntos”, avalia.

Ele afirma que, entre as clínicas, houve um aumento médio de 40% no número de congelamento de óvulos. O Brasil não tem um controle oficial no número de óvulos congelados, apenas de embriões. Segundo o 13º Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões, desde 2016 a tendência é de alta no país.

Só em 2019, foram 99.112 embriões congelados no Brasil, uma alta de 11,6% em relação aos 88.776 registrados em 2018.

“Também vimos aumentar o número de embriões congelados na pandemia, mas em menor quantidade. As pessoas ficaram com medo de engravidar logo que a pandemia começou. Ninguém ainda sabia ainda os riscos para a gestante e o feto. Por isso, alguns casais resolveram postergar essa gravidez”, explica Geraldo Caldeira, ginecologista e obstetra membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

No fim do segundo semestre, conta Caldeira, alguns casais já voltaram a procurá-lo para dar início ao tratamento de fertilização. “As pessoas viram que o vírus não é tão perigoso quanto o H1N1 para grávidas e também perderam a esperança de que a pandemia seja controlada nos próximos meses”, diz.

A nutricionista Tatiane Martines Cariani, 32, congelou um embrião no ano passado, durante a pandemia. Segundo ela, o tempo em casa com o marido e o filho, por causa da quarentena, fez com que o casal pensasse em dar um irmão ao garoto, que já tem oito anos.

“Como minha mãe teve menopausa precoce e meu marido já tem 44 anos, então resolvi já garantir um embrião e não esperar para tentar ficar grávida mais para frente e enfrentar alguma dificuldade.”

A ideia inicial, diz Tatiane, era esperar “as coisas estarem mais sob controle e com vacinas”, mas diante da demora, o casal já pensa em antecipar a gestação. “Acho que vou aproveitar o home office e fazer a fertilização nos próximos meses. Assim fico em casa e é mais tranquilo.”

MEDO DA PANDEMIA

Para um outro grupo de mulheres que já pretendia ficar grávida, mas resolveu aguardar mais tempo até a redução de casos de Covid-19, o congelamento de óvulos também foi uma opção, como explica Caldeira.

“A maioria já estava com idade próxima dos 35 anos e tinha medo de esperar mais um, dois anos para ficar grávida e não conseguir ou descobrir algum problema de infertilidade quando a oferta de óvulos já diminuiu bem”, conta.

A enfermeira Amanda Costa Curcio Jordão, 29, e o marido já tinham combinado que em 2020 tentariam engravidar. Mas com medo de uma gestação e um parto em plena crise sanitária, resolveram adiar os planos e optaram pelo congelamento de óvulos caso encontrem dificuldades em uma futura gestação.

“Eu tive Covid no ano passado e não sei quanto tempo estarei imune, se é que estarei, ao coronavírus. Também não há previsão de vacinação de todo mundo nem quanto tempo essas vacinas vão nos manter protegidos do vírus que agora tem apresentado mutações. Definitivamente não é um momento tranquilo para ficar grávida. Eu vou ter que esperar”, lamenta.

Com óvulos congelados há 10 anos, a empresária Renata Weber Altobello, 48, também adiou os planos de uma gestação, por meio de fertilização in vitro, em 2020 por medo do coronavírus.

“Eu tenho a tranquilidade de saber que quando achar mais adequado, posso engravidar. Então não quero correr o risco de uma gestação no meio da pandemia. Quero um momento mais calmo. Acho que agora só em 2022.”

A ginecologista e obstetra Carla Iaconelli, especialista em medicina reprodutiva, alerta que a questão reprodutiva da mulher ainda é pouco discutida no consultório médico. “Muitas mulheres só despertam para isso quando estão com 35 anos ou mais, dificultando assim o único procedimento que preserva a capacidade reprodutiva, que é o congelamento de óvulos.”

Para ela, os médicos já deveriam abordar o tema com as pacientes por volta dos 30 anos e sugerir o exame que mede a reserva ovariana. “Mesmo não pensando em engravidar, a mulher é obrigada a decidir se quer ter uma gestação e se programar para isso, porque o corpo dela não espera, infelizmente. Por isso a preservação dos óvulos é cada vez mais uma realidade para essas mulheres.”

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