Estádio que receberá o Super Bowl faz parte de plano urbanístico

Arena está inserida em projeto de revitalização do centro de Minneapolis

Vista da arena US Bank Stadium, que se assemelha a um barco viking. O estádio possui a fachada repleta de vidros. À frente, um telão indica que o Super Bowl será realizado no local.
A arena US Bank Stadium, onde os times New England Patriots e Philadelphia Eagles disputarão o Super Bowl - Rob Carr/Getty Images/AFP
Eduardo Geraque
Minneapolis

​Os símbolos do Philadelphia Eagles e do New England Patriots iluminados na fachada do US Bank Stadium são o maior sinal de que o Super Bowl voltou a Minneapolis.

A realização do evento na cidade, após um hiato de 26 anos, mostra que o projeto de construir uma nova arena de futebol americano no local já está dando frutos menos de dois anos após sua inauguração, em julho de 2016.

O estádio, uma gigantesca estrutura de vidro, concreto e pedra, chamuscada de neve nesta época do ano, fica no centro da cidade e custou cerca de U$ 1,1 bilhão (aproximadamente R$ 3,5 bilhões).

Por volta de 45% do investimento no campo, com capacidade para 66 mil pessoas, veio do poder público. 

O gasto, dividido entre os governos estadual e municipal, gerou debates acalorados na cidade. Vários membros da sociedade civil, como ex-conselheiros municipais, se manifestaram na imprensa e em redes sociais contra o projeto do novo estádio, levantado no mesmo local onde antes ficava o estádio Metrodome, que havia recebido o Super Bowl 26, em 1992.

Os demais 55% foram pagos pelos proprietários do Minnesota Vikings, principal time de futebol americano da cidade, com a ajuda de fundos privados —não por acaso, as linhas arquitetônicas do estádio se assemelham a um barco viking.

O discurso dos governos, e de seus parceiros locais, é de que a nova arena ajuda a movimentar a economia local e no desenvolvimento urbano.

A chegada do Super Bowl dá impulso para que a conta feche. O comitê organizador do evento estima em US$ 300 milhões (cerca de R$ 960 milhões) o impacto econômico da partida. Não há quase um quarto de hotel vago na cidade e o comércio está aquecido pelas quase 600 mil pessoas que participarão dos dez dias de eventos paralelos.

No entanto, de acordo com o pesquisador da Universidade de Michigan em Ann Arbor, Mark Rosentraub, o sucesso ou fracasso de um projeto de construção de estádio não é definido somente no uso de dinheiro público ou no impacto que a semana do Super Bowl pode ter sobre a economia local. Os projetos, para trazerem benefícios para a população local, precisam estar inseridos dentro de um correto plano de desenvolvimento urbano.

“O desenvolvimento imobiliário nos arredores do US Stadium, em Minneapolis, é muito substancial. O mesmo ocorre em cidades como Columbus, Indianapolis, San Diego, Los Angeles e Denver, que construíram estádios recentemente”, diz, à Folha.

No caso de Minneapolis, a receita foi refazer uma parte da cidade onde só existiam grandes estacionamentos.

O projeto urbanístico envolve 120 quarteirões. Já foram construídos torres comerciais e apartamentos residenciais, mas ainda virão hotéis, supermercados e um parque. A área fica perto do início do rio Mississipi, que corta todo os Estados Unidos, chegando até New Orleans.

De acordo com números do mercado imobiliário, haverá demanda para mais de 3.000 apartamentos na região que recebe o Super Bowl.

“Este é o ponto chave. Pensar não apenas em um simples evento, mas no desenvolvimento a longo prazo de uma região”, diz Rosentraub.

A ideia é semelhante à que tiveram os dirigentes da cidade de Detroit, em Michigan. 

A antiga capital mundial das fábricas de automóveis, que quebrou e virou quase uma cidade fantasma, começou a se reerguer na última década também por causa do investimento em esporte. 

Os times de beisebol, futebol americano e hóquei sobre o gelo da cidade mandam seus jogos em estruturas na região central. O Red Wings, time de hóquei, ganhou uma arena totalmente nova em 2017, que custou US$ 863 milhões (R$ 2,7 bilhões). Os campos de beisebol e de futebol americano foram totalmente refeitos no início dos anos 2000, o que ajudou a iniciar a reocupação geográfica da região central.

Levantamento da ESPN americana mostra que, em 20 anos, US$ 6,7 bilhões (R$ 21,4 bilhões) foram investidos pelo poder público, de nível estadual ou municipal, em estádios de futebol no país.

Apesar de a NFL não admitir publicamente, nos últimos anos, investir em um estádio novo é quase garantia de receber um Super Bowl.

Na última década, oito novos estádios de futebol americano foram escolhidos pela liga para receber o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos. O prazo entre o Super Bowl ser realizado e a inauguração do projeto não passa de quatro anos. 

O repórter viajou a convite da ESPN.

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