Descrição de chapéu Análise Copa do Mundo TED 2018

Abertura da Copa opõe nacionalismo russo a Putin isolado

Presidente é ovacionado em casa, mas recebe apenas um convidado de peso

Igor Gielow

A festa de abertura da Copa do Mundo traduziu o momento político de Vladimir Putin à perfeição: o presidente foi ovacionado em casa, mas recebeu pouquíssimos convidados para a festa.

 Gritos de “Rússia, Rússia” enchiam o Estádio Lujniki, e Putin foi bastante aplaudido durante seu breve discurso.
 
Nele, voltou ao tema abordado em discurso na véspera e pediu para que os visitantes aproveitassem “a estadia na Rússia, um país aberto, hospitaleiro e amigável”.

Ele parecia inusualmente nervoso em sua fala, movendo-se de lado a lado no pódio, e falou generalidades sobre o futebol parecer não ser tão popular na Rússia, o que é uma impressão errada em sua visão.
 
As palmas e gritos de apoio formaram um conjunto bem distinto daquele de quatro anos atrás, com uma questionada Dilma Rousseff muda e sendo xingada no Itaquerão.
 
Não que fossem imprevisíveis num país que lhe deu 77% dos votos na eleição para um quarto mandato em março passado, e onde o dissenso é reprimido.
 
Mas a unanimidade parou por aí. Se o boicote à realização da Copa foi uma ideia britânica que não colou, a abstenção de líderes ocidentais na abertura do evento foi notável.
 
Apenas 15 chefes de Estado ou governo foram anunciados pela Fifa, e o nome mais vistoso politicamente é o do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman.
 
Nenhum deles é de país ocidental. Desde que o Reino Unido acusou o Kremlin de envenenar um ex-espião russo e sua filha na Inglaterra, o que Moscou nega, o distanciamento entre Rússia e Ocidente só fez crescer.
 
Houve expulsões mútuas de diplomatas e muita retórica agressiva. O episódio coroou anos de desconfiança mútua, em especial depois que a Rússia reagiu ao que considera interferência ocidental em sua esfera de interesses e agiu militarmente na Geórgia (2008) e na Ucrânia (2014).
 
Entre os presentes, diversos representantes de ex-repúblicas soviéticas, um alto membro do governo do ditador Kim Jong-un (Coreia do Norte) e dois presidentes sul-americanos, Evo Morales (Bolívia) e Mário Abdo Benítez (Paraguai).

O príncipe saudita Mohammed bin Salman (à esq.) ao lado de Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Vladimir Putin
O príncipe saudita Mohammed bin Salman (à esq.) ao lado de Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Vladimir Putin - Pavel Golovkin/Associated Press

Não é exatamente um “dream team” diplomático. Curiosamente, a China, aliada da Rússia, não enviou ninguém —Putin e o líder do regime de Pequim, Xi Jinping, estiveram juntos na semana passada.
 
A presença de MBS, como o herdeiro saudita é conhecido, poderia se explicar apenas pelo fato de que a seleção de seu país iria jogar a abertura da Copa contra a anfitriã. Mas o calibre do visitante, o homem mais poderoso de seu país depois do rei, mostra o prestígio que Riad está emprestando a Moscou.
 
Aliada tradicional do Irã, rival da Arábia Saudita pela primazia estratégica no Oriente Médio e no mundo muçulmano em geral, a Rússia tem se aproximado recentemente do país árabe.
 
O faz de forma cuidadosa, pois precisa de Teerã para operar sua intervenção militar na guerra civil da Síria. Do mesmo jeito, Putin mantém boas relações com Israel, considerado adversário geopolítico principal do Irã.
 
O namoro com os sauditas tem ocorrido com o auxílio do polêmico autocrata da república russa da Tchetchênia, Ramzan Kadirov. Ele foi um dos articuladores da visita do rei saudita ao Kremlin em 2017, a primeira da história.
 
A aproximação vem dando frutos: ação coordenada entre o reino e Moscou cortou a produção de petróleo e aumento o preço do barril da commmodity, cujos níveis baixos ajudaram a provocar a recessão russa de 2014 a 2016.
 
Agora, o barril a cerca de US$ 75 está num nível considerado confortável pelo governo russo para a gerência de seu orçamento. Para os sauditas, há i lucro e também a possibilidade de enfraquecer paulatinamente a posição de seus rivais iranianos em Moscou.
 
Com o mando de campo, Putin ganhou o jogo do dia. Mas o campeonato ainda terá muitas partidas.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.