Descrição de chapéu Financial Times

Após investirem R$ 9 bi, chineses correm para deixar futebol europeu

Governo da China restringiu investimentos do país no exterior

Ben Bland Murad Ahmed

Poucos torcedores do clube inglês Aston Villa teriam imaginado que o Partido Comunista chinês viria a ter um papel na direção da agremiação fundada há 143 anos.

Mas quando Tony Xia vendeu uma participação majoritária no clube este mês, o motivo era escapar a uma crise financeira criada em parte por medidas repressivas do governo chinês à onda “irracional” de investimentos multibilionários de empreendedores chineses no futebol europeu.

O empresário chinês Li Yonghong, proprietário da holding Rossoneri Sport Investment Lux, desembolsou 797 milhões de euros na compra do Milan, em abril de 2017 - Alessandro Garofalo/Reuters

“Foram dois meses muito, muito difíceis”, escreveu o empresário chinês no Twitter, no qual conquistou 130 mil seguidores com tuítes efusivos sobre o clube, no passado muito poderoso mas agora relegado ao segundo escalão do futebol inglês. 

“Nada mudou meu amor pelo, e meu compromisso para com, o AV”, ele escreveu, acrescentando que a política econômica chinesa havia tornado a situação muito difícil.

O Aston Villa é o quinto clube de futebol europeu no qual um grande investidor chinês vendeu sua participação acionária, parcial ou integralmente, depois da introdução de restrições ao investimento no ano passado.

Os demais são o Milan, da Itália; o Atlético de Madri; o Slavia Prague, da República Tcheca; e o Northampton Town, que joga na quarta divisão do futebol inglês.

O turbulento — e dispendioso — flerte entre as empresas chinesas e o futebol europeu mostra de que maneira as tendências de investimento na segunda maior economia mundial são muitas vezes propelidas por uma combinação de políticas opacas ditadas pelo elite, aventureirismo empresarial, e uma busca genuína por novas oportunidades.

Preocupado com a saída de capitais e a natureza desordenada de muitas das transações internacionais, o governo chinês em agosto do ano passado estabeleceu novos critérios para aquisições internacionais, e colocou o investimento em equipes esportivas, bem como em cinemas e imóveis, em uma lista de setores “restritos”.

Os financistas dizem que ainda pode ser possível obter aprovação para transferir dinheiro para fora da China, a fim de conduzir uma transação desse tipo, mas que as autoridades as estavam desencorajando fortemente.

Durante visita oficial ao Reino Unido em outubro de 2015, o presidente chinês Xi Jinping (primeiro à direita) visitou o centro de treinamentos do Manchester City. Na foto, Xi Jinping se encontra com o premiê britânico David Cameron (centro), o atacante argentino Aguerro (primeiro à esquerda), o responsável pela preparação do time Patrick Vieira (segundo à direita) e a atacante Toni Duggan - Joe Giddens/AFP

Nesse clima, novas vendas por proprietários chineses são possíveis, o que desmontaria ainda mais uma onda de gastos que abalou o mundo do futebol. Investidores chineses colocaram mais de US$ 2,5 bilhões (aproximadamente R$ 9,37 bilhões) em clubes europeus entre 2014 e 2017, adquirindo gigantes como o Milan e a Inter de Milão, e peixes pequenos como o Northampton e o Sochaux-Montbéliard, da segunda divisão francesa.

Essa corrida vertiginosa foi deflagrada em 2015 quando o governo do presidente Xi Jinping, que gosta muito de futebol, revelou planos para uma revolução no esporte, que faria da nação mais populosa do mundo, até então retardatária no futebol, uma potência na modalidade.

“Alguns investidores chineses tiraram vantagem desse ‘sinal verde’, mas o governo em seguida percebeu que isso não estava beneficiando o futebol chinês”, disse Mark Dreyer, que opera um site chamado China Sports Insider, em Pequim.

Executivos do setor de futebol dizem que as restrições à saída de capital tornam difícil para os proprietários chineses injetar mais dinheiro em seus times, muitas vezes deficitários, e eliminaram as esperanças de que essas equipes pudessem arrecadar mais fundos na China por meio de ofertas públicas iniciais de ações, empréstimos bancários ou do extenso sistema bancário paralelo que existe no país.

Trevor Watkins, do escritório de advocacia Pinsent Mansons, é especialista em direito esportivo e disse que o dilúvio inicial de dinheiro chinês havia criado um ambiente de “oeste selvagem”, no qual muitos investidores terminaram pagando muito mais do que deveriam por clubes - e que os profissionais e empresas que assessoram essas transações faturaram muito com isso.

“Sem dúvida houve pessoas que olharam para a China e imaginaram que, opa, era ali que fariam dinheiro”, ele disse. “Algumas das transações saíram completamente da lógica”.

Os proprietários chineses do Aston Villa e do Milan assumiram grandes dívidas como parte de suas aquisições, na esperança de que sucesso em campo e condições favoráveis de financiamento na China os ajudassem a pagar por esses grandes empréstimos.

Mas o Aston Villa não conseguiu garantir um aporte de US$ 130 milhões (aproximadamente R$ 487 milhões), porque não foi capaz de garantir o retorno à Premier League, em maio.

Diante da crise de caixa no clube, Xia no mês passado vendeu 55% da equipe ao bilionário egípcio Nassef Sawiris e a Wes Ednes, cofundador da Fortress Investment, por 30 milhões de libras (aproximadamente R$ 147 milhões).

Ao que se sabe, ele pagou 75 milhões de libras (aproximadamente R$ 368 milhões) para adquirir o clube em 2016.

Li Yonghong, o empresário chinês até então desconhecido que adquiriu o Milan de Silvio Berlusconi, por 740 milhões de euros (aproximadamente R$ 3,2 bilhões) em abril do ano passado, este mês perdeu o controle da equipe para o fundo de hedge americano Elliott Management, por não manter em dia os pagamentos de empréstimos de juros altos em valor de mais de 300 milhões de euros (aproximadamente R$ 1,3 bilhão).

A 5USport, a empresa chinesa que controlava o Northampton, vendeu o clube de volta aos antigos proprietários apenas nove meses depois de assumir o controle, culpando as “restrições ao investimento internacional” por suas dificuldades de encontrar financiamento.

A situação no Atlético de Madri foi diferente; o grupo Wanda, do magnata chinês Wang Jianlin, realizou um modesto lucro ao vender sua participação de 17% no clube em fevereiro, como parte de um plano mais amplo para enxugar seus investimentos internacionais.

A CEDC transferiu sua fatia controladora das ações do Slavia Prague ao conglomerado chinês Citic, como parte de uma onda maior de venda de ativos que se seguiu à detenção pela polícia de seu ambicioso presidente, Ye Jianming, em fevereiro.

Nikki Wang, diretora de desenvolvimento de negócios esportivos na consultoria financeira Deloitte, disse que que os investidores chineses teriam de tomar mais cuidado no futuro se não quiserem problemas com o “ambiente regulatório imprevisível e rapidamente mutável”.

Ela disse que com Pequim agora priorizando o desenvolvimento do futebol dentro do país, os investidores em clubes europeus precisariam mostrar “sinergia” entre seus negócios internacionais e o futebol chinês.

Além do futebol, os analistas antecipam que as empresas chinesas continuem a investir no esporte nacional, que o governo vê como importante para promover a saúde pública e ajudar a diversificar a economia.

Pequim sediará a Olimpíada de Inverno de 2022, e os investidores continuam levar mais eventos esportivos internacionais ao país, em modalidades como o hóquei no gelo e o tênis.

Watkins, antigo presidente do Bournemouth, um clube da Premier League inglesa, antecipa que os investidores chineses aprenderão o que saiu errado nessas transações e começarão a contemplar investimentos que vão além da posse de times, de serviços de venda de ingressos e infraestrutura de estádios a patrocínios e esportes eletrônicos.

“O mercado chinês agora está mais ciente e compreende mais as oportunidades, e isso ajudará a concentrar seu foco e a determinar onde eles deveriam estar”, ele disse.

Jeff Shi (à dir), presidente do Grupo Fouson,é o presidente do Wolves FC desde que o conglomerado comprou o clube por 58 milhões de euros, em julho de 2016 - Craig Brough/Reuters

O elenco muito diversificado de investidores chineses no futebol europeu se estende de alguns dos mais conhecidos magnatas e empresas do país a empreendedores e companhias antes praticamente desconhecidos fora de seu país de origem.

A “primeira divisão” de investidores inclui o conglomerado Fosun, que atua em áreas que vão do turismo às finanças, comandado por Guo Guangchang; a China Media Capital, grupo de esportes e mídia liderado por Li Ruigang; e, até que vendesse sua participação no Atlético de Madri, o grupo Wanda, comandado por Wang Jianlin.

A aquisição do Wolverhampton Wanderers pelo Fosun, por US$ 58 milhões (R$ 217 milhões) em 2016, talvez tenha sido o mais bem sucedido dos investimentos chineses em futebol até o momento; o clube conseguiu acesso à Premier League na última temporada.

A China Media Capital, que investiu em direitos esportivos e veículos proeminentes de mídia como o site financeiro Caixin, também viu excelentes resultados em campo com seus investimentos: o Manchester City conquistou o título da Premier League na temporada passada.

Em 2015, a empresa liderou um consórcio que adquiriu participação minoritária no City Football Group, empresa sediada em Abu Dhabi que controla o City e outros clubes, nos Estados Unidos, Austrália e outros países.

Alguns investidores, como Tony Xia, do Aston Villa, Li Yonghong, do Milan, e Lai Guochuan, do West Bromwich Albion, emergiram da obscuridade, e pouco se sabe sobre seus antecedentes pessoais ou sobre as finanças de suas empresas.

Embora outros investidores chineses oferecessem históricos empresariais melhores, havia poucas sinergias esportivas evidentes.

O Espanyol, da Espanha, foi adquirido pelo Rastar Group, que fabrica carro de pilotagem remota, enquanto o Sochaux-Montbéliard, da França, que pertencia à família Peugeot, foi adquirido pela Tech Pro Technology, que fabrica LEDs.

As operações com as ações da Tech Pro estão suspensas desde novembro na bolsa de Hong Kong, depois que as autoridades regulatórias contestaram informações publicadas pela empresa.

Um grande problema para os proprietários que estão vendendo clubes, seus assessores financeiros e as autoridades regulatórias encarregadas de determinar se os antecedente dos compradores são procedentes vem sendo a opacidade e a imprevisibilidade do mundo dos negócios na China.

A Premier League —liga que organiza o Campeonato Inglês— entrou em estado de alerta sobre o empresário chinês Dai Yongge, que fez fortuna convertendo abrigos subterrâneos contra ataques aéreos em shopping centers, quando ele estava estudando adquirir o Hull City, no ano passado.

Ele desistiu da transação, mas foi liberado para adquirir o Reading, que joga na segunda divisão do futebol inglês.

Para alguns torcedores, a chegada do dinheiro chinês representou uma rápida introdução ao complicado mundo em que os negócios e a política se misturam, na elite chinesa.

Quando a CEFC, que opera na área de energia, adquiriu o Slavia Prague em 2015 como parte de uma grande incursão à Europa Oriental, ela parecia ser uma nova proprietária ideal, dotada de amplas reservas de caixa e de um líder ambicioso.

Mas a queda de seu fundador, Ye Jianming, encarcerado pelas autoridades chinesas em fevereiro, parecia representar uma calamidade, antes que os ativos da companhia na República Tcheca fossem adquiridos pelo grande conglomerado estatal chinês Citic, que coinvestiu com a China Media Capital no City Football Group.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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