Mogi Mirim abandona o futebol e trava guerra na Justiça

Clube não joga em 2019 enquanto presidente, torcida e investidores brigam

O estádio Vail Chaves está interditado há dois anos e não será utilizado pelo Mogi Mirim em 2019 

O estádio Vail Chaves está interditado há dois anos e não será utilizado pelo Mogi Mirim em 2019  Eduardo Anizelli/Folhapress

Alex Sabino Luiz Cosenzo
São Paulo

A pintura que diz: “campeão paulista do interior” de 2012 ainda está no muro do estádio Vail Chaves, ao lado do campo. Virou lembrança, como é a do carrossel caipira comandado por Oswaldo Alvarez, o Vadão, nos anos 1990. 

Hoje os moradores de Mogi Mirim, a 160 quilômetros de São Paulo, esperam que o time da cidade possa pelo menos voltar a jogar futebol.

Pela primeira vez em 42 anos, o Mogi Mirim Esporte Clube não tem nenhum campeonato para disputar. Não há perspectivas de que isso volte a acontecer logo.

“Sem um mecenas, é impossível [manter o clube em atividade]. Impossível!”, afirma o presidente Luiz Henrique de Oliveira, suspenso do cargo até que salde valores que o clube deve para o TJD (Tribunal de Justiça Desportiva). 

A paralisação das atividades do Mogi Mirim é o capítulo final de briga que se arrasta desde 2015, quando Rivaldo deixou de ser o gestor da agremiação. Maior jogador da história da equipe, ele também é parte da confusão.

O pentacampeão com a seleção brasileira foi dirigente entre outubro de 2008 e julho de 2015, quando fechou negócio com o empresário Victor Simões e saiu de cena. 

Rivaldo é acusado de vender o patrimônio do clube, passar dois centros de treinamento para o seu nome e receber em sua conta pessoal dinheiro de parceria com empresa do Uzbequistão.

“Esse negócio é nulo. Como gestor, o Rivaldo geriu o clube de maneira a criar um passivo. Ainda que tenha feito empréstimos, não poderia endividar o Mogi e ser a pessoa que está emprestando o dinheiro. Depois ainda resolve que a dívida será paga com o maior patrimônio do Mogi Mirim”, contesta Renato Franco, advogado de grupo de sócios que entrou na Justiça contra o ex-atleta.

Afastado do time, da cidade e sem a menor vontade de se reaproximar, Rivaldo contesta as acusações. Segundo seu advogado, ele está “triste” com a situação.

“O perito judicial já confirmou que não houve nenhum problema [na administração]”, afirma Dante Bettellen, representante do ex-jogador.

A perícia, porém, é contestada pelos sócios. 

“É desespero. Se o laudo fosse favorável a eles, ninguém estaria reclamando. Rivaldo deixou o clube na 2ª divisão do Brasileiro e na 1ª do Paulista, com todas as despesas pagas, sem um centavo de dívidas”, completa Bettellen.

O passivo do Mogi Mirim está de R$ 25 milhões. São mais de 100 ações trabalhistas.

A administração de Rivaldo é contestada, mas o presidente Luiz Henrique de Oliveira é a figura mais controversa da cidade. Ele assumiu a presidência em julho de 2015, ao lado do investidor Victor Simões. Três meses depois, os dois se desentenderam e Oliveira ficou com comando do clube. O mandatário alega que se desentendeu com Simões por ele não querer pagar a Rivaldo o que havia sido combinado anteriormente e por não concordar com indicações feitas pelo investidor e para o conselho deliberativo do Mogi.

Apesar de ações judiciais, ele se recusa a deixar a presidência do clube. 

No ano passado, Oliveira fez parceria com dois empresários, o brasileiro Diogo Medeiros da Silva e o sul-coreano Hyun Seok Choi, para terceirizar o futebol. O negócio não foi à frente, está na Justiça e as partes trocam acusações.

O estádio Vail Chaves está interditado desde 2017. Há um mês, a Prefeitura retirou todos os jogadores das categorias de base que estavam em alojamentos no local, por medo de que se repetisse lá o incêndio que matou dez atletas no Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo.

O Mogi Mirim, no momento, não tem arrecadação alguma. O custo mensal para manter o clube em funcionamento é de R$ 100 mil.

“A gente chegou a assinar contrato, mas eles precisavam trazer um dinheiro da Coreia e atrasaram. Não cumpriram o que estava no contrato e invadiram o clube”, diz Oliveira.

Marcos Lee, advogado dos empresários afirma que o presidente, ao falar em invasão, será processado por calúnia. Segundo ele, os pagamentos não foram feitos porque Oliveira queria que o dinheiro fosse depositado em sua conta pessoal.

“Não pode o presidente receber os valores. Ele não é o dono do clube. O dinheiro tem de entrar para o clube, não para a pessoa física do presidente”, contesta o representante dos investidores.

“É um desmando total, um desastre. A situação é calamitosa. Ninguém manda, ninguém assume responsabilidade. Ninguém quer se responsabilizar por nada. É uma briga generalizada e deixam o clube de lado”, completa.

O presidente nega ter pedido para o dinheiro ser depositado em sua conta pessoal e afirma que vai processar Lee.

Há também um grupo chamado SOS Mogi Mirim no meio do imbróglio. Este faz oposição a Luiz Henrique.

“É uma administração [do Mogi Mirim] temerária e tendenciosa. O clube é um bem público na sua finalidade. A propriedade [o estádio] tem cláusula para que o clube possa usufruir e para que permaneça como propriedade esportiva. Se extinguir essa finalidade esportiva, ele perde a propriedade”, analisa o advogado Alcides Pinto da Silva Júnior, ex-presidente da OAB de Mogi Mirim.

Há dúvida até sobre quem ocupa o cargo de presidente. Com Oliveira suspenso, a vice Rosane Lúcia de Araújo é, teoricamente, responsável pelo clube, segundo a Federação Paulista. Mas ela sequer apareceu no conselho arbitral da quarta divisão do paulista, quando ficou definido que o Mogi não participaria. 

Diogo Medeiros da Silva e Hyun Seok Choi queriam representar o clube na reunião, mas não foram autorizados.

Oliveira afirma que sua ideia era pedir uma licença de dois anos dos torneios oficiais, mas ele foi demovido da ideia pelo presidente da Federação, Reinaldo Carneiro Bastos. A esperança é que apareça um novo investidor ou aconteça acordo que possibilite ao clube voltar a jogar.

“Quem sabe em 2020? O clube é viável. Tem dívidas de R$ 25 milhões, mas patrimônio de R$ 80 milhões. Tenho a ideia de fazer parcerias e alugar parte do terreno [do estádio] para uso comercial. Assim o clube teria alguma renda”, afirma o mandatário de fato da agremiação.

O Mogi Mirim chegou à primeira divisão do paulista e teve seus melhores anos quando foi comandado por Wilson de Barros, entre os anos 1980 e 90. Ele era na prática o dono do clube. Pagava todas as contas até sua morte, em 2008. Foi com Barros no comando que o time ficou conhecido no país com o elenco que tinha Rivaldo, Valber e Leto, trio ofensivo negociado com o Corinthians em 1992.

Raio-X do Esporte Clube Mogi Mirim

Fundação
1.fev.1932

Títulos
Campeão paulista do interior (1933 e 2012); Paulista da 2ª divisão (1985 e 1995); Torneiro Ricardo Teixeira (1993); Copa Paulista (2012)

Maiores jogadores
Rivaldo, Leto e Valber 

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