Descrição de chapéu Alalaô

Sócrates bebeu, dançou e irritou escolas de samba como jurado em Carnaval

Em 1986, corintiano foi convidado para julgar desfile na Marques de Sapucaí, no Rio

Sócrates desfila pela Gaviões da Fiel em 2010 - FOLHA DE S.PAULO
Marcos Guedes
São Paulo

Os jurados que avaliam os desfiles das escolas de samba estão acostumados aos xingamentos da Quarta-Feira de Cinzas, dia em que as notas são reveladas. Mas Sócrates não gostava de ser mais um, em qualquer área, e também deixou sua marca no Carnaval

Os questionamentos ao craque boêmio chegaram antes do prazo habitual, nas próprias noites das apresentações na Sapucaí, em 1986. Julgador do quesito bateria, o então meia do Flamengo ficou longe de encarnar o personagem tradicional do avaliador sisudo, desprovido de emoção. 

Ao contrário, o jogador de 31 anos só topou participar do julgamento com a condição de que não ficasse confinado em uma cabine. Realmente, não ficou. 

“Sócrates foi um dos foliões mais entusiasmados da passarela. Sem camisa, sambou sem parar, até a última escola”, relatava a Folha do dia 12 de fevereiro daquele ano, em um texto intitulado “Folia de Sócrates causa protesto”. 

Empolgado, o atleta não fez questão de demonstrar comedimento. Bebeu, dançou, distribuiu autógrafos e irritou alguns dos dirigentes das escolas. 

“Quero saber o que ele entende de bateria. E também se, neste estado, tem condições de julgar alguma coisa”, disse Aniz Abrahão David, o Anísio, patrono da Beija-Flor. 

Waldemir Garcia, o Miro, patrono do Salgueiro, também ficou incomodado. Pouco antes de que se iniciasse a apuração, mostrou preocupação com a capacidade de avaliação do Doutor. 

“Os comentários eram que o moço lá que estava julgando bateria estava alcoolizado. Foi isso o que soube”, afirmou o bicheiro, que, terminada a abertura dos envelopes com as notas, só tinha motivo para reclamar de outros julgadores. 

 
 

O Salgueiro, assim como o Estácio de Sá, a Caprichosos de Pilares, a Imperatriz Leopoldinense, a União da Ilha, o Império Serrano, a Beija-Flor e a campeã Mangueira levaram nota 10. Mas a Portela ganhou um 9, o que revoltou seus dirigentes. 

“Seguindo a máxima de que quem está com o povo está com Deus, dei todas as minhas notas a partir das reações populares”, justificou-se Sócrates, que minimizou as dúvidas sobre sua capacidade cognitiva durante os desfiles –o da Portela terminou já pela manhã. 

“Este é o país em que mais cachaça se bebe no mundo, e parece que eu bebo tudo sozinho. Não querem que eu beba, fume ou pense? Pois eu bebo, fumo e penso. Fui para a avenida brincar, bebi direitinho. Não fico me escondendo para fazer as coisas”, disse o Doutor. 

Ele reconheceu o direito de questionamento por parte dos insatisfeitos. Insistiu, porém, que nada havia de errado com sua animação na Sapucaí. “Eu procurei fazer [a avaliação] da melhor maneira possível. Tomei alguns uísques e cervejas, mas eu gostaria de perguntar: quem não estava animado no Carnaval?”, sorriu. 

Não era apenas o consumo de álcool e o comportamento de folião que causavam incômodo. Também havia restrições ao conhecimento musical do jogador, que tinha se aventurado como compositor e apresentado obras pouco aclamadas pela crítica. 

“O único nome [com] que, assim, não fiquei de acordo [para jurado] foi o do Sócrates. Porque ele entende muito de futebol; de bateria, não. Achava que tinha que ser um grande maestro, não uma pessoa do futebol”, afirmou a presidente do Salgueiro, Elizabeth Nunes, antes de descobrir que sua escola recebera nota máxima do boleiro. 

O craque da seleção brasileira fora convidado, inicialmente, para julgar o item samba-enredo. Mas dissera já estar apaixonado pelo samba do Império Serrano, o que contaminaria sua análise. Fazia sentido.

O samba do Império, que ganhou nota 10 dos dois julgadores do quesito, tinha uma letra que celebrava o fim da ditadura: “Me dá, me dá, me dá o que é meu, foram 20 anos que alguém comeu”.

O enredo da Portela, “Morfeu no Carnaval, a Utopia Brasileira”, também podia ser considerado progressista. Pintava “o índio em sua selva a sorrir, feliz nesse torrão, livre do FMI e da poluição”, mas a bateria não conquistou Sócrates. 

Não fez diferença. Quarta colocada, dois pontos atrás do Império, a Portela teria ficado nesse posto mesmo com um 10 do Doutor. Excluídas da pontuação as notas aplicadas por ele, como chegou a ser pedido, nenhuma posição na tábua de classificação seria alterada. 

A vencedora foi a Mangueira, com seu antológico samba em homenagem a Dorival Caymmi: “Tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. A mesma Mangueira em que Sócrates desfilaria, anos mais tarde, sem dar satisfações sobre o nível de álcool em seu sangue.

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