Descrição de chapéu Pan-2019

É importante que atletas se posicionem politicamente, diz João Derly

Bicampeão mundial, ex-judoca foi deputado federal e hoje é secretário no governo do RS

Daniel E. de Castro
Lima (Peru)

Bicampeão mundial de judô, ex-deputado federal e hoje secretário estadual de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul, João Derly vê com apreensão o momento de corte de verbas públicas para as políticas esportivas no país.

Derly, 38, está em Lima numa viagem oficial de sete dias para acompanhar os atletas gaúchos nos Jogos Pan-Americanos. Dos cerca de 30 representantes brasileiros do Pan que nasceram ou treinam no RS, 5 têm incentivo do governo do estado, 4 deles judocas.

Para o secretário, por si só a extinção do Ministério do Esporte, rebaixado por Jair Bolsonaro (PSL) a uma secretaria especial vinculada à pasta da Cidadania, não enfraquece o setor.

João Derly comemora a conquista da medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos de 2007
João Derly comemora a conquista da medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos de 2007 - Rubens Cavallari/Folhapress

Ele se diz preocupado, porém, com a sequência de cortes de patrocínios das empresas estatais após a Olimpíada do Rio-2016 e com o futuro do Bolsa Atleta.

Em abril, o governo Bolsonaro anunciou que pagaria o benefício a 2.491 esportistas que haviam sido retirados do programa nos últimos dias do governo Michel Temer (MDB).

Na ocasião, 3.058 atletas entraram na lista de beneficiados pelo pagamento de bolsas, mas mais da metade dos que se encaixavam nos parâmetros para receber os recursos tinha ficado de fora após uma redução no orçamento. O vaivém trouxe insegurança para o projeto.

“Se tem também o enfraquecimento dessas políticas, você fica receoso de que haja o enfraquecimento real do esporte. Caminha para isso”, diz. “Temos que ser mais assertivos nos investimentos. Se a gente tiver um sistema nacional para o esporte, isso vai fortalecer o planejamento de longo prazo”.

Na noite de segunda (5), Derly acompanhava as partidas dos atletas brasileiros de tênis de mesa vestido com o casaco da delegação nacional. Hoje o Comitê Olímpico do Brasil (COB) é presidido por Paulo Wanderley e tem Rogério Sampaio como diretor-geral, ambos ex-judocas.

O secretário concorda que momentos como o atual pedem uma atuação política mais forte dos atletas, porém afirma que muitos se sentem inseguros para emitir opinião a respeito do tema.

“Tem gente que acha ruim o envolvimento político do atleta ou que ele faça alguma manifestação política. Mas eu acho que quando temos um destaque é importante que ele seja a voz de outras pessoas que não têm a oportunidade de falar. Não defendo que tenha a mesma opinião que eu, mas que fale. Isso é saudável”, afirma.

Antes de o paletó substituir o quimono como sua principal vestimenta, ele pensava de forma parecida.

“Fiquei muito receoso no início. No momento em que você aceita um partido político já vira inimigo de algumas pessoas. Mas creio que esse é um lugar importante para ajudar a desenvolver a política pública”, diz.

Após iniciar sua carreira legislativa como vereador de Porto Alegre no PC do B, Derly foi eleito deputado federal em 2014 pelo mesmo partido, mas deixou a legenda no ano seguinte e se filiou à Rede. Tentou se reeleger no ano passado, sem sucesso. Hoje está no PRB e trabalha para o governo de Eduardo Leite (PSDB).

“Todos os partidos têm pessoas boas e ruins. Eu digo todos mesmo. A gente tem que procurar onde possa estar bem para apostar na política que defende. E hoje estou bem para defender minha política dentro do PRB”, declara.

Derly trocou o quimono pelo terno, foi deputado federal e hoje atua como secretário do governo do RS
Derly trocou o quimono pelo terno, foi deputado federal e hoje atua como secretário do governo do RS - Divulgação

Além dos dois títulos mundiais (2005 e 2007), ele também foi medalhista de ouro no Pan do Rio de Janeiro-2007. Chegou à Olimpíada de Pequim-2008 como favorito, mas acabou sem medalha. Aposentou-se oficialmente dos tatames em 2012, após ter a carreira de atleta abreviada por lesões.

O gaúcho era o único brasileiro bicampeão mundial de judô até 2017, quando o feito foi igualado por outra representante do estado: Mayra Aguiar, 28, que tinha Derly como ídolo e chegou a treinar com ele por uma década.

As disputas do judô no Pan começam na quinta (8). No domingo (11), Mayra, líder do ranking mundial na categoria até 78 kg e duas vezes medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos (2012 e 2016), buscará um ouro inédito para ela. A laureada judoca nunca foi ao lugar mais alto do pódio nos Jogos Pan-Americanos. Soma duas pratas (2007 e 2015) e um bronze (2011).

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