Calouro da NBA joga para homenagear pai e vira esperança em Chicago

Armador Coby White, 19, sempre menciona o mentor de sua carreira, morto em 2017

Alana Ambrosio
São Paulo

Uma onda de esperança acometeu os torcedores do Chicago Bulls para a temporada 2019/20 da NBA, que se inicia nesta terça-feira (22).

A franquia, uma das mais populares da liga, não consegue nem sequer a classificação para os playoffs há dois anos. A última campanha foi sofrível, com apenas 22 vitórias e 60 derrotas. Também teve uma lavada de 55 pontos do rival histórico Boston Celtics, lesões e a demissão do técnico Fred Hoiberg.

O motivo do entusiasmo é Coby White, armador recém-chegado à equipe. Nos cinco jogos da pré-temporada, o jovem de 19 anos teve médias de 19,2 pontos, 4,2 rebotes e um aproveitamento de 43,2% nas bolas de 3 pontos.

Além disso, ele marcou 29 pontos contra o Atlanta Hawks, o maior número anotado por um novato dos Bulls desde Derrick Rose (mais jovem da história a ser eleito o melhor da temporada), em 2008.

Técnicos, amigos e colegas de time descrevem o calouro como “altamente competitivo”, e Coby tem um motivo muito claro para jogar.

Cada dia em quadra é uma homenagem ao seu pai, Donald White, morto em 2017 em decorrência de um câncer no fígado. O braço do armador é tatuado com as palavras “for my father” (para meu pai), com a data da partida de Donald em algarismos romanos.

Pouco mais de dois anos atrás, Coby foi chamado ao quarto de sua mãe, Bonita White, no meio da tarde. “O câncer do seu pai não vai embora e em algum momento breve irá tirá-lo de nós”, ela disse.

Naquele dia, a gravidade da doença ficou clara, e a tristeza deu lugar a uma raiva incontrolável. “Isso não é real!”, gritou o jovem de 17 anos ao desferir um soco contra a parede. O atleta, de formação católica, conta ter sentido raiva de Deus.

 
O armador Coby White em jogo pelo Chicago Bulls na pré-temporada da NBA
O armador Coby White em jogo pelo Chicago Bulls na pré-temporada da NBA - Mike DiNovo - 7.out.19/USA Today Sports

O pai não tinha formação em medicina, mas era conhecido como “doc”, de doutor, por sempre diagnosticar problemas de saúde dos amigos e parentes. Trabalhava no turno da madrugada em uma fábrica em Goldsboro, na Carolina do Norte, e tinha ainda uma filha e outro filho, Tia e William, ambos mais velhos do que o irmão da NBA.

Donald foi o primeiro herói de Coby White no basquete pelas partidas que eles jogavam, mas não demorou muito até o filho começar a ganhar do pai no um contra um. “Por que você arremessa de tão longe? Isso é trapaça!”, brincava o progenitor.

Em certo ponto, com a doença avançada, ele já não conseguia reconhecer os filhos. Em 15 de agosto de 2017, quando o armador estava prestes a embarcar em um voo para Los Angeles, recebeu a ligação pela qual temia havia meses.

A sétima escolha geral do draft (processo de seleção de calouros) teve um último ano brilhante na universidade da Carolina do Norte, a mesma da qual saiu Michael Jordan.

Antes de ser escolhido pelo Bulls, Coby tinha médias de 16,1 pontos e 4 assistências por partida, venceu o título de conferência do basquete universitário e conquistou duas vitórias contra os rivais históricos de Duke.

Mas o impacto de perder quem mais amava havia causado uma mudança visível na pessoa por trás do jogador. Após um processo intenso de luto, introspecção, raiva, tristeza e de deixar a vida em suspenso por meses, veio a aceitação.

Ele recuperou a vontade de seguir em frente, ainda que a saudade se manifeste. Nas postagens no Instagram, em que tem 382 mil seguidores, cada foto do atleta vem acompanhada da hashtag #FMF ("for my father").

“Não importa o que aconteça comigo daqui em diante, de uma coisa vocês podem ter certeza —meu pai estará envolvido”, ele escreveu em artigo publicado no site The Players Tribune antes da noite de entrada na NBA.

Em junho, quando foi selecionado pelo time seis vezes campeão da liga, comoveu ao falar sobre a falta do seu mentor, mas também viralizou na internet pela engraçada reação de perplexidade e alegria ao descobrir que Cameron Johnson, seu parceiro da faculdade, acabou selecionado na 11ª posição pelo Phoenix Suns.

Para jogar no ginásio United Center, o armador escolheu o número 0. De Sub-Zero, personagem do icônico jogo de videogame Mortal Kombat, cujo poder era congelar o adversário. Uma referência à frieza na hora de arremessar.

Coby White joga basquete para os outros. Para o seu pai, sua família, seus companheiros de equipe e, agora, para os fãs do Chicago Bulls, ávidos pelo retorno de uma franquia competitiva.

Conheça outros calouros badalados para a temporada 2019/20

Zion Williamson, 19 - o mais aguardado da década

O novato mais falado desde LeBron James está fora da temporada por até oito semanas após contundir o joelho. No draft de 2019, ele foi escolhido, como esperado, na primeira posição pelo New Orleans Pelicans. Com 2,01 m de altura e 130 kg, o ala-pivô é o segundo jogador mais pesado da liga e ganhou 45 kg logo nos primeiros dois anos do ensino médio.

Em Duke, na temporada antes de ser selecionado, teve médias de 36 pontos e 11 rebotes. Fez até com que o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama fosse assistir a um jogo seu. Essa foi, inclusive, a partida em que seu tênis da Nike rasgou e ele machucou o joelho.

O histórico de lesões é extenso desde a escola. Depois de uma pré-temporada impressionante, com 23 pontos e 6 rebotes em média, a saúde parece ser a única coisa que pode atrapalhar uma carreira muito promissora na NBA.

Zion Williamson, escolha número 1 do draft de 2019
Zion Williamson, escolha número 1 do draft de 2019 - Jonathan Bachman - 11.out.19/AFP

RJ Barrett, 19 - afilhado de Steve Nash

A terceira escolha do draft deste ano ficou com o New York Knicks. Apesar do banho de água fria para a torcida e dirigentes da franquia, que sonharam com a primeira posição no sorteio, conseguiram um bom prospecto.

RJ Barrett foi parceiro de Zion Williamson em Duke, tem 19 anos e é canadense. O apelidado Maple Mamba –em uma referência à folha de bordo na bandeira do país– foi um dos poucos motivos para o torcedor de NY vibrar na pré-temporada. Em 37 minutos em quadra por partida, anotou 15,8 pontos e 6,8 rebotes. Versátil, pode ser usado de diversas formas em quadra.

O contato com o mundo do basquete vem, literalmente, do berço. RJ Barrett é afilhado de Steve Nash, jogador da NBA de 1996 a 2015. Nash atuou pela seleção canadense com Rowan Barrett, pai de RJ, e foi quem comprou o primeiro berço para o bebê.

RJ Barrett, escolha número 3 do draft de 2019
RJ Barrett, escolha número 3 do draft de 2019 - Emilee Chinn - 11.out.19/AFP

Ja Morant, 20 - subestimado pelo próprio pai

Apesar de vir de uma universidade sem muita tradição no basquete, a Murray State, o armador ganhou a atenção de observadores e acabou escolhido pelo Memphis Grizzlies na segunda posição do draft.

Chegou a jogar com Zion Williamson ainda na escola, mas os olheiros mal o notaram. O destino quis que um dia o técnico da Murray State University, James Kane, parasse para comprar comida durante uma viagem de carro. O local escolhido foi justamente a escola onde Morant praticava.

O atleta chama o próprio pai, Tee Morant, de seu primeiro "hater", já que costumava pegar pesado com o filho, dizendo que ele não era bom o suficiente para o basquete. Também o fazia cantar e dançar músicas de Michael Jackson (com direito ao passo moonwalk) em frente às pessoas para perder o medo de plateia. Tudo isso para supostamente preparar o menino para o que viria pela frente.

Ja Morant, escolha número 2 do draft de 2019
Ja Morant, escolha número 2 do draft de 2019 - Justin Ford - 30.set.19/USA Today Sports

Tyler Herro, 19 - herói e vilão ao mesmo tempo

O herói improvável tem um nome para narradores se deleitarem. Por apenas uma letra, o sobrenome de Tyler Herro, armador novato do Miami Heat, se diferencia da grafia de ”herói” em inglês. O calouro, 13ª escolha do draft, foi um dos destaques da pré-temporada jogando pelo time da Flórida. Com ótima mira, incendiou os jogos e já caiu nas graças da diretoria.

Herro jogou a NCAA (torneio universitário) pela Kentucky University, tradicional formadora de estrelas. Para isso, quebrou o compromisso com a universidade de Wisconsin, estado onde cresceu, o que enfureceu a comunidade local.

Ele foi de herói a vilão, recebeu bilhetes desejando que tivesse lesões, sofreu ameaças de morte e era comum que a casa onde morava com a família amanhecesse pichada com tinta e alvejada por ovos. Os fãs passaram a levar para os jogos cobras de pelúcia com seu rosto, o que parece ter o deixado mais preparado para o mundo da NBA.

Tyler Herro, escolha número 13 do draft de 2019
Tyler Herro, escolha número 13 do draft de 2019 - Streeter Lecka - 9.out.19/AFP
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