Centenário, Dualib sofre com Corinthians e quer carteira de sócio

Ex-presidente vive expectativa de voltar a ser sócio do clube

São Paulo

Alberto Dualib completou cem anos na sexta-feira (13), data celebrada em almoço com familiares. Um dia depois, no sábado (14), teve jantar de aniversário com figuras da política do Corinthians, entre elas Andrés Sanchez, atual presidente do clube, e os ex-jogadores Marcelinho Carioca e Vampeta. Ele vive a expectativa de receber de volta algo que perdeu há mais de uma década: o título de associado do clube do Parque São Jorge.

Mandatário alvinegro entre 1993 e 2007, ele renunciou ao cargo em meio a um processo de impeachment, com denúncias como má gestão, enriquecimento ilícito e sonegação fiscal. Um ano depois, para não ser excluído do quadro de sócios, entregou ao Conselho Deliberativo uma carta formalizando seu desligamento por vontade própria. Ou quase isso.

“Diante das constantes e ilegais invasões à minha privacidade, diante de tantas inverdades […], diante dos insistentes e legítimos pedidos de minha família, entrego meu pedido”, escreveu, citando sua extensa biografia: “88 anos de idade, 61 anos como associado, 47 anos como dirigente, conselheiro benemérito e 14 anos como o mais vitorioso presidente”.

Doze anos depois, sua situação no clube pode mudar. Ele não pretende voltar a frequentar a sede preta e branca, porém ficaria feliz em se sentir parte da agremiação, mesmo distante.

“É natural que gostaria”, disse o ex-dirigente, questionado sobre a possibilidade de receber o documento de sócio. Ele recebeu a Folha em seu apartamento na Vila Madalena, no dia de seu aniversário, e gostou de abordar o assunto: “É bom falar, quem sabe eles não se convencem e mandam [a carteira de sócio]?”.

Um grupo de conselheiros pró-Dualib fez um pedido para reaver o título de sócio do ex-presidente. Um dos apoiadores da medida, Antônio Jorge Rachid Júnior diz que ela foi aprovada pelo Conselho de Orientação, com sete votos favoráveis e dois contrários. O Cori é um órgão consultivo dentro do clube e orienta decisões da diretoria e também do conselho deliberativo.

O presidente do conselho deliberativo, Antônio Goulart dos Reis, afirma que a volta de Dualib ao quadro de sócios deverá partir da diretoria. 

“Legalmente, o Dualib não precisava passar por isso, o pedido ir ao Cori. Ele é dos mais vitoriosos do Corinthians e que chega numa certa idade que merece homenagens”, disse Reis.

Sanchez não quis atender a Folha para confirmar se caberá a ele decidir ou não. A reportagem também entrou em contato com a assessoria do Corinthians, que não deu retorno, e não conseguiu falar com o presidente do Cori, Roberson de Medeiros.

Não que ir ao Parque São Jorge esteja nos planos de Dualib. Esforços como os ligados ao seu centenário já têm sido bastante debilitantes, ainda que sua saúde seja verdadeiramente incomum.

“Estou com cem anos, pô! Esqueceu isso? Hoje [sexta], saí, almocei fora, comi tanto que fiquei até preocupado. E amanhã [sábado] vai ser pior”, divertiu-se.

No jantar de sábado, Dualib encontrou Andrés Sanchez, 55. Ele esteve em parte da gestão Dualib no clube, mas se apresentou como alternativa quando o impeachment virou realidade e sucedeu o antigo aliado. Ainda assim, eles mantiveram boa relação, a ponto de Sanchez ser defensor da volta do ex-cartola ao quadro de sócios.

A proximidade ainda gera resistência. Quando veio inicialmente à tona a possibilidade do retorno do ex-presidente, no primeiro semestre deste ano, houve antagonismo de vários grupos de conselheiros. Questionado agora pela reportagem, um dos conselheiros contrários à ideia disse que o assunto estava “morto”, antes de demonstrar preocupação: “Pelo amor de Deus se isso acontecer”.

Alberto Dualib presidiu o Corinthians em um dos momentos mais vitoriosos do clube. Ele jura ter pagado do próprio bolso a contratação de Marcelinho Carioca, no fim de 1993, ponto de partida para uma sequência de conquistas históricas. O ex-jogador inclusive esteve presente no jantar de sábado, assim como Vampeta, de quem foi colega de elenco.

"Obrigado por ser o presidente que me trouxe para o Corinthians, que me fez ganhar tantos títulos e gostar tanto desse clube", disse Vampeta. Dualib recebeu de presente uma placa o parabenizando e agradecendo pelos serviços prestados ao Corinthians.

Dualib (ao centro) recebe uma placa em homenagem ao seu aniversário; à sua esquerda, o ex-jogador Marcelinho Carioca e, ao fundo, no centro, o ex-jogador Vampeta
Dualib (ao centro) recebe uma placa em homenagem ao seu aniversário; à sua esquerda, o ex-jogador Marcelinho Carioca e, ao fundo, no centro, o ex-jogador Vampeta - Carlos Petrocilo/Folhapress

Sob a presidência do paulista de Glicério, entre outros títulos, o time levou cinco Paulistas, duas Copas do Brasil, três Brasileiros e um Mundial. O último de todos os troféus teve um preço alto. O Brasileiro de 2005 foi conquistado durante a parceria com a MSI (Media Sports Investments), fundo de investimentos com base em Londres que colocou no clube dinheiro obscuro e jogadores como Carlos Tevez.

O Ministério Público paulista chegou a divulgar um relatório que concluía: a operação da MSI no Corinthians lavava dinheiro. A relação com o fundo, presidido pelo iraniano Kia Joorabchian, azedou, e Dualib se viu isolado. Os craques foram embora, o apoio de várias alas políticas do clube seguiu o exemplo, e o resultado acabou sendo a renúncia, em 2007.

Ainda naquele ano, já sob comando de Andrés Sanchez, o time alvinegro foi rebaixado no Campeonato Brasileiro. O momento político obrigou Dualib a renunciar até a seu posto no quadro de sócios, em 2008, uma situação que ele espera ver revertida nas comemorações de seus cem anos.

Desde que deixou de frequentar o clube, o ex-presidente viu de longe um período também muito vitorioso, com o grupo político de Sanchez à frente de algo inédito: a conquista da Copa Libertadores. Comemorou, deixando as mágoas de lado, e continua torcendo pela equipe preta e branca.

“Se é Corinthians, ele não perde, não”, contou Denise Rodrigues, 31. “Ele vê de tudo, mas, quando é Corinthians, fica acordado e vê, mesmo quando o jogo é mais tarde. Só, às vezes, quando está muito ruim, ele mesmo desliga”, relatou ela, que há três anos trabalha como cuidadora do ex-cartola.

Conversar com ele já não é tão fácil. Mesmo feliz por receber visitas, Dualib tem dificuldade para ouvir. Há dois meses, após uma queda no banheiro, teve de ficar 17 dias hospitalizado. No dia em que atendeu à Folha, reclamava bastante de algo que o incomodava no olho.

“Queria eu ter esse couro de jacaré aí”, brincou Denise, que fez o ex-presidente alvinegro posar para as fotografias da reportagem com um semblante mais alegre. “Olha para mim e dá um sorriso bem gatão”, pediu, antes de demonstrar todo o orgulho por ser prontamente atendida: “Para mim, ele ri”.

A cuidadora faz com que Alberto Dualib saia do apartamento com alguma frequência. O Shopping Villa Lobos e o restaurante Senzala, próximos, estão entre os destinos do corintiano, viúvo há oito anos. Ele não vai recuperar a mulher Elvira, de quem costuma falar com carinho, mas tem esperança de voltar a ter uma carteirinha do Corinthians.

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