Descrição de chapéu

Mais que cobrar posição de atletas negros, é preciso entender seu silêncio

Falar de racismo é lembrar acontecimentos traumáticos e visitar nossas dores

Marcelo Medeiros Carvalho

Antes de falarmos de racismo e dos motivos pelos quais atletas negros se posicionam ou não, é necessário pensar que, quando estamos falando de discriminação racial, estamos discorrendo sobre relações de poder e como elas se estruturam em uma sociedade.

Num país que convive com o racismo e com a violência contra as pessoas negras de forma natural, é um pouco desumano desejar que de um dia para outro negros e negras que foram silenciados, oprimidos e que sofreram diversos tipos de represálias tenham opiniões elaboradas para expor em suas redes sociais. Afinal, não basta se posicionar, é preciso ter conteúdo para se comunicar sobre o tema.

Ao longo da história do esporte brasileiro, não foram poucos os atletas que se posicionaram a respeito do racismo e foram de alguma forma silenciados, apagados da história ou que sofreram represálias, e aqui podemos citar Gentil Cardoso, Lula Pereira, Reinaldo, Aranha, entre outros. Dessa forma, é extremamente cruel obrigar jogadores que tiveram no futebol a única oportunidade de ascensão social a se posicionem contra o sistema.

Acredito que, mais que cobrar posicionamento dos que hoje se mantém em silêncio, precisamos ouvir aqueles que estão se posicionando. Aí podemos citar: Paulinho, Igor Julião, Gregore Santos, Jean Pyerre, Lucas Santos, entre tantos jovens que estão despontando para o mundo do futebol e sem medo algum de falar sobre o genocídio da população negra.

É preciso lembrar que o racismo estrutura todas as relações de trabalho no país. Ainda vivemos ancorados no pensamento escravagista. Muitos dos que oferecem oportunidades de trabalho, entre elas no esporte, pensam estar fazendo um favor ao empregado e cobram dele submissão. Ou não é assim que os clubes de futebol tratam seus jogadores?

Mas voltando aos jovens que estão usando as redes sociais para falar sobre violência policial, racismo e política, é preciso que eles sejam ouvidos e apoiados. Que não deixemos esses gritos esmoreçam, que não deixemos que pessoas que não concordam que futebol e política se misturem calem essas vozes.

É preciso que programas e matérias esportivas ouçam quem tem algo a contribuir e propor para uma melhora da sociedade e parem de dar ibope para quem só quer fazer piada ou criar polêmica. Se os atletas americanos se posicionam é porque existe quem os ouça e ceda espaço. Não é de um dia para o outro que criamos consciência social.

Ao exigir de atletas negros que se posicionem, as pessoas esquecem que falar de racismo é falar de uma dor que nos acompanha desde o nascimento. Existem pesquisas que comprovam a violência obstétrica contra as mulheres negras.

Falar de racismo é lembrar acontecimentos traumáticos, em que muitas vezes essa pessoa negra foi humilhada, desumanizada, tratada como um objeto associado a algo ruim, feio ou violento. Será que estamos prontos todos os dias quando acordamos a visitar nossas dores, lembranças ruins e tristes?

O racismo adoece, traz desigualdade e mata. Por isso, é mais que necessários que pessoas brancas também sejam cobradas a se posicionar contra o racismo. Afinal, não foram os negros que inventaram o racismo. Não são os negros que estão em posição de poder e decisão e que podem propor ações de combate à desigualdade racial.

Nossa posição é de luta desde que o primeiro negro chegou ao Brasil escravizado e nunca silenciamos ou desistimos.

Estimulem-nos a falar, mas nos ouçam de verdade, nos apoiem e estejam conosco no campo de batalha. Aí sim você será um antirracista. Chega de morrermos por conta da nossa cor de pele. Vidas negras importam.

Marcelo Medeiros Carvalho é fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol

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