Atacado por rivais, RB Leipzig vive contradições com própria torcida

Organizada afirma que seu objetivo é apoiar o time, mas não a dona Red Bull

Rory Smith
The New York Times

Os executivos do RB Leipzig já acostumaram aos protestos há muito tempo. Alguns impressionam: os torcedores mais ardorosos do Union Berlin se vestiram de plástico preto e fizeram completo silêncio nos primeiros 15 minutos do jogo entre os dois times.

Alguns parecem mesquinhos: o Borussia Dortmund ainda se recusa a exibir o escudo do Leipzig quando o time joga no Signal Iduna Park. E ocasionalmente eles são um tanto sanguinolentos: os torcedores do Dynamo Dresden certa vez receberam o RB Leipzig jogando uma cabeça decepada de touro no gramado.

Ninguém no clube, portanto, teria se surpreendido com o surgimento de uma faixa criticando Dieter Mateschitz, bilionário fundador do RB Leipzig e da empresa que o patrocina, a Red Bull, nas arquibancadas, durante um jogo com o Schalke 04, em 2017.

Mateschitz havia criticado o governo da Alemanha, pouco antes, por sua decisão de abrir as fronteiras do país a refugiados da guerra na Síria, e uma rede de televisão controlada pela Red Bull havia adquirido a reputação de servir como plataforma a figuras políticas populistas, tanto na Alemanha quanto na Áustria. “O patrão do clube mais autoritário se define como pluralista”, a faixa dizia. “Que piada."

O que tornou a demonstração digna de atenção não foi a presença da faixa –nos 10 anos de sua ascensão da quinta divisão, regional, do futebol alemão para as semifinais da Champions League, o clube recebeu críticas muito piores—, mas sua localização.

Ela não estava sendo erguida pela torcida do time da casa. Em lugar disso, era trabalho dos torcedores "ultras" do RB Leipzig.

Fora da Alemanha, seria tentador ver o Leipzig como o azarão combativo na primeira semifinal da Champions League, nesta terça-feira (18).

Afinal, seu adversário, o Paris Saint-Germain, é pouco mais que um projeto de vaidade do governo do Qatar, um time de futebol cooptado por um país ávido por desenvolver seu poder brando e talvez maquiar um pouco seu histórico desfavorável quanto aos direitos humanos.

Por outro lado, no sentido esportivo há muita coisa a admirar na equipe dirigida por Julian Nagelsmann: o treinador jovem e inventivo; a dedicação a jogar futebol ofensivo; a dedicação ao desenvolvimento de talentos; as práticas inteligentes e produtivas de recrutamento.

O fato de que o time seja propriedade da Red Bull pode parecer meio cafona, mas, para as pessoas de fora da Bundesliga, a estrutura de controle do time nada tem de extraordinário.

Para a maioria dos torcedores da Alemanha, porém, especialmente os membros das torcidas “organizadas” –um termo que abarca turmas de arruaceiros, facções extremistas, grupos de interesse, ativistas progressistas e, de fato, organizações de torcedores–, a existência mesma do RB Leipzig é uma afronta a tudo em que eles acreditam.

O propósito primário do clube, na forma pela qual eles veem, não é jogar futebol ou representar uma comunidade, mas ampliar a visibilidade da marca Red Bull.

A organização toda, na opinião dessas pessoas, é um produto artificial armado até os dentes por uma grande empresa internacional –e que desrespeita escandalosamente as regras 50+1 adotadas supostamente para dar o controle final dos clubes alemães aos seus torcedores—, tudo isso para vender algumas latinhas a mais de bebidas energéticas.

Embora essa seja uma opinião da qual muitos torcedores comuns compartilham –Robert Claus, que pesquisa sobre a cultura dos torcedores alemães, diz que “embora haja diferenças de opinião entre os torcedores comuns e os torcedores "ultras" sobre algumas coisas, o RB Leipzig é outro assunto”—, essa indignação é sentida mais intensamente, e expressa da forma mais pública, pelos "ultras".

O RB Leipzig é a antítese do que os grupos extremistas representam, não importa para que time torçam. Ser um torcedor "ultra" é se opor a um time como o Leipzig. E, sim, como provou aquela faixa no jogo contra o Schalke 04, existe um segundo lado na história. A divisão binária pode se aplicar em princípio, mas não funciona na prática.

“Mais cedo ou mais tarde, quando você tem um carnê de ingressos para a temporada, o que eu tinha aos 13 ou 14 anos, você para de olhar para o campo e olha para as faixas e bandeiras no estádio”, disse um torcedor do Leipzig conhecido como Mucki. “A cena parece selvagem, descontrolada, e fascina o torcedor."

Mucki –que só concordou em falar se fosse identificado por um pseudônimo– era criança quando o RB Leipzig foi criado, em 2009, e mal tinha chegado aos 10 anos quando começou a assistir a jogos no estádio. Ele não pensava, então sobre os motivos para que o clube tivesse aterrissado, quase pronto, em sua cidade natal. Para ele, era emocionante poder acompanhar um time dotado de ambições.

Na adolescência, amigos o convidaram para assistir aos jogos na “kurve” do Red Bull Arena, o estádio do time no centro da cidade, e embora Mucki não se defina como torcedor "ultra", ele se tornou membro da Red Aces, a primeira torcida organizada "ultra" do clube. Agora ele é parte da Rasenballisten, uma torcida cujo objetivo é “apoiar o time, mas não a Red Bull”.

Mucki admite que, para muita gente, essa é uma contradição impossível: que alguém seja considerado torcedor "ultra" de um time como o RB Leipzig. As emoções geradas quando o time vence são reais, mas seu relacionamento com o clube é complicado, multifacetado. “O elo que tenho com o time é uma relação de amor e ódio."

Vários jogadores disputam a bola pelo alto
RB Leipzig venceu o Atlético de Madrid nas quartas de final da Champions League - Miguel A. Lopes - 13.ago.20/AFP

Mucki e seus colegas certamente sabem como seu time é encarado pelas demais torcidas do país. Ainda que ele não demore a apontar que “apenas uns poucos clubes não são negócios mundiais” —mesmo o Dortmund vendeu os “naming rights” de seu estádio—, ele não busca se proteger acusando os rivais de hipocrisia.

“Compreendo os argumentos deles”, disse Mucki. “É fácil apontar para esses problemas. Estamos tentando mudar as coisas."

E a torcida teve algum sucesso. Ele acredita que os Red Aces tenham tido papel importante em ajudar o clube a fomentar um ambiente “de mente aberta e tolerante”, no qual foi possível realizar manifestações de apoio aos refugiados e fazer protestos contra o Pegida, o grupo hostil ao islamismo que ascendeu inicialmente em Dresden e depois se espalhou pela Alemanha.

Mas no começo deste ano, a Red Aces acabou. Mucki disse que isso aconteceu em parte porque os integrantes estavam “cansados”, não da hostilidade externa, mas da resistência dentro do clube. Mas também houve outro fator para o fim da Red Aces: “O clube cresceu tão rápido que se tornou difícil sentir aquela conexão”.

Mucki entrou para a Rasenballisten, disse, porque a torcida tinha por objetivo “mudar o que as pessoas pensam sobre o clube”.

A torcida opera com um logotipo alternativo e rejeita completamente o uso do touro como símbolo do time. Essa é a iconografia do patrocinador, e nada mais. Em um mundo ideal, o distintivo do Leipzig um dia mudará. O objetivo da torcida é esse: não se queixar da existência do RB Leipzig, mas trabalhar para mudá-lo. Dentro do artificial, encontrar o autêntico.

Tradução de Paulo Migliacci

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