Volta de Robinho dói na alma, diz coletivo de torcedoras do Santos

Movimento Bancada das Sereias aponta hipocrisia do clube na contratação do jogador

São Paulo

O movimento de torcedoras santistas Bancada das Sereias, que tem apoio oficial do Santos, se declarou contra a volta de Robinho, condenado em primeira instância na Itália por violência sexual, ao clube da Vila Belmiro.

"Dói, dói na alma. O Santos regrediu em uma luta de anos e só nós sabemos o quanto perdemos", escreveu o coletivo em publicação nas redes sociais.

O grupo, fundado no ano passado e composto por torcedoras do clube que se unem para ir ao estádio juntas, fez uma postagem na qual discute a contratação do jogador de 36 anos.

Afirma que, mesmo que Robinho ainda possa recorrer de sua condenação, “não cabe o retorno desse jogador nessas condições” e também aponta que seria contraditório o clube contratá-lo após participar de campanhas contra a violência de gênero.

“É muito triste saber que todas as campanhas pela defesa da mulher, de Dia Internacional da Mulher, de nos dar voz para qualquer coisa, ficam somente no papel, afinal no momento de pôr em prática, [o clube] traz um jogador condenado em primeiro grau por estupro”, publicou o coletivo.

Kelly Gomes, 24, uma das fundadoras do movimento, diz que o grupo tem vontade de fazer um protesto, mas que há um certo temor sobre a reação de outros torcedores do Santos. A torcida, na visão dela, está bem dividida sobre a volta do jogador, inclusive dentro do Bancada das Sereias.

“Gerou discussão dentro dos nossos próprios grupos de WhatsApp, infelizmente. Houve algumas meninas que apoiaram a volta dele porque acham que ele é inocente e até saíram do grupo”, afirma. “Ele tem uma história dentro de campo e ela vai continuar ali, mas se ele é culpado tem que pagar. A gente sabe que ele pode recorrer lá na Itália, mas neste momento ele é condenado, então a gente não vai apoiar a volta."

Perto do Dia Internacional da Mulher de 2018, o Santos recebeu o São Bento na Vila Belmiro e entrou em campo segurando uma faixa com a inscrição “Se a mulher disse não, significa que ela disse não para você”. A frase era parte de uma campanha de conscientização promovida pelo movimento global pela igualdade de gênero #HeforShe, criado pela ONU Mulheres e apoiada pelo clube.

Na época, o Santos incentivou seus torcedores a assinarem um compromisso, por meio do site da entidade, para colocar em prática atitudes que contribuíssem para alcançar a igualdade entre os gêneros.

Neste ano, também perto da efeméride, o Santos participou, assim como todas as equipes do Campeonato Paulista, de uma campanha de conscientização que fez os jogadores entrarem em campo acompanhados por mulheres, em vez de crianças, como é usual.

Elas promoveram então um apitaço, em uma manifestação contra o assédio e para afirmar que os estádios são, sim, lugar para mulheres frequentarem. O apito é um símbolo das campanhas antiassédio, e a presença segura das mulheres em jogos de futebol é uma das principais bandeiras da Bancada das Sereias.

Com a contratação de Robinho, 36, anunciada no sábado (10), várias pessoas apontaram nas redes sociais o que veem como uma contradição na postura do clube.

Publicações antigas do time da Vila Belmiro nas redes sociais sobre temas relacionados à mulher foram relembradas para questionar a chegada do atleta, que iniciará sua quarta passagem pelo Santos. A reação veio tanto de torcedores de clubes rivais quanto de santistas.

Desde a noite de sábado, quando fez várias postagens para anunciar o retorno do atleta, o clube não voltou a publicar conteúdos diretamente relacionados ao jogador nas redes sociais. O atacante, inclusive, foi inscrito no BID (Boletim Informativo Diário da CBF) e está liberado para jogar, mas o Santos não anunciou a novidade.

Robinho volta ao Santos para sua quarta passagem pelo clube da Vila Belmiro
Robinho volta ao Santos para sua quarta passagem pelo clube da Vila Belmiro - Ricardo Nogueira - 2.nov.2014/Folhapress

Robinho foi condenado em primeira instância a 9 anos de prisão por violência sexual na Itália. O caso teria ocorrido em janeiro de 2013, numa festa em Milão, e a vítima seria uma jovem albanesa. Ele recorre da decisão.

A advogada de Robinho, Marisa Alija, postou um vídeo em seu Instagram na noite de sábado no qual explica que a condenação não é definitiva e que o atleta ainda pode recorrer em três instâncias. Também diz que não há ordem de prisão contra ele, em resposta a alegações de torcedores de que Robinho não poderia pisar na Itália, ou seria preso.

Em entrevista à Folha neste domingo (11), Orlando Rollo, presidente do Santos, também usou a presunção de inocência para defender a contratação feita por sua gestão.

"Robinho não está condenado com trânsito em julgado. Quem somos nós para atirar pedra no Robinho? Atire a primeira pedra quem nunca pecou. E será que ele pecou? Vamos esperar o desfecho do processo", disse o mandatário santista.

Além das manifestações de torcedores e de grupos como o Bancada das Sereias, jornalistas e comunicadores também participaram da discussão sobre a contratação do atacante nas redes sociais.

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