Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Se Ramírez for culpado, mancha história do Bahia, diz presidente sobre caso Gerson

Bellintani afirma não ter dúvida de que flamenguista ouviu 'cala boca, negro', mas sim se colombiano de fato disse a frase

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São Paulo

Após assistir, com áudio, a mais de uma hora de lances do jogo entre Flamengo e Bahia, disputado no último domingo (20), pelo Campeonato Brasileiro, o presidente do clube nordestino, Guilherme Bellintani, afirma estar assustado com o nível de ofensas e desrespeito mútuo que há dentro de um campo de futebol.

O jogo ganhou holofotes após a denúncia de racismo do meia flamenguista Gerson, que acusa o adversário Juan Ramírez de ter lhe dito "cala a boca, negro".

"Não tenho dúvida de que a afirmação de Gerson é verdadeira, ele de fato ouviu aquilo. A dúvida é se Ramírez falou", declara Bellintani à Folha.

O atleta do time carioca entrou na Justiça desportiva e na criminal contra o colombiano por injúria racial. Ramírez, por sua vez, nega o ocorrido, diz que falou para os adversários "joguem sério" e que também foi chamado de "gringo de merda" pelo atacante Bruno Henrique.

Além dos dois jogadores, o treinador Mano Menezes, flagrado pelas câmeras classificando como "malandragem" a acusação de Gerson, assim como o árbitro da partida, que na súmula relatou a denúncia, mas afirmou não ter testemunhado a suposta injúria, serão ouvidos no inquérito que corre na Delegacia de Crimes Raciais do Rio de Janeiro.

Bellintani atendeu à reportagem por telefone, pouco depois de terminar a análise dos vídeos. Criador do Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia, ele diz que o caso, se comprovado, mancha a história do clube. Mesmo protagonizando campanhas antirracistas, a agremiação será responsável pelo episódio.

O dirigente vê a acusação de racismo e o possível episódio de xenofobia como resultado de anos de tolerância do futebol com esse tipo de agressividade verbal. "Dentro das quatro linhas é corriqueiro e fora todo mundo finge que não vê."

*

Após esse episódio, é hora de o Bahia pensar em um projeto que vá além das iniciativas institucionais e extracampo, voltado à formação dos atletas? O Bahia é precursor da luta antirracista no Brasil como clube. Foi pioneiro, um dos mais destacados, se não o mais, e o destino colocou um desafio deste tamanho na nossa frente. Não queria passar por isso, está sendo o momento mais difícil da minha gestão, mas acredito que isso tomou destaque no Bahia não por acaso, mas porque estamos preparados para enfrentar. A gente está construindo um projeto a partir disso, dentro do Núcleo de Ações Afirmativas. Propor mudanças de regras que sejam fortes no combate ao racismo dentro do campo, mas também um trabalho formativo dos atletas, funcionários e diretores dos clubes. São dois saltos muito importantes.

Presidente do Bahia, Guilherme Bellintani
Presidente do Bahia, Guilherme Bellintani - Felipe Oliveira - 23.abr.2019/EC Bahia

Você afirmou que quis o destino que a acusação fosse contra um jogador do Bahia. O que isso diz sobre o futebol brasileiro, o racismo e a responsabilidade do Bahia nesse caso? É importante pensar o que ele mostra e o que não mostra. O que não é mostrado ainda é muitíssimo maior do que o que é. Vemos cada vez mais casos de racismo serem destacados na sociedade, inclusive no futebol, mas isso ainda é uma gota no oceano racista da sociedade brasileira. O que está sendo mostrado hoje ainda é a ponta de um iceberg imenso.

Se o Ramírez for considerado culpado, isso mancha a história do Bahia? Mancha, sempre, se ele for culpado. Mancha o Bahia, o futebol brasileiro. Mas eu procuro olhar, apesar de ser uma situação tão grave, o copo meio cheio. Porque se a gente for analisar, não se trata de um fato, se confirmado, novo, mas um fato antigo que agora está sendo mostrado. A mancha do racismo no futebol brasileiro já existe. Se confirmado, apenas fica mais aparente.

O que Ramírez disse para você? Ele esta muito abalado, demorou para compreender a circunstância. Em todas as conversas, que juntas dão cerca de duas horas, ele afirma que não disse a expressão "cala a boca, negro". Ele é muito veemente na afirmação de que não falou isso e que não é uma expressão comum dele o próprio "cala a boca". Ele não fala português, está há 40 dias no Brasil. Ele explica que o jogo estava tenso, com xingamentos e agressões de ambas as partes, diz que foi chamado de "gringo de merda", mas que não falou "cala boca, negro". É a versão dele.

Juan Ramírez durante partida contra Flamengo
Juan Ramírez durante partida contra Flamengo - Sergio Moraes/Reuters

Se ele diz que foi chamado de "gringo de merda", também não é um caso de Justiça? É uma xenofobia muito clara. Então, sim, mas com cuidado, primeiro para não parecer que uma denúncia seja uma resposta à outra. Coisas tão graves como xenofobia e racismo, uma não neutraliza a outra, no final o jogo não dá 0 a 0, os dois perdem de goleada. Não há uma anulação de uma agressividade por outra. Assim como digo que é direito do Gerson levar o caso às circunstâncias que ele queira levar, é um direito dele [Ramírez] também levar esse tema às consequências, um direito pessoal e individual. Se ele decidir, o clube vai apoiar, sem deixar de puni-lo caso fique comprovado o ato racista.

O que você entende que seria a melhor postura para um treinador nesse caso? Eu não sou um cara de experiência de beira de campo. Confesso que acabei de ver mais de uma hora de gravação, de analisar vídeos de partes quentes do jogo. Me assombrou demais, mas demais mesmo. Causou perplexidade a forma como as pessoas se desrespeitam dentro do campo, como o futebol se permite e tolera as agressividades verbais. Não tem desculpa que jogo de futebol é assim, isso é uma visão absolutamente restrita e limitada. Não defendo que todos sejam mudos, mas o que houve naquele jogo mostra que o futebol brasileiro tolera palavras, formas, jeitos e gestos e talvez muitos nem se surpreendam.

Não quero falar exclusivamente do treinador, porque vi uma grande salada de agressividades. Ninguém dá o direito ao outro de falar "cala boca, negro". É crime. Nem "gringo de merda". Parece que isso tem sido, durante anos, escondido do futebol brasileiro. Dentro das quatro linhas é corriqueiro e fora todo mundo finge que não vê.

Você afirmou que a demissão do técnico Mano Menezes aconteceu antes de saber da denúncia de racismo e que os fatos não estão relacionados. Mas, no Bahia, conivência com o racismo é motivo para o desligamento de um profissional? A gente está numa discussão grande sobre isso e há visões muito diferentes. Acho, primeiro, que essa decisão não precisa ser tomada exclusivamente por alguém branco como eu. A gente tem debatido bastante com pessoas do Núcleo [de ações afirmativas], com pessoas do movimento negro de Salvador. Algumas entendem que o desligamento dessas pessoas do clube é o caminho correto. Outras que, a depender das circunstâncias, do que foi dito, da cultura dessa pessoa, da história de vida, que estar no Bahia pode ser importante para o fortalecimento da causa antirracista; que jogar essa pessoa em outra realidade instrucional pode fazer dela mais racista ou no mínimo deixá-la fora da luta, e que ela estando num ambiente que se propõe à luta, pode ser um caminho mais efetivo.

E no caso de uma ofensa racista? A mesma coisa. Tanto a conivência quanto a ação racista são fatos sociais que existem em todas as instituições, absolutamente todas. O que diferencia é o quanto isso se torna visível e como cada instituição reage.

O Bahia vai defender o seu jogador no tribunal? Primeiro, vamos concluir nosso processo interno. Temos uma acusação grave, a voz da vítima, que é muito relevante, mas longe de mim entender que a voz da vitima é a única coisa a ser analisada. Tenho que dar ao meu atleta o direito à ampla defesa e ao contraditório. Não posso fazer um tribunal de inquisição, um linchamento público. Após a consolidação desse processo, inclusive com eventuais punições e políticas implementadas a partir disso, a gente vai estabelecer o comportamento do clube nos tribunais externos. Não existe algo definido.

Sendo o Ramírez um jogador do Bahia e sendo o Bahia um clube que se declara antirracista, como garantir que haverá isenção na posição do clube com relação ao atleta? Este talvez seja o grande desafio como presidente: conseguir um equilíbrio na decisão. Qualquer que seja ela, não vai agradar a todos, mas que seja uma decisão que ao mesmo tempo dê uma resposta firme e dura à sociedade, se for confirmado o caso da injúria racial. Mas se a gente não conseguir comprovar ou não tiver segurança plena de que aconteceu, a gente também tem que permitir a hipótese do contraditório, e a partir daí construir uma solução.

Se for concluído que o Gerson ouviu errado, o clube estuda fazer algo? Não é o caso, as dores já são muito fortes para a gente aprofundá-las. Não tenho dúvida de que a afirmação de Gerson é verdadeira, ele de fato ouviu aquilo. A dúvida é se Ramírez falou. Gerson merece o respeito e toda a crença de que de fato ele ouviu, a única dúvida é se Ramírez falou, porque pode ser que ele ouviu algo que Ramírez não falou.

Não é possível tirar essa dúvida assistindo às imagens? As imagens que já vimos não mostram que ele falou. Nenhuma imagem é capaz de dizer o que ele falou, que hora ele falou, mas também não mostram que ele não falou. Não há imagem conclusiva nem para o "falou" nem para o "não falou". O que temos, e que é muitíssimo relevante, é o depoimento da vítima.

À luz desse episódio, qual a responsabilidade do Bahia? Tudo está acontecendo por responsabilidade também do Bahia, na omissão, considerando que o fato esteja confirmado. Que apesar de fazermos muito mais do que outros fazem, ainda é pouco. E também uma responsabilidade ativa. O Bahia é um dos clubes que tornou o ambiente do futebol mais propício a denúncias desse tipo, presumindo que aconteceu, mesmo que ainda não esteja confirmado. Não que nós erramos no que fizemos, mas que o que fizemos não foi suficiente para evitar uma circunstância desse tipo, se ela de fato aconteceu. O Bahia está no caminho certo, mas um fato como esse mostra que ainda é pouco.

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