Ano de pandemia cria problemas na base e compromete formação de atletas

Clubes têm procurado minimizar o impacto de treinos e captação com o uso de ferramentas digitais

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São Paulo

Com a interrupção do funcionamento das categorias de base desde março de 2020, a formação de jogadores de futebol no Brasil está comprometida, principalmente para os jovens de até 16 anos.

Profissionais ouvidos pela Folha apontam que a pandemia e a consequente paralisação das atividades e das competições trará problemas não só a curto, mas também a médio e longo prazo no desenvolvimento desses atletas, que estão em fase de lapidação das capacidades técnicas e físicas.

Nesse cenário, times têm investido em ferramentas digitais para orientar treinos e também captar novos talentos com o fim das peneiras presenciais, mas ainda consideram essas medidas insuficientes para diminuir o prejuízo causado pela pausa.

São Paulo e Fluminense na semifinal do Brasileiro sub-17 de 2020, que terminou com títulos dos cariocas. Torneio teve interrupção
São Paulo e Fluminense na semifinal do Brasileiro sub-17 de 2020, que terminou com títulos dos cariocas. Torneio teve interrupção - Rubens Chiri - 27.mar.2020/São Paulo FC

Se por um lado o ano pandêmico acelerou o aproveitamento de jovens do sub-20 nas equipes profissionais, que viram, com a diminuição das receitas, a necessidade de apostar na base (mais barata) em detrimento das contratações, para as outras categorias houve maior impacto negativo.

O Campeonato Brasileiro Sub-17, por exemplo, havia começado em março do ano passado, mas precisou ser interrompido após o decreto da pandemia. Retornou somente em outubro, e foi encerrado no dia 21 de dezembro.A edição desta temporada está programada para iniciar no próximo dia 8 de maio.

Na categoria sub-15, a defasagem para os clubes e também para os atletas foi ainda maior, uma vez que as equipes não disputam torneios desde a paralisação, há pouco mais de um ano.

"A perspectiva é que teremos uma perda técnica nos próximos anos. Algumas gerações serão muito sacrificadas, como as [nascidas em] 2005 e 2006. Esses garotos poderão chegar ao final de 2021 sem jogar por duas temporadas inteiras. Essa idade, dos 14, 15 anos, é um momento nevrálgico de formação", diz Júnior Chávare, que trabalhou na base do Atlético-MG no último ano e assumiu recentemente o futebol profissional do Bahia.

As comissões técnicas de categorias inferiores não têm perdido somente o contato diário, que lhes permite o refinamento de fundamentos técnicos, mas também a possibilidade de testar os jogadores em diferentes contextos e, com isso, ampliar as ferramentas táticas aprendidas por esses jovens.

Sem torneios, um treinador que enxerga no seu lateral direito de 14 anos capacidade para atuar também como volante não poderá observá-lo na nova função. A possibilidade de que esse atleta perca dois anos de competição nesta fase da formação poderá prejudicá-lo à medida que for se aproximando do profissional, quando, em situação normal, já deveria ter experimentado uma série de experiências na base.

"A geração de 18 anos não acredito [que terá grandes prejuízos], porque jogaram ano passado no sub-17. Mas dos 15 anos para baixo, sim. Estão na fase do estirão, porque estão crescendo e precisam de trabalhos de coordenação motora para que se adaptem logo. Esses podem demorar um pouco mais para se desenvolver", afirma João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras.

Patrick de Paula foi um atleta que o Palmeiras observou na Taça das Favelas. Captação também foi afetada pela pandemia
Patrick de Paula foi um atleta que o Palmeiras observou na Taça das Favelas. Captação também foi afetada pela pandemia - Alexandre Schneider - 2.dez.2020/Reuters

No clube alviverde, os profissionais que trabalham com a formação têm usado ferramentas digitais para tentar reduzir essa defasagem. Preparadores e treinadores passam aos atletas, por vídeo, atividades físicas e técnicas que podem ser feitas em casa. Além desse trabalho, psicólogas e colaboradores do departamento social têm mantido contato frequente com os jovens e suas famílias.

O Santos também tem utilizado aplicativos de vídeo para se comunicar com os atletas da base. O clube, contudo, vem sofrendo por uma particularidade relacionada à pandemia. Desde o último dia 23, a Baixada Santista está em lockdown, medida que seguirá até o dia 4 de abril.

Com a restrição das atividades, as equipes de base não têm realizado treinos. Técnico do sub-17 santista, Elder Campos reúne seus jogadores virtualmente no aplicativo Zoom e mostra imagens de jogos anteriores do time, na busca por ajustar taticamente o grupo antes da estreia no Brasileiro.

“Estamos tentando fazer os treinamentos online, mas não é a mesma coisa. Vamos jogar numa situação em que não treinamos com bola, não é ideal”, afirma.

Coordenador metodológico da base do Fluminense, André Medeiros reconhece o prejuízo na qualidade da formação sem o contato presencial, mas é um pouco mais otimista quanto ao futuro dos jogadores de base que serão afetados pela pandemia.

"Dentre os maiores prejuízos, a parte técnica foi a mais afetada, contudo com criatividade e conscientização este período afastado do clube não será um limitador das carreiras destes jovens atletas. O surgimento de talentos não será interrompido", diz Medeiros, cujo departamento teve, em 2020, apenas quatro torneios de base: estadual e Brasileiro no sub-20, e Brasileiro e Copa do Brasil no sub-17.

A pandemia também coloca em xeque a descoberta de novos talentos. Com o cancelamento de competições como a Copa São Paulo, que reúne 128 equipes, e a impossibilidade de peneiras –processo seletivo no qual reúnem centenas de crianças e adolescentes para testes com a bola–, os clubes escalam seus observadores para acompanharem torneios por meio do streaming.

Thiago Rocha, coordenador de captação do Flamengo, conta que o processo de avaliação, tradicionalmente feito à beira do campo, tem sido realizado de casa. "Desde o começo da pandemia, o foco do departamento de captação do clube tem sido as observações através das ferramentas de jogos que o clube usufrui. Através dessa ferramenta, nossa equipe consegue assistir no home office às partidas completas e inserir os destaques individuais dos atletas em nosso banco de dados."

“Estamos acompanhando competições nas plataformas do MyCujoo, por exemplo. Isso tem nos ajudado a formatar um banco de dados interessante de atletas”, conta Fred Cascardo, diretor da base do América-MG. “Aqueles que são indicados ao clube, pedimos o material [vídeos]. Também buscamos informações com os parceiros de clubes e em projetos.”

Recentemente, o América-MG firmou parceria com a startup Tero, um aplicativo para atletas que buscam oportunidades. Nele, é possível criar gratuitamente um perfil e abastecê-lo com vídeos de testes técnicos e táticos, além de informações pessoais e de seu biotipo.

A plataforma reúne avaliadores independentes para uma espécie de filtragem –em troca, esses profissionais ganham bônus para cursos na área esportiva. Por fim, há o recrutador, nesse caso o América-MG, que terá acesso a esses conteúdos.

“É uma plataforma que pode nos auxiliar na captação dos atletas, tem um banco de dados ali interessante num primeiro momento de avaliação, mas nada vai substituir a avaliação in loco”, diz Cascardo.

Segundo Bruno Pessoa, cofundador e CEO da Tero, há 60 mil atletas cadastrados no aplicativo. “Estamos focando na evolução do produto como uma base de dados para os clubes. Ao invés de avaliarem 3.000 atletas e ficarem com dois, queremos que eles avaliem 100 e fiquem com 20”, afirmou.

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