Descrição de chapéu Tóquio 2020 Natação

Para Caeleb Dressel, uma bandana vale mais do que todas as suas medalhas

Americano que conquistou cinco ouros em Tóquio superou depressão para voltar a nadar

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Josué Seixas
Maceió

O esporte, muitas vezes, alça os seres humanos à condição de super-heróis. Muito por levarem seus corpos ao máximo, por sobreviverem à fadiga extrema ou por superarem a falta de comida, de dinheiro, a distância da família.

Poderiam ser escritos muitos adjetivos e mesmo assim faltariam palavras suficientes para descrever os mais de 11 mil atletas que se classificaram às Olimpíadas de Tóquio.

Mas, consideradas as vitórias, o americano Caeleb Dressel chamou para si os holofotes. Foram cinco medalhas de ouro para o nadador de 24 anos nesta edição dos Jogos.

Ele, ao receber a medalha e colocá-la no peito, sorri. Está pronto para as fotos, acostumado a elas, porque esteve sempre vencendo enquanto competidor. Simultaneamente, porém, ele não consegue esquecer os próprios "demônios", como os chama.

Desde 2017, Dressel carrega consigo uma bandana. Quatro anos antes, ele se encontrava perdido no mundo, sua mente lhe desafiava com dúvidas sobre continuar no esporte profissional. Aos 17 e já considerado fenômeno, Dressel não conseguia lidar com a pressão sozinho. Era demais para ele carregar a expectativa de um país como os Estados Unidos, acostumados a nadadores como Michael Phelps.

Decidiu, então, passar seis meses longe das piscinas. Foi a segunda vez que ficou um tempo sem nadar. Na primeira, aos seis anos, ele e seus dois irmãos mais velhos também fizeram uma pausa depois que o pai dele, Michael, foi diagnosticado com um sarcoma (câncer) no 4º estágio. Disseram que era terminal, mas Michael se recuperou.

"Eu não tinha ideia se voltaria a nadar", disse Dressel sobre seu segundo hiato, em entrevista ao The New York Times, em 2016. "Um garoto de 17 anos e as pessoas colocam nesse pódio e fica parecendo que você só é uma forma de entreter as pessoas. Eu sentia que estava nadando para outras pessoas e que essas pessoas nunca estariam satisfeitas."

Essas pessoas não eram os pais, amigos, parentes ou pessoas da escola. A pressão sobre Dressel vinha da internet, das redes sociais, e aumentava conforme ele ganhava seus títulos. Era como se projetassem nele uma grande carreira que ele próprio não sabia se conseguiria honrar.

É por isso que Dressel não se excede sobre as medalhas que tem. O grande prêmio está geralmente em sua outra mão —uma bandana que pertencia à sua antiga professora de geometria, Claire McCool. Ela foi professora do nadador na Clay High School e também o aconselhou nos meses em que ele quis parar.

“Ele estava em um caminho muito complicado em seu ano como veterano no ensino médio. Nós já éramos próximos, mas nesse período tivemos conversas muito sérias sobre a vida e sobre o que é importante”, contou McCool, em 2016.

A bandana de McCool, além de todas as memórias, é o único elo que restou entre a professora e o aluno. Ela morreu em 2017, em decorrência de um câncer, e o esposo dela presenteou algumas pessoas importantes com o artefato. Dressel foi uma delas.

Caeleb Dressel segura a bandada na mão esquerda, junto do buquê entregue aos medalhistas
Caeleb Dressel segura a bandada na mão esquerda, junto do buquê entregue aos medalhistas - Marko Djurica - 1ºago.2021/Reuters

“Não existe nada mundano que signifique mais para mim do que aquela bandana", ele contou em 2018.

"Eu levo comigo em todas as provas. Ela usou quando estava na quimioterapia. Não é a que ela mais usou. Acho que o Michael [esposo dela] ficou com a rosa e preta. Me ajuda passar por muita coisa. Eu a vi no leito de morte e ainda era a pessoa mais forte que eu já vi. Me deixa forte, me deixa confiante."

Durante as cerimônias em Tóquio, Dressel não escondeu as emoções. Na prova dos 4 x 100 m, ele tentou segurar as lágrimas ao ouvir o hino dos Estados Unidos. Em contato com a família, por meio da transmissão da TV americana NBC, também chorou bastante.

Na atual edição dos Jogos Olímpicos, foram cinco medalhas de ouros (50 m e 100 m livre, 100 m borboleta, 4 x 100 m livre e 4 x 100 m medley) em seis provas disputadas —a única derrota veio na prova dos 4 x 100 m medley misto.

Com os "demônios" sobre controle, Caeleb Dressel agora sabe que muita gente torce por ele. O nome na história é importante, mas talvez seja melhor ainda saber o que é estar bem acompanhado.

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