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09/06/2005 - 08h41

PT racha, contraria Lula e decide preservar Delúbio

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CATIA SEABRA
KENNEDY ALENCAR
CONRADO CORSALETTE

da Folha de S.Paulo

Para insatisfação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comando do PT assegurou ontem a permanência de seu tesoureiro, Delúbio Soares, na Executiva Nacional, como antecipou ontem a Folha. Embora os petistas insistam em negar, o Campo Majoritário do PT rachou ao discutir a saída de Delúbio. Segundo um dos integrantes da cúpula partidária, quatro membros da Executiva defenderam seu afastamento. Mas o presidente do PT, José Genoino, contou com a esquerda petista para vencer a queda-de-braço.

Em Brasília, Lula demonstrou contrariedade: "O PT não entendeu o tamanho da crise", disse o presidente, segundo interlocutores. Um dia após ter dito que poderia "cortar na carne" se preciso para elucidar suspeitas de corrupção, Lula esperava que Delúbio se afastasse e pediu a emissários que tratassem disso com o PT.

Mas, graças à atuação de Genoino e ao depoimento de Delúbio, o assunto nem sequer foi formalmente discutido pela Executiva.

Acusado de distribuir mesadas a parlamentares, Delúbio chorou ao jurar inocência. Segundo participantes da reunião, chorou ao falar de seu pai, "um homem justo", que se esforçou para levar os filhos à universidade. Delúbio se emocionou ainda ao descrever sua origem na roça e a lembrar que trabalha desde os 14 anos.

Afirmando que vive de aluguel há 15 anos no mesmo edifício, só tendo mudado de apartamento, o tesoureiro petista disse que seu patrimônio é compatível com a renda, que inclui uma aposentadoria de R$ 1.200 como professor pelo Estado de Goiás.

"Não enriqueci na política", disse ele, negando o pagamento de mesada a parlamentares.

Antes mesmo da reunião, Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, e Joaquim Soriano, da Democracia Socialista, manifestavam confiança em Delúbio. Apenas cobraram uma explicação formal do tesoureiro do partido. O representante da Ação Popular Socialista (APS), Jorge Almeida, nem participou da Executiva.

Desqualificando o autor das denúncias --o presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ)-, a esquerda do partido nem falou em afastamento. Mas, segundo o Secretário de Relações Internacionais do PT, Paulo Ferreira, o próprio Delúbio se pôs à disposição:
"Faço o que o partido quiser".

A dúvida sobre a permanência de Delúbio estava no próprio Campo Majoritário. Ao chegar ao encontro, o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, admitiu a hipótese de afastamento: "Acredito que não esteja na pauta. Agora, uma reunião da Executiva do PT você sabe apenas como começa. Nunca como termina".

Minutos depois, Genoino desceu para descartar a idéia e negar qualquer desentendimento com o PT. "Não há areia entre o PT e o presidente Lula", afirmou ele.

Na véspera, Sílvio Pereira e Genoino já tinham revelado dissonância sobre a necessidade de instalação da CPI dos Correios. Afinado com o governo, Pereira defendeu a apuração. Genoino repetiu ser um palanque eleitoral.

Agora, mantido Delúbio no cargo, a cúpula do PT aposta numa operação de "redução de danos". Dentro dessa ação, a cúpula do PT considerou desastrosa a declaração do ministro das Cidades, Olívio Dutra, de que a crise é produto das más companhias. Genoino não quis comentar. "Esse é assunto do governo. Não do PT. O partido participa como aliado da sustentação do governo."

Resoluções

A esquerda do partido, apesar de ter apoiado Delúbio, marcou posição na reunião de ontem ao apresentar uma proposta de resolução com duras críticas aos rumos do governo Lula, principalmente em suas políticas econômica e de alianças. Segundo a ala, tal rumo "faz com que alguns setores da população suponham que, se no âmbito da economia o governo contraria princípios passados, nada impediria que na ética não pudéssemos fazer o mesmo".

Essa resolução, apoiada por seis integrantes da Executiva, acabou derrotada. Prevaleceu a resolução do Campo Majoritário, que teve apoio de dez integrantes e destacou a tarefa do governo Lula de "consolidar a retomada do desenvolvimento econômico".

Os integrantes da Executiva, porém, aprovaram de forma unânime a convocação para os dias 17 e 18 do Diretório Nacional, instância máxima do partido, com o objetivo de discutir a crise.

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