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23/07/2005 - 09h49

Câmera mostra ex-dirigente do PT com mala em prédio

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KAMILA FERNANDES
da Agência Folha, em Fortaleza

O extrato de ligações telefônicas do quarto de hotel onde ficou hospedado o ex-dirigente do PT no Ceará José Adalberto Vieira da Silva mostra que, logo após ter possivelmente recebido o dinheiro que tentou transportar de São Paulo a Fortaleza, no último dia 8, ele ligou para Kennedy Moura, então assessor especial do BNB (Banco do Nordeste do Brasil).

A relação dos telefonemas feitos por Adalberto foi conseguida pelo "Jornal Nacional", da Rede Globo, no hotel Quality, da avenida Brigadeiro Faria Lima (SP), onde se hospedou logo após ter supostamente retirado o dinheiro em prédio comercial na mesma avenida. O circuito interno de câmeras do prédio mostra Adalberto entrando no elevador com duas malas e saindo com elas dez minutos depois.

Ele foi preso ao tentar embarcar para Fortaleza com R$ 200 mil numa mala e US$ 100 mil na cueca e disse, em entrevistas e em depoimento, que o dinheiro não é de propina nem ilegal, mas de amigo que queria ajudá-lo a abrir negócios no Ceará.

De acordo com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, a origem do dinheiro, porém, pode ser de propina, do desvio de verbas do FNE (Fundo Constitucional do Nordeste).

Reforçando essa hipótese, o "JN" confirmou, na empresa que alugou a sala comercial onde Adalberto esteve, que quem fechou o contrato foi José Petronilho de Freitas, diretor da Cavan Pré-Moldados. A empresa pertence ao grupo Alusa, que, por sua vez, integra o consórcio STN (Sistema de Transmissão Nordeste). O STN venceu em 2004 concessão para instalar rede de transmissão elétrica entre Teresina e Fortaleza, no valor de R$ 510 milhões. Do total, R$ 300 milhões são do FNE, financiados pelo BNB.

Três dias após a prisão de Adalberto, Moura pediu exoneração do cargo que ocupava no banco e devolveu o celular que usava, o mesmo para o qual ex-dirigente petista ligou. O próprio Moura confirmou que usava o número, mas disse que não se lembrava da ligação feita por Adalberto. Os dois são amigos e trabalharam no gabinete do deputado estadual José Nobre Guimarães (PT-CE) --que é irmão do ex-presidente nacional do partido José Genoino.

Ao ser preso, Adalberto também ligou para Moura, que foi o primeiro a avisar o deputado, então chefe do ex-dirigente petista, e que também estava em São Paulo.

O BNB divulgou nota em que confirma a transação de crédito com o STN e explica os procedimentos para a aprovação do financiamento, com quatro etapas: avaliação de risco, análise técnica, pareceres de diversos setores do banco e apreciação final.

Sindicância interna do banco investiga possíveis desvios e a participação de Moura e outros diretores. "Portanto, o Banco do Nordeste do Brasil esclarece que o financiamento concedido ao STN percorreu todos os trâmites de uma operação de grande valor e segue todas as práticas bancárias e de controles, necessários para assegurar, da melhor forma possível, o retorno dos investimentos", disse em nota.

O STN refutou suspeitas de desvio de recursos públicos ou de ter sido beneficiado na disputa pela concessão da obra.

Moura continua negando envolvimento com o dinheiro encontrado com Adalberto. Na semana passada, porém, ele afirmou ter estado em São Paulo no dia da prisão de Adalberto para um encontro no escritório de advocacia Leite, Tosto e Barros, que supostamente queria expandir seus negócios para o Nordeste.

O Ministério Público descobriu que dois sócios do escritório, Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho e Zanon de Paula Barros, foram diretores, respectivamente, dos grupos Alusa e Cavan.

O advogado de Kennedy Moura, Neuzemar de Moraes, disse ontem que seu cliente não iria mais conceder entrevistas.

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