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27/10/2006 - 09h14

Exibidas pela polícia, obras raras rasgam durante entrevista

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RICARDO GALLO
da Folha de S.Paulo

Após serem recuperadas pela polícia quase dez meses depois de furtadas, duas obras históricas --um manuscrito de 1791 de Dona Maria 1ª, a "rainha louca", e o livro "Ornithologie Brésilienne", do naturista francês Jean-Théodore Descourtilz, de 1855-- foram parcialmente danificadas após serem expostas em um sofá, por um delegado, e manuseadas por uma dezena de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos.

O material foi exibido, na manhã de ontem, na sala da Delegacia Seccional Centro durante cerca de uma hora. Em torno do sofá ficaram os jornalistas --mais de dez deles ao mesmo tempo. O livro e o manuscrito eram virados com freqüência para permitir o melhor enquadramento. "Cuidado", dizia, de tempos em tempos, o delegado Fernando Gomes Pires.

Por volta de meio-dia, repórteres de TV pediram para mudar os livros de lugar, para permitir a entrada ao vivo no ar. A obra "Ornithologie" e o manuscrito foram, então, levados para fora da sala. Cinegrafistas manuseavam indiscriminadamente as obras centenárias.

Antes do fim da entrevista, as obras voltaram para o sofá e, de lá, foram colocadas sobre a mesa do delegado. Foi possível ver, sobre o sofá, pedaços de papel soltos do livro e do manuscrito. Um policial civil, então, recolheu os pedaços e os entregou ao delegado.

O repórter-fotográfico Antônio Gaudério, da Folha, foi um dos que manusearam o material. "Assim como todo mundo, eu mexi nas fotos. Ninguém avisou que não podia tocar no material e isso foi feito na frente do delegado."

O manuscrito de Dona Maria 1ª foi furtado do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em dezembro do ano passado e o livro "Ornithologie Brésilienne", da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio no Carnaval. Eles foram recuperados no final de setembro pela polícia, durante investigação sobre uma quadrilha especializada justamente em furtar obras raras.

A entrevista tratava ainda da recuperação de obras raras do Itamaraty, como um mapa de 1712 com apenas seis exemplares do mundo. Havia, no total, sete mapas e duas alegorias (ilustrações), encontradas no casebre de um caseiro desempregado na zona sul de São Paulo.

Danos irreversíveis

Para uma especialista consultada pela Folha, o manuseio causa danos irreversíveis ao papel porque o contamina com nicotina, gordura e sujeira, presente nas mãos, o que acelera a degradação das fibras que formam as folhas.

"Ai meu Deus! Eu teria gritado [se visse a cena]. Que crime!", disse a chefe do laboratório de restauração do Arquivo Histórico Municipal, Maria Isabel Garcia. "Para preservar tem que ter luva, máscara. Se estiver sem luva, coloca nicotina, sujeira e gordura, que são irremovíveis e atuam na degradação do papel." Segundo ela, o descuido também acelera o esfarelamento do papel, pois danifica as fibras que o compõem. Outro erro está em dispor as obras sobre um sofá --laboratórios de restauro contam com um suporte especial, que separa a capa das folhas do livro.

"[Manusear sem luvas] Não é o procedimento de consultas a obra raras", disse, de modo polido, Angela Âncora da Luz, diretora da Escola de Belas Artes da UFRJ. Ela chega hoje a São Paulo para retirar "Ornithologie Brésilienne". Luz quer avaliar primeiro a obra, que contém 48 estampas coloridas, antes de atribuir o dano à polícia.

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