Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
09/08/2004 - 09h35

Transgressivo no passado, palavrão volta a invadir o pop

Publicidade

LEANDRO FORTINO
da Folha de S.Paulo

Você pode até tentar tapar os ouvidos, mas é quase inevitável não escutar as dezenas de palavrões que são cantados, nas rádios e na televisão todos os dias, por artistas como Marcelo D2, a banda Charlie Brown Jr., a veterana Rita Lee e até por um desenho animado, o rapper Dogão, um cachorro com corpo de homem criado pelo produtor Rick Bonadio, o mesmo que revelou os grupos Mamonas Assassinas e o próprio Charlie Brown Jr.

Nos EUA, um single com a palavra "fuck" repetida mais de 20 vezes está na lista dos mais vendidos.

Desde que palavras de baixo calão começaram a ser usadas em letras da música brasileira, no final dos anos 70, o sentido e o contexto delas mudaram. Se, no passado, palavrões tinham como objetivo transgredir as duras leis de censura impostas pela ditadura militar, hoje, eles perdem peso e passam a ser considerados gratuitos e até mesmo comuns.

"Nos tempos do tropicalismo, quando comecei a compor, a gente não podia usar nem "arco-íris" que neguinho da Censura achava que era coisa de comunista. Hoje, o palavrão deixou de ter conotação de baixo calão, faz parte da língua viva. O brasilês é uma das línguas mais ricas do planeta", conta a cantora Rita Lee, 56, que está na trilha da novela "Senhora do Destino", da Globo, com a música "Tudo Vira Bosta".

Para ela, "jovem não é besta pra gostar de uma música exclusivamente por causa de um palavrão sem mais."

Na linha iniciada pelo grupo/desenho animado inglês Gorillaz, o produtor Rick Bonadio, 35, criou recentemente o rapper Dogão, segundo ele, feito em parceria com nomes populares da música brasileira que preferem se manter anônimos. No recém-lançado álbum de estréia, "Dogão É Mau", há várias letras que se apropriam dos palavrões amplamente utilizados no rap.

"Não gosto de palavrão em música. Os palavrões que o Dogão fala são do linguajar do rap. Ele não tem pudor. Não existe uma forçação em cima do palavrão", conta Rick, que revelou o grupo santista Charlie Brown Jr., que vendeu 500 mil cópias do CD "Acústico MTV", do hit "Não Uso Sapato".

"O discurso do Chorão é bem rap. Mas o trabalho do Charlie Brown Jr. não é calcado no palavrão. Há palavrões que são gratuitos, que não fazem parte do contexto do artista, mas os deles não fogem do contexto, pois todos sabem como é o Chorão", diz Rick.

"As letras do Charlie Brown Jr. têm palavrões provavelmente porque o Chorão usa muitos palavrões no cotidiano dele", afirma Elaine Della Bella, 32, programadora da 89FM de São Paulo, rádio que, mesmo nos anos 80, nunca editou músicas com palavrões, como "Faroeste Caboclo", da Legião Urbana, ou "Bichos Escrotos", dos Titãs. "Quem procura audiência tem de manter os palavrões. O ouvinte quer a música do jeito que ela foi escrita", diz Elaine.

Rick Bonadio também foi produtor do sucesso "Nada a Declarar", do Ultraje a Rigor, que, para criticar a falta de assunto no rock do final dos anos 90, usava o menor palavrão do português. "Achava que havia uns palavrões usados de maneira apelativa, só para garantir o refrão, como eu mesmo falo na letra. Achei mais engraçado ainda usar o menor palavrão, que é "cu". Ele tá ali totalmente gratuito, mas, ao mesmo tempo, subentende-se que é para criticar", conta Roger, 47, vocalista do Ultraje.

Apesar de ter gravado a música "Filho da Puta", em 89, Roger acha que há palavrões gratuitos demais hoje. "Não sou contra. É música feita para um pessoal que acha isso normal. Só uso quando é necessário. Boceta, por exemplo, eu não consigo falar. E tem na música dos Raimundos e do Planet Hemp. O Charlie Brown Jr. tem coisas que são gratuitas. Acho a música "Papo Reto" preconceituosa."

A reportagem do Folhateen tentou falar com algum integrante do Charlie Brown Jr., mas foi informada, pela assessoria da EMI, que o grupo está de férias.

Em 1982, o grupo carioca Blitz, que trazia a cantora Fernanda Abreu e o ator/cantor Evandro Mesquita na formação, teve a faixa "Cruel, Cruel" censurada pelo regime militar. Para passar para o público a "agressão" que a canção sofreu, a banda manteve a música no vinil, mas a faixa veio toda arranhada, impossível de ser ouvida. "A gente capitalizou do jeito que a gente pôde. Isso chamou atenção para o problema da censura e também para a banda, que estava sofrendo uma agressão", conta Evandro, 52, que se prepara para entrar em estúdio para gravar um novo disco da Blitz, também cheio de palavrões, ele promete.

Palavras obscenas não são sinônimo de sucesso. Na estrada há mais de 20 anos, o Capital Inicial nunca usou desse artifício. "Considero que algumas letras nossas são mais subversivas que qualquer letra que tenha palavrão. Palavrões e gírias fazem a música envelhecer mal, mas não me incomodam. Ao terminarmos uma letra, estamos preocupados com o português correto. Somos frutos de uma geração que não podia nem dizer merda", diz o vocalista Dinho Ouro Preto, 40.

O pioneiro

Mas o que teria influenciado Chico Buarque na primeira letra da música brasileira que trouxe um palavrão dito com todas as letras? "Geni e o Zepelim" surgiu em pleno regime militar e foi alvo de censura.

O músico, compositor e produtor Carlos Rennó tem uma teoria. "Acho que a música americana pode ter influenciado o palavrão na música brasileira. Bob Dylan, em 1976, usou um "son of a bitch" em "Hurricane", talvez a letra mais longa já escrita. Dylan é um grande poeta. Possivelmente Chico conhecia a música. Grandes artistas se influenciam de alguma maneira. Estamos falando de grandes poetas da canção."

Nesses 25 anos entre "Geni e o Zepelim" e "Dogão É Mau", pode-se até considerar que houve um progresso na questão do moralismo, como defende o jornalista, crítico musical e escritor Tárik de Souza. "O uso de palavrões são um avanço na sociedade, para acabar com a hipocrisia. Hoje, a garotada também fala. Não existe mais isso, de "não fale palavrão, filho". A sociedade mudou. Na TV, nas novelas, há palavrão. É uma coisa que foi liberada aos poucos."

Leia mais
  • Palavrão na música prejudica linguagem de jovens, dizem educadores
  • Selo de alerta pode ajudar artistas a vender mais discos nos EUA

    Especial
  • Arquivo: veja o que já foi publicado sobre palavrões em músicas
  •  

    Publicidade

    Publicidade

    Publicidade


     

    Voltar ao topo da página