JON PARELES
DO "NEW YORK TIMES"

"Leve-me ao limite/ todos os meus amigos estão mortos", entoa Lil Uzi Vert em "XO OUR Llif3", inicialmente sem muita ênfase, mas mais tarde quase em canto falado, rouco, indistinto. A trilha de apoio é uma linha de baixo que vai do nada para lugar nenhum. A letra combina o amargor de um relacionamento destruído à ostentação de sucesso, e a devaneios drogados e suicidas.

"XO OUR Llif3" não é uma faixa obscura de vanguarda ou uma descoberta cult para os iniciados: é um grande sucesso. Desde seu lançamento, em fevereiro, a faixa foi executada mais de meio bilhão de vezes no serviço de streaming Spotify, e o vídeo foi assistido mais de 130 milhões de vezes no Youtube.

O tom da canção —pesaroso, atordoado, traumatizado, umbigocêntrico, defensivo, remoto, mórbido— era perceptível em toda parte no pop de 2017. As paradas de sucessos do rádio e as playlists montadas por algoritmos que avaliam popularidade foram ocupadas por canções, sons e situações sombrios, desesperançados.

E por que não? Considere as pressões sofridas pela geração milênio e pelos ouvintes mais jovens que estão clicando em busca de uma canção.
Eles estão começando suas vidas adultas em uma era de crescente desigualdade de renda. Vivem imersos na mídia social, que transforma a pressão de grupo em força nacional e demonstra —com fotos— que todo mundo vive melhor do que eles.

Se eles estão na universidade, o futuro envolverá dívidas educacionais, e se não estão a perspectiva é trabalhar em empregos horrendos no varejo ou serviços, sofrendo a impiedosa exploração que é reservada aos trabalhadores de baixa capacitação.

A atitude é parecida no álbum de maior sucesso do ano, "Reputation", de Taylor Swift, que vendeu um milhão de cópias em quatro dias. A Taylor do passado -uma moça sarcástica mas abordável, sempre enrascada com namorados escrotinhos- foi substituída por uma celebridade madura e assumida, que ataca seus detratores e gosta de alardear sua capacidade de manipulação, acompanhada por sons eletrônicos duros, hostis.

Não muito tempo atrás, a batida óbvia e quadrada e os baixos titânicos da dance music eletrônica embasavam os hits da música pop.

Compositores como Sia dominavam as paradas com canções cujo tema ela descreveu como "de vítima a vitoriosa", hinos como "Titanium", no qual as adversidades das estrofes eram superadas pelo triunfo dos refrões. Os cantores ofereciam afirmação e prazer; e a música prometia o apoio mútuo, a energia coletiva, das pistas de dança.

Agora essa esperança parece ter desaparecido. Ainda que os DJs continuem ocupados como produtores, o batidão feliz deixou de ser inevitável. As letras também acentuam a depressão.

Julia Michaels, que colaborou em muitos sucessos alheios, iniciou sua carreira solo este ano com um EP que incluía "Issues", faixa ouvida 462 milhões de vezes no Spotify.

Cantada em voz chorosa, por sobre um arranjo de cordas meio refinado, meio pomposo, a canção encara um romance como forma de "desfrutarmos da glória de nossos problemas", e é uma das indicadas ao prêmio de canção do ano no Grammy.

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Julia Michaels, que tem canção indicada a melhor do ano no Grammy

O mesmo vale para "1-800-273-8255", de Logic, com Alessia Cara e Khalid - o título é o número de um serviço de assistência telefônica a pessoas que estão pensando em suicídio. "Não quero viver, só quero morrer", Logic canta no começo da canção, ainda que mude de ideia.

Em "Him & I", um dueto entre o rapper G-Eazy e a cantora Halsey, o "amor louco" entre eles é ameaçado por haters, pelas drogas e pela possível infidelidade, e G-Eazy rapeia sobre a morte.

O segundo álbum de Lorde, "Melodrama", muito aguardado, tem como foco festas que despertam expectativas impossíveis, seguidas por decepções, traições e a triste tarefa de "lavar as taças de champanhe" —qualquer coisa menos diversão.

Khalid, em uma canção ouvida 325 milhões de vezes no Spotify, define secamente os estudantes de segundo grau atuais como "jovens, burros e falidos".

O som dominante de 2017, austero e ameaçador, leva adiante a longa e firme ascensão da trap music, emergida do rap do sul dos Estados Unidos no começo dos anos 2000. Os alto-falantes dos computadores e a compressão do MP3, como os rádios do passado, não são capazes de reproduzir com fidelidade os graves profundos e combinações de instrumentos ricas.

Os hits pop de dance music eletrônica dos últimos anos soam anêmicos sem as caixas de graves das casas noturnas. Enquanto isso, a arquitetura sonora sombria do trap funciona bem até mesmo nos menores tweeters.

E as raízes do trap no hip-hop mais bruto e o senso de pavor que seu som incorpora ganharam espaço no pop porque eles ecoam mais e mais o clima de incerteza e medo nos Estados Unidos.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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