Descrição de chapéu

Artificioso, 'Paulistas' observa transição rural sem julgá-la

Documentário de Daniel Nolasco se passa em área no sul de Goiás

Naief Haddad
São Paulo

Paulistas

  • Quando estreia nesta qui. (22)
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Daniel Nolasco

"Paulistas" é um documentário repleto de artimanhas, a começar pelo título.

Cena do documentário "Paulistas", de Daniel Nolasco
Cena do documentário "Paulistas", de Daniel Nolasco - Divulgação

O filme não trata dos moradores do Estado de São Paulo. Neste caso, Paulistas é uma região rural no sul de Goiás.

Esse é só um detalhe. O artifício central, porém, se revela aos poucos.

Nos primeiros minutos do filme de Daniel Nolasco, diretor goiano com boa experiência em curtas, as imagens nos aproximam do cotidiano de uma família interiorana, que vive da agricultura e da criação de gado.

Sob o peso da tradição, o tempo parece andar devagar, como nos quadros de Almeida Júnior, pintor do século 19.

A realidade não é bem assim. Essa calmaria bucólica não demora a se dissolver —é a partir daí que o filme ganha vigor dramático.

"Paulistas" não expõe um retrato de época, o que poderia torná-lo refém de uma nostalgia inócua.

Pelo contrário, é um olhar contemporâneo para uma transição em uma área rural que é de Goiás, mas diz respeito a grande parte do país.

A partir da década de 1990, a monocultura agrícola e a construção de uma barragem levam à redução da oferta de trabalho para os moradores da região. O êxodo rural é inevitável, portanto.

Os irmãos Samuel, Vinicius e Rafael estão entre aqueles que deixaram Paulistas para viver na cidade de Catalão, que tem mais de 100 mil habitantes. No mês de julho, os três voltam à fazenda da família.

Seus pais têm algum contato com a tecnologia, mas sabem que pertencem a outro tempo —e não demonstram se incomodar com isso.

Já os filhos vivem a inquietude causada pela incerteza do tempo e do espaço. Já não são mais os roceiros de Almeida Júnior. Tampouco os hábitos urbanos os satisfazem plenamente.

O filme pode ser visto como um alerta diante da expansão da monocultura, sobretudo da soja. Nesse sentido, o registro das casas abandonadas é emblemático.

Mas "Paulistas" dá um passo a mais. Seu mérito maior está no modo como observa essas vidas em transição, sem sucumbir à tentação de julgar os três rapazes.

Para apresentá-los, Nolasco evita o tradicional recurso dos depoimentos. Vamos conhecê-los em passagens da vida cotidiana, em casa, no campo, nas estradas.

A aposta firme na imagem, pacientemente colhida, e a generosidade com seus retratados indicam um caminho promissor. Daniel Nolasco merece atenção.

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