Descrição de chapéu Crítica cinema Oscar

Diretor russo registra com rigor mal-estar contemporâneo 

'Sem Amor'  é marcado por uma indiferença mais poderosa que mil ofensas verbais

SÉRGIO ALPENDRE
São Paulo

Sem Amor (Nelyubov)

  • Quando estreia nesta quinta (8)
  • Elenco Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Matvey Novikov
  • Produção Rússia/França/Alemanha/Bélgica, 2017, 14 anos
  • Direção Andrei Zvyagintsev

A Europa vive sob o signo do medo. O cinema europeu, logicamente, tende a retratar esse medo em diversas produções. O mal-estar que tem sido o mote da carreira de cineastas como Michael Haneke e Ulrich Seidl se espalhou para outros cineastas, no que já foi chamado de "hanekização" do cinema europeu contemporâneo, com o perdão do neologismo.

Maryana Spivak é Zhenya, mãe do menino Alyosha, vivido por Matvey Novikov (de costas) - AP

Filmes como "The Square - A Arte da Discórdia", de Ruben Östlund (indicado ao Oscar de filme estrangeiro), "Em Pedaços", de Fatih Akin (vencedor do Globo de Ouro na mesma categoria), e vários longas gregos recentes procuram registrar esse mal-estar com imagens frias engendradas por um estilo que falseia um certo rigor.

Com "Leviatã" (2014), o cineasta russo Andrei Zvyagintsev já parecia interessado em se afirmar nessa seara. Com "Sem Amor", seu mais recente longa —também finalista na categoria de filme estrangeiro da Academia—, ele se afunda completamente nela, a ponto de não conseguir mais enxergar qualquer possibilidade de futuro.

Os pais de Alyosha (Matvey Novikov), um menino calado de 12 anos, não se entendem mais. A mãe, Zhenya (Maryana Spivak), apaixonou-se por um homem rico. O pai, Boris (Aleksey Rozin), envolveu-se com uma mulher grávida. Durante o complicado processo do divórcio, Alyosha desaparece sem deixar pistas.

Não é apenas a pequena série de imagens cortantes de Alyosha, triste ou chorando compulsivamente, que nos chama a atenção para o mal-estar. Vemos isso em praticamente qualquer cena que mostre duas ou mais pessoas em algum tipo de interação.

O mundo retratado por Zvyagintsev é marcado pela necessidade de desafio constante e por uma indiferença mais poderosa que mil ofensas verbais. Não há trégua, não há nem sequer vestígio de felicidade que não seja muito breve e até injustificável.

Os casais transam mecanicamente. Nos escritórios, as pessoas precisam se encaixar em comportamentos robóticos. Nos demais lugares públicos, seres autômatos vivem de forma programática.

Tudo isso é registrado por uma câmera firme, de movimentos lentos e bem planejados, com pouquíssimo espaço para alguma respiração maior, algum corte que escape da rígida construção formal adotada.

Nesse sentido, até que o desaparecimento do menino provoca certa humanidade nas pessoas. Só assim para elas demonstrarem alguma emoção, mesmo que ainda dentro da chave do mal-estar contemporâneo.

Zvyagintsev continua desfilando suas citações de cineastas adorados: Andrei Tarkóvski e Sergei Paradjanov, principalmente, marcam presença em determinadas sequências.

Mas parece não entender o que é caro a esses dois cineastas: a tentativa de penetrar a alma humana para compreendê-la; o desejo de atingir e fazer expandir o fiapo de humanidade que existe na angústia e no desespero.

Diante disso, "Sem Amor" soa como um pequeno passo em falso, depois de "Leviatã", no qual Zvyagintsev parecia começar a trilhar um caminho próprio no cinema.

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