Descrição de chapéu

Documentário celebra multiplicidade do sincretismo religioso brasileiro

iretores passaram 3 anos registrando cerimônias para produzir 'Híbridos, Os Espíritos do Brasil'

Alexandre Agabiti Fernandez
São Paulo

Híbridos, Os Espíritos do Brasil

  • Quando estreia nesta quinta (15)
  • Produção Brasil, França, 2017, 12 anos
  • Direção Priscilla Telmon e Vincent Moon

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Traço fundamental na constituição do caráter brasileiro, a religiosidade é o tema deste documentário dos franceses Priscilla Telmon e Vincent Moon, que faz escolhas formais pouco usuais.

Almas e angolas, em Santa Catarina; cena do filme 'Híbridos', de Vincent Moon e e Priscilla Telmon
Cena do documentário 'Híbridos', de Vincent Moon e e Priscilla Telmon - Divulgação

Nada de entrevistas, depoimentos, ou vozes narradoras para orientar o mergulho nas múltiplas e híbridas manifestações religiosas que apresenta. Apenas as imagens e sons de dezenas de cultos, nos quais a música é onipresente. É só no fim do filme que cada manifestação é identificada, por meio de legendas.

A câmera está sempre entre os participantes dos rituais, oferecendo uma perspectiva sensorial única ao espectador, numa belíssima explosão de cores, ritmos, cânticos e movimento incessante. Muitas vezes a câmera está bem próxima dos corpos, revelando gestos, expressões e intenções. O corpo —que dança, canta, grita, rasteja, se extasia— está no centro do transe. A exaltação mística passa necessariamente pela materialidade bruta do ser, pela carne.

Ao mesmo tempo, ao interferir o mínimo possível no que está diante da câmera —sem explicar ou contextualizar, ao contrário do que faria um filme etnográfico de feições canônicas— o documentário encontra uma pulsação particular que não oculta seu parentesco com o transe místico. Afinal, assim como os rituais religiosos, o cinema também é um fenômeno social de representação coletiva que lida com a identificação e o mistério, e pode atingir a transcendência.

A dupla de realizadores passou três anos registrando cerimônias em vários pontos do Brasil. Gravou cultos indígenas no Acre e no Mato Grosso, o Círio de Nazaré no Pará, a festa de Iemanjá em Salvador, um ritual de umbandaime –um hibridismo recente– em Nova Friburgo, uma romaria católica na Bahia, práticas tântricas em Garopaba, passando por cerimônias espíritas e evangélicas, entre outras.

Parte de um projeto multimídia, o documentário é apenas um dos produtos dessa jornada. O material também rendeu dezenas de curtas-metragens disponíveis no site do projeto e performances ao vivo de Telmon e Moon, ampliando ainda mais o espectro dessa celebração poética do poderoso sincretismo religioso brasileiro que também é uma marcante experiência cinematográfica.

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