Descrição de chapéu Análise Moda

Givenchy não foi 'estilista aristocrático', mas costureiro das ruas

Pedro Diniz
São Paulo

É quase irônico que Hubert de Givenchy, morto no último sábado (10), tenha partido no mês dedicado à luta feminina por liberdade, direitos e igualdade. Último remanescente da casta dos “couturiers” (costureiros) franceses, era dele a tesoura que simplificou a silhueta feminina nos anos 1950, cujas golas, medidas e comprimentos levaram mobilidade ao guarda-roupa de festa.

O apelido de “estilista aristocrático” lhe fora dado pela genética, era filho de pai marquês e dono de uma herança estratosférica. Também pela cartela de clientes suntuosa, de Grace Kelly (1929-1982) a Jacqueline Kennedy (1929-1994). Mas, como todo rótulo, a pecha revela desconhecimento sobre sua real importância.

Conta-se que, quando Audrey Hepburn (1929-1993) apareceu em seu ateliê pela primeira vez, ele achava que receberia outra Hepburn, a também atriz Katharine, Para a sorte de ambos, a confusão virou a parceria duradoura que fundou as bases do “look” de mulher independente.

O decote “Sabrina”, criado para o filme homônimo de 1954 que a atriz estrelou e pediu a Givenchy para criar o visual, não só escondia a clavícula com uma linha reta e dois laços amarrados nos ombros, mas também oferecia a simplicidade elegante que as mulheres procuravam.

Era um meio entre a volúpia das pinups e o recato exuberante do “new look” de Dior, criado poucos anos antes, em 1947. A partir daquele momento, pré-revolução da minissaia e da blusinha decotada, Givenchy passaria a ser o costureiro de alta-costura mais conectado aos desejos das ruas.

Sua fama não passou incólume pela imprensa de Hollywood. Um dos escândalos mais famosos da época envolve seu nome e o da figurinista Edith Head (1897-1981). Tesoura poderosa dos estúdios Paramount, ela recebeu o Oscar de figurino por “Sabrina”, que nem nos créditos mostrou o nome do estilista. Hepburn, irritada, vinculou seu nome ao do designer até o fim da vida.

“Bonequinha de Luxo” (1961) consagrou a amizade com o tubinho preto imortal, mas foi “Cinderela em Paris” que redefiniu a imagem feminina com o uniforme “beatnick”. Calça cigarrete, cortada na altura do tornozelo, e blusa preta de gola careca, quase alta, formaram o conjunto que até hoje veste a juventude parisiense.

“[As roupas de Givenchy] têm o poder de tirar minha insegurança e timidez. E sei que me torno o melhor de mim mesmo”, disse Hepburn certa vez.

Isso tem a ver com o tipo de costura criada pelo estilista. Ao desdenhar da geometria e dos enchimentos dos concorrentes, ele criou vestidos e duas peças fáceis, cujas partes poderiam ser desmembradas e usadas no cotidiano. Era uma maneira jovem, sem rebusco, de usar alta-costura.

Foi um certo desprezo pela imagem perfeccionista que rendeu milhões de francos à sua grife –fala-se, em valores atualizados, que a Maison Givenchy faturou R$ 4 milhões no primeiro dia de funcionamento. Uma blusa de algodão cru, a Bettina, de tão simples e bem cortada virou “hit”.

Tudo mudou quando Bernard Arnault comprou a grife, em 1988, década em que surgia um novo tipo de relação entre passarela e vitrine, menos glamorosa e voltada para as vendas. O estilista passou a manter relação difícil com o empresário, dono do grupo LVMH e atual mandachuva da Dior, Céline, Louis Vuiton e uma série de outras grifes, o que culminou na aposentadoria de Givenchy, em 1995.

Ele não gostou quando o então jovem John Galliano assumiu a marca; depois, olhou com ressalvas a escalação de Alexander McQueen (1969-2010); e só em 2005 descansou em paz. A contratação do italiano Riccardo Tisci traduzira o legado do costureiro de forma radical.

A França não entendeu os moletons, as estrelas, as blusas folgadas, os tênis e o espírito “streetwear” da marca sob nova direção criativa. A casta tradicional gritou, Givenchy, segundo Tisci disse à “Serafina” em 2014, sacou tudo e deu bênção.

Aquela quebra de paradigmas resumia a essência da marca, de liberar mulheres –e hoje, também homens– dos códigos de elegância. Ao estudar o uniforme das periferias de Paris, assim como Givenchy olhou para o íntimo das clientes que conquistavam independência, Tisci tirou a grife do limbo. Fez isso por 12 anos, em uma das mais longevas colaborações de um estilista com uma grife que não leva seu nome.

Exposições e prêmios se seguiram à retomada da casa de costura, hoje tocada pela designer Clare Waight Keller, que deverá homenagear o estilista na passarela de alta-costura da etiqueta, em julho próximo, assim como a próxima edição do Oscar, que poderá lembrá-lo nas perdas do ano.

Serão homenagens minúsculas, protocolares, diante de um nome tão grande e ainda mal compreendido pela indústria do entretenimento.

Erramos: o texto foi alterado

Jacqueline Kennedy morreu em 1994, não em 2004, e Audrey Hepburn, em 1993, não em 2003.

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