Spielberg tenta provar com 'Jogador Nº 1' que não perdeu a mão para atrair multidões

Longa futurista do cineasta de 71 anos discute realidade virtual

Brook Barnes
The New York Times

O cineasta Steven Spielberg, 71, estava ajustando seus óculos trifocais quando foi perguntado se tentava provar que não havia perdido a magia com seu novo filme de ficção científica. Uma gota de suor deslizou por sua têmpora.

Ele brincava com um charuto, sem acendê-lo, e descrevia a euforia com que seu "Jogador Nº 1", que estreia no Brasil nesta quinta (29), havia sido recebido no festival South by Southwest, nos EUA.

O filme —de custo estimado de quase R$ 600 milhões— estava sendo definido como um retorno aos seus dias de glória, e comparado a "Jurassic Park: Parque dos Dinossauros" e "E.T. - o Extraterrestre".

Mas não havia como contornar a pergunta estraga-prazeres. Em tom calmo, respondeu ter preocupações mais importantes, mas citou "Crepúsculo dos Deuses" (1950).

"Tenho na cabeça uma imagem assustadora, que me assombra, de Gloria Swanson sentada em sua sala de estar assistindo aos seus dias de glória. E sempre digo a mim mesmo que jamais me permitirei reminiscências nostálgicas."

A menos que esteja fazendo um filme que gira em torno de reminiscências nostálgicas. "Jogador Nº 1" é uma adaptação do livro homônimo de Ernest Cline, de 2011.

O texto vem carregado de referências à cultura pop dos anos 1980 —era cinematográfica dominada por Spielberg, como diretor e produtor ("De Volta para o Futuro", "Os Goonies", "Poltergeist - o Fenômeno").

O roteiro de Cline e Zak Penn faz referência a filmes de John Hughes, incorpora a roupa vermelha de Michael Jackson no clipe de "Thriller" e cita Mechagodzilla e Chucky. A trilha sonora brincalhona é povoada por canções de Twisted Sister, Van Halen e Joan Jett.

No filme, o adolescente Wade Watts (Tye Sheridan) vive em um estacionamento de trailers imundo e superlotado. O ano é 2045, e a maioria dos americanos desistiu de lutar. (Subir na vida? Não há como.)

As pessoas agora passam o tempo todo usando visores de realidade virtual e equipamento háptico que permitem que elas explorem um mundo virtual tridimensional chamado Oasis como se fato vivessem lá.

O ambiente criado por um bilionário excêntrico é um lugar maravilhoso onde a pessoa pode ser qualquer coisa que deseje —outro gênero, outra espécie. Para Wade, que ama os anos 1980, e sua namorada Samantha Cook (Olivia Cooke), a tarefa é vencer uma corrida em três etapas e encontrar um tesouro, impedindo que uma empresa gigantesca e malévola (nos dois mundos) chegue primeiro.

Spielberg sempre oscilou entre o prestígio e a pipoca —lançando "A Lista de Schindler" e "Jurassic Park - Parque dos Dinossauros" no mesmo ano, e saindo diretamente de "Indiana Jones e o Templo da Perdição" para "A Cor Púrpura".

Mas a preferência pelos de prestígio vem crescendo. Os três mais recentes dramas históricos ("The Post", "Ponte de Espiões" e "Lincoln") foram indicados ao Oscar de melhor filme e geraram R$ 1,1 bilhão.

Já os três últimos dirigidos ao público mais comercial não cumpriram as expectativas. "O Bom Gigante Amigo" e "As Aventuras de Tintin: o Segredo do Licorne" fracassaram nas bilheterias. "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" arrecadou quase R$ 1 bilhão, mas os fãs em geral detestaram a história.

"Nos meus primeiros filmes, de 'Tubarão' a 'Caçadores da Arca Perdida' e 'E.T.', estava contando a história do ponto de vista do espectador —do público para o público—, e isso foi algo que fiquei sem fazer por muito tempo", disse Spielberg. "A última vez que o fiz, na verdade, foi em 'Jurassic Park', nos anos 90."

Por que não fez mais? Rindo, disse estar velho. "Agora sinto mais responsabilidade por contar histórias com significado social." Aceitar a si mesmo e aos outros é um grande tema do novo filme.

A ação se baseia por motivos clássicos na obra de Spielberg (pais ausentes, crianças mais inteligentes que adultos).

"Estava realmente interessado na tecnologia que permite que esse universo alternativo exista —os headsets, as luvas, botas e trajes de resposta háptica— porque acho que ela será a superdroga do futuro", afirmou o cineasta, que também é investidor de uma empresa desse segmento.

As pessoas se viciam no Oasis e mentem e roubam na vida real para satisfazer sua obsessão virtual. O filme pode incluir alertas sobre o vício em realidade virtual, mas ele na verdade funciona como a sua melhor publicidade. Se o Oasis, visualmente espetacular, não fizer com que as pessoas queiram comprar um aparelho de realidade virtual, talvez nada mais seja capaz de fazê-lo.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
 

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