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Romance de Juan Pablo Villalobos faz paródia da autoficção

Mexicano cria personagem homônimo em trama que mescla humor de bar, mundo acadêmico e bandidagem

Alvaro Costa e Silva
Rio de Janeiro

Um brasileiro, um argentino e um mexicano entram num bar... Para saber o que acontece depois, só lendo "Ninguém Precisa Acreditar em Mim", o mais recente romance do mexicano Juan Pablo Villalobos, que viajou de Barcelona, onde mora, para lançar o livro em São Paulo e participar do Fliaraxá (Festival Literário de Araxá), em Minas Gerais, que começa nesta quarta-feira (27) e vai até 1º/7.

Um dos acertos narrativos do romance é utilizar a retórica comum dos "chistes". Algumas passagens dão a impressão de que estamos lendo uma piada de bar, do tipo em que cavalos bebem cerveja e discutem a obra de Kant.

O escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, em foto de 2013 - Marcelo Justo - 4.jul.2013/Folhapress

"O fenômeno que acontece com quem está escutando uma piada é o mesmo que se passa com o leitor de ficção: a suspensão da descrença. Você fica disposto a aceitar qualquer coisa. Essa proposta de cumplicidade é a essência da literatura e do humor", explica Villalobos.

Tudo começa quando o mexicano Juan Pablo (favor não confundir personagem e autor) prepara-se para uma viagem a Barcelona, onde irá cursar um doutorado sobre a presença do humor na literatura latino-americana do século 20.

Um primo o convida para uma reunião de negócios, que se revela um pacto de sangue com mafiosos envolvidos em corrupção e tráfico de drogas.

"Gosto de misturar mundos aparentemente opostos, um choque que tem a ver com a realidade mexicana. Fiz isso em 'Festa do Covil', a oposição entre o pai do menino, um chefão do narcotráfico, e o professor particular dele, um intelectual latino-americano de esquerda", diz o escritor, referindo-se ao seu primeiro romance, que forma uma trilogia com "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" e "Te Vendo um Cachorro".

"Em 'Ninguém Precisa Acreditar em Mim', a mistura entre o mundo criminal e o mundo acadêmico fica mais em evidência. É uma estratégia para provocar os inevitáveis efeitos humorísticos", completa.

O ambiente acadêmico permite que as citações literárias —a Sergio Pitol, Augusto Monterroso, Alejandra Pizarnik, Jorge Ibargüengoitia— se encaixem na história sem prejuízo para a fluência da narrativa feita a quatro vozes: Juan Pablo, sua namorada, Valentina, sua mãe e seu primo.

"O mais importante ao escrever um romance é encontrar a voz dos personagens", define o autor.

"É a primeira vez que aceitei o desafio de narrar sob a perspectiva de uma mulher. As cartas da mãe saíram com naturalidade logo que achei o tom. Foram escritas num impulso. Na verdade, é uma mescla das vozes da minha mãe e das minhas tias e avós. Mas a personagem não é a minha mãe."

A explicação é importante porque evidencia o que Villalobos se propôs a fazer: uma paródia da badalada autoficção. "Eu reivindico a ficção. Estava de saco cheio, se me permitem a expressão, de ouvir que a literatura autobiográfica tem maior autenticidade. Toda autobiografia é uma mistificação. A paródia mostra que a ficção, utilizando-se dos recursos da literatura íntima, também pode atingir o verdadeiro."

Nos últimos quatro anos, o escritor teve um contato mais direto com a realidade. A partir de conversas realizadas nos Estados Unidos com dez meninos e meninas imigrantes de Honduras, Guatemala e El Salvador, fez o livro "Yo Tuve un Sueño", que será publicado em setembro pela editora espanhola Anagrama.

"O que eles padeceram de violência nas ruas e nas próprias casas é ainda mais grave do que as detenções que crianças têm sofrido pela política de tolerância zero americana. Mas é lógico que Trump não tem sensibilidade nenhuma para tratar o problema. Ele acredita que tudo é uma negociação, como se fosse a incorporação de uma multinacional por outra", diz.

De férias no Brasil, Villalobos, que é louco por futebol, não desliga da Copa. Ainda mais com a boa campanha até agora do México: "Tenho fé de que passaremos do quinto jogo, o que nunca conseguimos antes. E podemos chegar, quem sabe, às semifinais. No time há intensidade, concentração e compromisso para sonhar".


Ninguém Precisa Acreditar em Mim

(No Voy a Pedirle a Nadie que Me Crea). Autor: Juan Pablo Villalobos. Tradução: Sérgio Molina. Ed. Companhia das Letras. R$ 54,90 (264 págs)

Erramos: o texto foi alterado

Um versão anterior desta reportagem informava, incorretamente, que a seleção mexicana nunca havia passado das oitavas de final numa Copa do Mundo. Na verdade, o time chegou às quartas duas vezes, em 1970 e 1986.

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