Descrição de chapéu Flip

'A gente atua na política sempre que busca sobreviver', diz Marielle em vídeo na Flip

Entrevista de vereadora assassinada em março é exibida em telão na Casa de Cultura de Paraty

A vereadora Marielle Franco em janeiro deste ano, na Cinelândia, Rio de Janeiro - Ellis Rua/Associated Press
Anna Virginia Balloussier
Paraty

“A gente atua na política sempre que busca sobreviver”, diz Marielle Franco em entrevista de 2017 exibida nesta sexta (27) na Flip, dia em que completaria 39 anos.

O rosto da vereadora carioca morta em março preenche o telão na Casa de Cultura de Paraty. Não é só na conversa exibida postumamente que #MarielleVive, como diz a hashtag-símbolo de um movimento que pede respostas para a sua morte —quem a matou e por quê?

Questões que ocupavam a vereadora do PSOL encharcam também o debate em torno da coleção Feminismos Plurais (ed. Letramento), organizada pela filósofa Djamila Ribeiro.

Durante o mestrado, conta Djamila, ela nunca estudou nenhuma mulher (negra ou não). Tampouco filósofos negros foram discutidos em sala de aula.

“Não é que a gente não produz. O problema é a invisibilidade dessa produção”, diz.

Pois pensadores negros existem e às pampas. Alguns se juntaram a Djamila na conversa, como Juliana Borges, que para a coleção escreveu “O Que É Encarceramento em Massa?”. 

“Na universidade, achava que ia ter descanso da política, e foi justamente quando se discutia a entrada da polícia no campus”, conta Juliana, moradora da periferia paulistana que estudou na USP, onde foi inserida a presença da PM após uma onda de crimes, em 2015.

Empoderamento , conceito e prática

A Joice Berth pediu-se uma resposta para a questão presente no título de sua obra, “O Que É Empoderamento?”. Essa é difícil, reconhece a mediadora, para risos da mesa e da plateia.

“Ao contrário do que tem sido colocado por aí, não é um conceito fácil de entender nem de se colocar em prática”, diz Joice. É sobretudo um processo pelo qual grupos minoritários em busca de equidade social precisam passar “para que se chegue de  fato ao empoderamento”.

E parte desse processo inclui despir-se de estereótipos que insistem em colar ao negro, afirma.

Por exemplo, é comum dizer que mulheres negras são “as loucas raivosas, as barraqueiras”, lembra a mediadora.

Pois é preciso “não cair nessa armadilha de acreditar que a gente é assim”, diz Joice. “As pessoas continuam falando que a gente não é minoria, é maioria, pois somos mais de 50%”, prossegue, falando sobre a prevalência de mulheres no Brasil.

Mas é importante entender que a minoria,  no caso, é social: aqueles que têm menos direitos do que certo grupo. “Poucos de nós conseguem furar esse bloqueio. Eu, que sou preta mais escura, desde criança sei o que somos porque tem o coleguinha que nos xinga na escola.”

No livro “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” (Companhia das Letras), Djamila conta que ficava isolada na hora do recreio e que “os meninos diziam na minha cara que não queriam formar par com a ‘neguinha’ na festa junina”.

Para a filósofa, “até a própria militância usa de forma equivocada” conceitos caros ao debate, quando dizem, por exemplo, “cala a boca porque você não tem lugar de fala” a um homem branco.

Todos têm lugar de fala, diz. O importante é entenderem qual é. O homem branco, por exemplo, precisa aprender a falar a partir de sua posição no tabuleiro social.

“Ele não se marca como sujeito que também é posicionado na estrutura.” Muitos acham que neles se aplica o selo universal de “ser humano”, deixando de entender que, como homens brancos, têm uma visão formada a partir dessa pele social.

E muito cuidado com a internet, diz Djamila. “Gosto das redes sociais, sou muito atuante nelas, mas há muita superficialidade em temas muito complexos. Não é porque o Facebook está perguntando o que a gente está pensando a gente tem que responder, né? Se você tá na internet falando besteira, tem como pesquisar [o assunto] no Google.”

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