Cauã Reymond se arrisca na comédia, tira a roupa e se prepara para ser dom Pedro

Ator estará em 'Uma Quase Dupla', 'Piedade' e viverá patriarca da independência

O ator Cauã Reymond no condomínio em que mora, no Rio

O ator Cauã Reymond no condomínio em que mora, no Rio Ricardo Borges/Folhapress

Guilherme Genestreti
Rio de Janeiro

​A comédia pode não ser a primeira coisa que lampeja na mente quando se fala o nome de Cauã Reymond. Mas veio do ator boa parte da pegada de “Uma Quase Dupla”, filme de humor que consolida uma guinada na carreira do carioca de 38 anos.

​Quando o ano terminar, Cauã terá somado ao novo papel cômico: 1) a personificação de dom Pedro 1º, 2) cenas tórridas com Matheus Nachtergaele, 3) a função de produtor de cinema. Dirigir também está em seus planos. 

“Se tenho uma puta cena difícil, fico no meu cantinho, me concentrando. Mas, se já tenho segurança, começo a olhar para o que está ao redor, para as decisões do diretor, do diretor de fotografia”, diz, durante encontro com a Folha, numa livraria do Leblon.

Cauã Reymond em cena do filme 'Uma Quase Dupla'. PARA USO EXCLUSIVO DA ILUSTRADA
Cauã Reymond em cena do filme 'Uma Quase Dupla' - Divulgação

A comédia “Uma Quase Dupla”, que terá pré-estreias a partir do próximo dia 12 nos cinemas, nasceu de uma troca de ideias com a produtora Bianca Villar. “E se for um filme de dupla? E se a dupla for de policiais? E se tiver Tatá Werneck no elenco?”

Dirigido por Marcus Baldini (“Bruna Surfistinha”), o longa se apoia na interação entre Tatá e Cauã, que interpretam policiais de temperamentos opostos no encalço de um serial killer de cidadezinha.

O bigodão à la “Magnum” dele, o jeito de Kate Mahoney dela e o suingue da trilha criam uma nostalgia de anos 1980 para o filme. Ela é experiente e orgulhosa; ele é um bobalhão que toma multivitamínico e tem as madeixas clareadas pela mãe coruja.

O estilo dos atores também é desigual. Com experiência na comédia, Tatá é improvisadora; já Cauã, nem tanto. 

“Às vezes o cara é mais engraçado reagindo. Como ela é rápida, meu personagem é o mais lento. O resultado é essa comédia absurda”, diz o ator, fã dos irmãos Coen. Ele cita “Queime Depois de Ler” e “O Grande Lebowski” como inspirações, embora “Uma Quase Dupla” esteja mais para uma comédia familiar. “Tudo bem, faço minha comédia de humor negro mais para frente.”

O filme, que tem Cauã como produtor associado, é mais comercial do que os trabalhos habituais do ator no cinema. Ele, que já atuou para nomes como Carlos Reichenbach, ligado à Boca do Lixo, estará na em “Piedade”, novo longa do pernambucano Cláudio Assis, dos viscerais “Amarelo Manga” e “Febre do Rato”. “É o diretor mais faca na caveira do cinema brasileiro”, diz.

Ao lado de Fernanda Montenegro e Irandhir Santos, ele interpreta no filme um dono de cinema pornô que se envolve com o executivo vivido por Matheus Nachtergaele. Será um papel que irá “subverter” sua imagem, segundo o ator. “Piedade” ainda não tem data de estreia.

Cláudio Assis, famoso por obras carregadas de voltagem sexual, fez Cauã se despir frente às câmeras para uma cena de sexo com Nachtergaele.

“Tinha que beijar o corpo dele todinho e sem tapa-sexo. Eu deitava e ele vinha para cima de mim”, diz o carioca. Uma hora, seu parceiro achou que estava “brincalhão demais”. “Respondi: ‘Matheus, o que eu faço com as mulheres é o que eu tenho que fazer com os meninos também’.”

A dica de “brincar durante cena de sexo” Cauã colheu assistindo a Vincent Cassel, seu colega em “À Deriva”. “Ele dizia que tem que ser como piada.”

Brincar é uma coisa nova para o ator que diz ter começado a “atuar de forma mais solta” só recentemente. “Antes eu chegava muito duro, muito estudado para as cenas. Pedia para repetir mil vezes e incomodava os outros atores.”

O estopim foi uma “crise artística” que ele teve em 2012, ano de “Avenida Brasil” e do nascimento de sua única filha, Sofia. Assim que terminou de filmar a telenovela, a mais influente da década, Cauã Reymond foi direto para o divã.

“Não conseguia entender aquele sucesso, saí mexido.” Mesmo em outros países, diz, era reconhecido até sob barba farta. Na Argentina e no Chile gritavam o nome de seu personagem: “Jorgito, Jorgito!”.

Do divã, ele só se levantou três meses depois. “Eu vi que podia ser mais calmo, me dar o direito de errar e de arriscar.”

Cauã já arrisca um primeiro passo rumo à direção. Ao menos, já aventa a possibilidade. Munido de um caderninho, tem anotado ideias. E quer se especializar, fazer cursos de produção de de roteiro.

“Pensa no Tom Hanks. Ele dirigiu um episódio de ‘Band of Brothers’. Quem sabe um dia?”, cogita. Ele dispara referências que passam por Cary Fukunaga (de “True Detective”), Clint Eastwood (“adoro, mas não seria capaz de reproduzir o lado cartesiano dele”) e David Ayer, do thriller com estilo de documentário “Marcados para Morrer”.

Um longa que ele gostaria de ter dirigido? “Mommy”, de Xavier Dolan, drama sobre a relação entre uma mãe desajustada e o filho adolescente, rebelde e hiperativo. “Tem a ver com a minha infância. Aquele filme me bate.”

Cauã  será um dos chamarizes da série “Ilha de Ferro”, megaprodução da Rede Globo que será a grande aposta da emissora para inaugurar o seu serviço de vídeo sob demanda. Embora sem data de estreia, a atração tem já duas temporadas filmadas.

Na trama, o ator fará um petroleiro que passa boa parte do mês numa plataforma em alto-mar. A chegada de uma uma nova funcionária (Maria Casadevall) colocará em xeque sua almejada promoção e suscitará debates sobres emancipação feminina. 

Em outubro, ele também vestirá as calças de dom Pedro 1º num longa comandado por Laís Bodanzky (“Como Nossos Pais”). “Pedro” terá, segundo o ator, um olhar “não caricato e mais europeu” e mostrará um lado “que poucos conhecem” sobre o imperador.

A inspiração veio da biografia escrita por Neill Macaulay, americano que lutou ao lado de Fidel na Revolução Cubana.

Será um “dom Pedro controverso”: “o absolutista que era amigo das ideias liberais”, o imperador que, “quando estava duro, queimava os pangarés com o selo real e vendia”.

Cauã, que é um dos produtores do longa, diz que Bodanzky foi chamada para dar um “olhar feminino” ao longa.

“Ela está levando o filme para um lado que as pessoas vão se perguntar: ‘Opa, existiu isso?’. Arrisco dizer que é capaz de o grito ‘Independência ou Morte’ nem entrar no corte.”

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