Descrição de chapéu Flip

Brasil tem que ter mais leitores e menos escritores, diz Sérgio Sant'Anna na Flip

Decano e o estreante Gustavo Pacheco discutiram a criação dos contos em Paraty

Sérgio Sant'anna (esq.) e Gustavo Pacheco durante encontro na Flip - Keiny Andrade/Folhapress
Maurício Meireles
Paraty

Foi em tom de conversa na varanda o encontro do decano Sérgio Sant'Anna e o estreante Gustavo Pacheco, na noite desta quinta-feira (26), na Flip. Os dois discutiram sua relação com a criação dos contos e as particularidades da narrativa breve —num encontro marcado por risos e aplausos.

Em dado momento, o mediador do debate, o jornalista Guilherme Freitas, perguntou aos dois como se relacionavam com a literatura contemporânea.

Depois de dizer que lê tanto obras brasileiras quanto estrangeiras e contar que recebe muitos lançamentos em casa, Sant'Anna, um dos maiores autores brasileiros em atividade, arrancou risos da plateia ao disparar: "Não tenho tempo de ler esses livros todos. Tenho a opinião de que no Brasil está se escrevendo demais. O Brasil tem que ter mais leitores em menos escritores".

A modéstia do autor de 76 anos, quando questionado sobre sua produção, fazia parecer fácil a arte da narrativa breve —mas Sant'Anna é um escritor com tratamento rigoroso da linguagem.

"Literatura é um ato de tremenda liberdade. Parece imaginação e é real. Parece real e é imaginação", disse.
O autor arrancou risos da plateia ao contar que optou por ser contista e não romancista porque se angustia ao escrever —e que, por isso, não seria bom escrever algo mais longo.

Ele, que publicou sete livros nos últimos cinco anos, afirmou ainda que quer escrever menos —embora o desejo de produzir permaneça.

"Tem a questão da qualidade de vida. Escrever me angustia. E eu não estou a fim de sofrer tanta angústia assim. Estou a fim de aproveitar o meu tempo com prazer", afirmou ele.

Já Gustavo Pacheco, que lança na Flip "Alguns Humanos" (Tinta da China) e tem despontado como uma das revelações da literatura brasileira, contou que Sant'Anna foi o primeiro escritor de carne e osso que conheceu, quando ainda era adolescente e estava na escola.

"Eu perguntei: 'Os livros são tão caros no Brasil. Você como escritor não se preocupa com isso?'. E ele respondeu: 'Não, eu me preocupo em escrever e isso já é o bastante'."

Sant'Anna completa, em 2019, 50 anos de carreira literária. Questionado sobre como via o envelhecimento, ele destacou a importância que os textos autobiográficos passaram a ter para si. Ele destacou o conto "Vibrações".

"Há as vivências de infância, minhas ruas de bairro de Botafogo, a minha paixão pelo Fluminense. É um privilégio. É como se você vivesse duas vezes. Uma quando você viveu, que é alucinadamente rápido, outra quando você escreve", afirmou.

Sant'Anna contou ainda como acha que chegou a uma voz própria em sua literatura —​e que se sente mais influenciado pelas artes plásticas do que por contistas do passado.

A mesa começou com uma homenagem ao escritor carioca Victor Heringer, morto em março deste ano —um vídeo projetado no telão o exibia lendo um poema de Hilda Hilst, aplaudido ao final. A curadora Joselia Aguiar contou que planejava convidá-lo para esta edição da festa literária.

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