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Volume inédito dos diários de Saramago deve sair em outubro

Publicação da última parte dos 'Cadernos de Lanzarote' marca 20 anos do Nobel do escritor

João Céu e Silva
Lisboa

A palavra "digna" é a última a ser escrita no inédito de José Saramago descoberto em fevereiro. 

Mas, no livro, a expressão não se refere a questões políticas ou sociais. No fim de "Último Caderno de Lanzarote", o escritor conta que estava comprando meias numa loja e foi reconhecido por uma leitora enquanto se baixava para as experimentar —daí escrever que "não estava numa posição muito digna".

O lançamento do inédito, que permanecia desconhecido mesmo depois de fevereiro, foi anunciado na tarde desta terça (3) em Portugal pela viúva do escritor e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo editor da Porto, Manuel Alberto Valente. A publicação está prevista para 8 de outubro.

O escritor português José Saramago
O escritor português José Saramago, vencedor em 1998 do Nobel de Literatura - Cleo Velleda/Folhapress

O livro já havia sido mencionado por Saramago em entrevistas, mas, com a confusão que sucedeu a nomeação do escritor ao Prêmio Nobel da Literatura de 1998, o assunto acabou no esquecimento, e a edição dos "Cadernos de Lanzarote" —a sequência tem sete volumes— foi interrompida.

Capítulo final de uma série de diários, o último caderno de Saramago reúne textos de 1998 e 1999, quando o português, que morreu em 2010, atingiu um dos momentos mais notáveis da carreira ao vencer o Nobel 

Sem divulgar seu conteúdo, Pilar del Rio diz que o original revela o método de trabalho de Saramago. "Há dias muito significativos; outros, sem anotações", afirmou a tradutora. "Emocionei-me profundamente com várias partes, como aquelas em que [o escritor] faz questão de registrar os nomes dos jornalistas a quem deu dezenas de entrevistas. Ou quando anota 'ler jornais' para depois recriar esses dias [nas obras]."

O livro também deve revelar menos da vida pessoal do escritor, que, nos últimos dois cadernos, assumiu posições mais definidas em relação ao Brasil, Uruguai, México e outros países da América Latina.

Descoberta

Segundo Pilar del Río, a última edição da sequência de Saramago estava escondida em seu computador, numa pasta dos "Cadernos de Lanzarote" nunca aberta antes. A descoberta veio quando o editor Fernando Gómez Aguilera, da Porto, consultou os arquivos em busca de um dado para um livro que estava preparando sobre as conferências do escritor.

"Pensava que estava tudo publicado", disse Pilar, que contou que o inédito a deixou boquiaberta. "Só posso dizer que foi com muita perplexidade que me dei conta de que ninguém tinha percebido a existência deste livro: a tradutora [ela mesma], o editor e o autor."

Durante o anúncio do lançamento do inédito, Manuel Alberto Valente criticou o Ministério da Cultura e as autoridades oficiais portuguesas por dar pouca atenção aos 20 anos do Nobel de Saramago, único escritor de língua portuguesa que recebeu o prêmio. "Pode ser que estejam preparando uma celebração nacional, mas, se existir, está em segredo", disse.

"Ironicamente, estamos num ano em que não vai haver Nobel", continuou. "E temos a melhor razão para comemorar José Saramago."

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